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outubro 22, 2026 16:50

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Por que o Estado paga preços tão diferentes pelo mesmo tipo de asfalto?

Levantamento da Rádio Calçada nos contratos de pavimentação em tratamento superficial duplo pagos pelo governo do Piauí em 2026 mostra que o custo por quilômetro varia de R$ 759 mil a R$ 1,79 milhão. É a mesma tecnologia, contratada por oito órgãos diferentes, com diferença de até 2,4 vezes entre o mais barato e o mais caro.

Por Trabulo Neto

O governo do Estado do Piauí pavimenta estradas vicinais e rodovias estaduais com uma técnica chamada tratamento superficial duplo, ou TSD. É o revestimento mais comum fora das rodovias principais: em vez da camada espessa de massa asfáltica usada nas grandes vias, aplicam-se duas camadas de brita ligadas por emulsão asfáltica. Sai mais barato e serve para tráfego leve.

Essa reportagem comparou o que o Estado paga por quilômetro dessa mesma técnica. O resultado é que o preço muda muito conforme o contrato, e não há no Portal da Transparência nenhuma informação que explique a diferença ao cidadão.

O que o levantamento mostra

Foram identificados onze contratos de pavimentação em tratamento superficial duplo com pagamentos registrados na base de empenhos de 2026, nos quais o objeto do contrato declara a extensão total do trecho. Dividindo o valor total de cada contrato pela extensão contratada, chega-se ao seguinte quadro.

Órgão Empresa Contrato Extensão Valor do contrato Por km
Secretaria das Cidades PAC Engenharia 37/2020 18,00 km R$ 8.682.696,31 R$ 482.372
IDEPI PAC Engenharia 049/2018 68,40 km R$ 42.131.968,24 R$ 615.964
Integração e Desenvolvimento Regional MTC Construções 36/2026 40,08 km R$ 30.440.541,20 R$ 759.494
Secretaria da Infraestrutura Construtora Solução Piripiri, Lion Mining 8,96 km R$ 8.556.228,97 R$ 954.936
IDEPI Consórcio Baresepac 093/2024 16,59 km R$ 15.880.053,09 R$ 957.206
Companhia Ferroviária Construtora Soma 026/2024 21,715 km R$ 22.162.295,23 R$ 1.020.598
Secretaria de Defesa Civil Pro Engenharia 067/2026 6,615 km R$ 7.698.988,03 R$ 1.163.868
Secretaria da Infraestrutura Construtora Solução 056/2026 10,54 km R$ 12.575.719,57 R$ 1.193.142
Departamento de Estradas de Rodagem Consórcio JS Assunção 007/2024 17,893 km R$ 25.685.885,88 R$ 1.435.527
Secretaria dos Transportes A K R Prado 48/2026 17,50 km R$ 25.659.234,63 R$ 1.466.242
Secretaria dos Transportes Consórcio Currais II 25/2025 29,20 km R$ 52.344.803,65 R$ 1.792.630

Considerando apenas os nove contratos publicados de 2024 em diante, que estão sujeitos a preços de mercado próximos entre si, a mediana é de R$ 1.163.868 por quilômetro. O mais barato desse grupo custa R$ 759.494 por quilômetro. O mais caro custa R$ 1.792.630, ou 2,4 vezes o valor do mais barato.

Os dois extremos

O contrato mais barato do grupo recente é o 36/2026, da Secretaria de Integração e Desenvolvimento Regional com a MTC Construções: 40,08 quilômetros na rodovia PI-364, entre Cabeceiras e Lagoa Alegre, por R$ 30.440.541,20. O objeto prevê tratamento superficial duplo com banho diluído na pista de rolamento e tratamento superficial simples com banho diluído nos acostamentos.

O mais caro é o 25/2025, da Secretaria dos Transportes com o Consórcio Currais II: 29,20 quilômetros na rodovia PI-392, no trecho entre Currais e o entroncamento com a PI-397, por R$ 52.344.803,65, com recursos de contrato de repasse federal.

Os dois objetos descrevem a mesma técnica de revestimento. O contrato mais caro custa, por quilômetro, R$ 1.033.136 a mais que o mais barato. Em 29,2 quilômetros, a diferença acumulada passaria de R$ 30 milhões.

O que pode explicar a diferença, e o que o Portal não informa

Diferença de preço por quilômetro não é, por si só, indício de irregularidade. Uma obra rodoviária custa mais ou menos conforme a largura da pista, a espessura das camadas, a necessidade de terraplenagem, a presença de pontes, bueiros e drenagem, a distância da pedreira que fornece a brita, o tipo de solo e a existência de sinalização e obras complementares no mesmo contrato.

O problema é que nada disso é informado ao cidadão. O Portal da Transparência publica o valor do contrato, o nome da empresa e uma descrição de uma linha. Não publica a planilha orçamentária, que é o documento em que cada serviço aparece com quantidade e preço unitário, nem a data-base dos preços de referência, nem o projeto executivo.

Sem a planilha, nem o cidadão nem a imprensa conseguem saber se a diferença vem da engenharia ou do preço.

É avaliação desta redação que a publicação das planilhas orçamentárias dos contratos de obras no Portal da Transparência é medida de transparência elementar, já adotada por outros entes da federação, e que sua ausência impede o controle social justamente na área em que o Estado mais gasta.

Sobre o contrato mais recente

O contrato 056/2026, da Secretaria da Infraestrutura com a Construtora Solução, para 10,54 quilômetros entre o entroncamento da PI-415 e o povoado Pitombas, em Sebastião Barros, aparece neste levantamento em posição intermediária: R$ 1.193.142 por quilômetro, logo acima da mediana do grupo recente. Pelos dados disponíveis, não há indício de preço fora do padrão praticado pelo próprio Estado.

O que chama atenção nesse contrato é o ritmo. Publicado em 17 de julho de 2026, ele teve a segunda medição empenhada em 3 de setembro, no valor de R$ 3.830.141,75, pela nota 2026NE00396, já liquidada. Em menos de dois meses de vigência, a obra teve 30,46% do valor contratado medido e atestado.

A mesma empresa tem outro contrato de tratamento superficial duplo com a mesma secretaria, publicado na mesma data de 17 de julho, para 8,96 quilômetros entre o entroncamento da mineradora Lion Mining e o povoado Formosa, em Piripiri, no valor de R$ 8.556.228,97, custeado por operação de crédito do PROMAIS.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Secretaria da Infraestrutura, Secretaria dos Transportes, Secretaria das Cidades, Secretaria de Integração e Desenvolvimento Regional, Secretaria de Defesa Civil, Departamento de Estradas de Rodagem, Instituto de Desenvolvimento do Piauí, Companhia Ferroviária e de Logística do Piauí, PAC Engenharia, MTC Construções, Construtora Solução, Consórcio Baresepac, Construtora Soma, Pro Engenharia, Consórcio JS Assunção, A K R Prado e Consórcio Currais II.

A redação pergunta, especificamente, quais fatores técnicos explicam a diferença de custo por quilômetro entre contratos da mesma tecnologia de pavimentação, e solicita cópia das planilhas orçamentárias dos contratos citados.

As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br

ÓRGÃOS DE CONTROLE

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí manifestação sobre a variação de custo por quilômetro entre contratos estaduais da mesma tecnologia de pavimentação e sobre a ausência das planilhas orçamentárias de obras no Portal da Transparência.

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