Graneleiro KONTA II, de bandeira do Panamá, atracou em 29 de junho e permanece imóvel no Rio Igaraçu desde então; calado de 4,1 metros registrado nesta segunda-feira indica embarcação ainda leve, sem carga completa
Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior
O graneleiro KONTA II, embarcação de bandeira do Panamá contratada para a operação de escoamento de minério de ferro pelo Porto de Luís Correia, completa nesta terça-feira (07.07) oito dias parado no mesmo ponto do Rio Igaraçu, em frente à área portuária.
O que os dados de rastreamento mostram
Os registros do sistema AIS (Automatic Identification System), consultados pela reportagem às vésperas desta publicação, apontam os seguintes dados da embarcação:
Situação: atracado (moored), com velocidade de 0 nó. Destino declarado: Luís Correia, com chegada registrada em 29 de junho, às 19h. Calado atual: 4,1 metros. Dimensões: 110 metros de comprimento por 27 metros de boca. Ano de construção: 2017. Porte bruto (DWT): 9.595 toneladas. IMO: 8530283. MMSI: 352002858. Coordenadas: 2.87124 S / 41.65085 W — posição no canal do Rio Igaraçu, próximo à margem urbana de Luís Correia.
No mesmo trecho do rio, o rastreamento identifica duas embarcações de apoio nas imediações: OMVAC DIEZ e INTER XI.
O que o calado indica — fato e avaliação separados
Fato: o calado informado pelo próprio transponder do navio nesta segunda-feira é de 4,1 metros — o mesmo patamar de embarcação leve ou em lastro, muito abaixo do calado máximo de um graneleiro dessa classe quando carregado.
Avaliação da reportagem: um navio que permanece oito dias atracado com calado de embarcação vazia sugere uma de duas hipóteses — ou o carregamento de minério ainda não começou, ou avança em ritmo muito inferior ao previsto. Em operações portuárias, tempo de navio parado é custo: a permanência de embarcação fretada além do prazo contratado gera, em regra, encargos de sobre-estadia (demurrage), pagos por dia de atraso. A quem cabe essa conta — à mineradora, ao operador portuário ou, direta ou indiretamente, ao Estado — é uma das perguntas centrais desta apuração.
O contexto: as promessas da operação
Como esta reportagem vem documentando em série de matérias, a operação de transbordo de minério pelo Porto de Luís Correia foi apresentada pelo governo estadual como alternativa competitiva à rota do Porto do Pecém (CE). A série já registrou: a discrepância entre a profundidade oficial declarada do canal (7 metros) e as estimativas obtidas por análise hidrostática das embarcações; o histórico de contratos de dragagem, que somam dezenas de milhões de reais com aditivos; o investimento de R$ 9,5 milhões em armazém inflável para estocagem do minério; e a admissão pública de custos operacionais mais elevados na rota piauiense.
A imobilidade prolongada do KONTA II adiciona um dado novo e verificável a esse quadro: a operação, na prática, não está fluindo no ritmo anunciado.
Contraditório
A reportagem encaminha os seguintes questionamentos à Portos do Piauí S.A. e à Secretaria de Estado responsável pela operação portuária, e solicita resposta:
- Qual a razão da permanência do graneleiro KONTA II atracado desde 29 de junho sem registro de movimentação?
- O carregamento de minério de ferro na embarcação já foi iniciado? Em caso positivo, qual o volume embarcado até esta data e qual o volume total previsto?
- Qual o cronograma contratual de carregamento e partida do KONTA II, e ele está sendo cumprido?
- Há incidência de encargos de sobre-estadia (demurrage) pela permanência prolongada da embarcação? Em caso positivo, qual o valor diário e quem arca com esse custo?
- A profundidade atual do canal de acesso comporta a saída do navio com carga plena? Qual o calado máximo autorizado para a operação?
- Há alguma pendência de dragagem, licenciamento, praticagem ou logística terrestre (chegada do minério por caminhões) que explique a paralisação?
O espaço segue aberto para manifestação, que será publicada na íntegra.
Aos órgãos de controle
Esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se já têm conhecimento da permanência prolongada da embarcação e dos custos associados à operação de minério no Porto de Luís Correia, e quais medidas pretendem adotar. As respostas serão publicadas na íntegra.
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