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julho 26, 2026 05:37

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Em Oeiras, o Hospital Regional Deolindo Couto passou junho inteiro sem internar ninguém

Demonstrativo assinado pela direção da unidade e protocolado no Tribunal de Contas em 23 de julho registra 251 gestantes em observação, nenhuma internação obstétrica e nenhuma transferência no mês. No mesmo documento, o total geral da UPA 24 horas de Oeiras aparece inflado em 9.419 atendimentos, e os campos de valor da produção seguem em branco nas duas unidades.

Por Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Duzentas e cinquenta e uma mulheres passaram pelo serviço obstétrico do Hospital Regional Deolindo Couto, em Oeiras, durante o mês de junho de 2026, e permaneceram em observação por até 24 horas.

Nenhuma delas foi internada. Nenhuma delas foi transferida.

É o que informa o Demonstrativo de Pacientes Atendidos da própria unidade, assinado digitalmente pela Diretora Geral do complexo HRDC/UPA, Tays Emanuelly Leal Mendes, e por Geovan da Silva Vieira, e protocolado via Documentação Web do Tribunal de Contas do Estado do Piauí em 23 de julho de 2026, às 17h33. O documento está datado de Oeiras, 10 de julho.

O demonstrativo não registra apenas a ausência de internações obstétricas. Registra zero nas quatro clínicas: médica, pediátrica, cirúrgica e obstétrica. O total de atendimentos na internação do hospital, em todo o mês de junho de 2026, é zero. O total de transferências da internação também é zero.

Publicação oficial do Governo do Estado do Piauí descreve o complexo HRDC/UPA como referência em assistência médica hospitalar para cerca de 120 mil habitantes de 17 municípios do Território do Vale do Canindé, com 92 leitos, dos quais 10 de Unidade de Terapia Intensiva, e com serviços de internação, cirurgia e parto.

Nas 720 horas de junho de 2026, segundo o documento que a própria direção enviou ao órgão de controle, nenhum desses leitos recebeu paciente.

O total da UPA de Oeiras não fecha

O mesmo protocolo traz o demonstrativo da Unidade de Pronto Atendimento 24 horas de Oeiras, sob a mesma direção.

A unidade declara TOTAL GERAL de 49.010 atendimentos no mês.

As parcelas informadas pelo próprio documento são três. Ambulatorial: 9.419. Urgência e emergência: 30.147. Transferências: 25. A soma é 39.591.

A diferença é de 9.419 atendimentos, valor idêntico ao do bloco ambulatorial, computado duas vezes na linha final. O número divulgado está 23,8% acima do que as próprias linhas do documento sustentam.

Esta redação conferiu todos os demais subtotais das duas unidades. Os totais do hospital fecham: 616 consultas, 7.483 exames, 1.826 no bloco fisioterápico, 9.925 no ambulatorial, 1.012 na urgência, 10.937 no total geral. Na UPA, fecham 9.419 exames, 1.002 consultas de urgência, 247 pequenas cirurgias e 30.147 na urgência. O erro está isolado no total geral da UPA, que é justamente o número de vitrine.

Números que não se sustentam entre si

O demonstrativo da UPA informa 4.705 classificações de risco realizadas por enfermeiro em junho e 1.002 consultas médicas de urgência no mesmo mês. São 3.703 pacientes classificados sem consulta médica correspondente, 78,7% do total.

Informa ainda 3.443 pacientes em observação até 24 horas, contra as mesmas 1.002 consultas médicas. São 3,4 pacientes em observação para cada consulta registrada.

A maior linha do documento é a administração de medicamentos: 20.298 terapias medicamentosas na UPA, o equivalente a 20,3 para cada consulta médica de urgência. Sozinha, essa linha responde por 41,4% do total geral declarado pela unidade.

O bloco ambulatorial da UPA registra zero consultas médicas nas nove especialidades listadas e, ao mesmo tempo, 9.419 exames, entre eles 6.364 de patologia clínica e 2.789 de radiologia.

No hospital, são 4.597 exames de patologia clínica para 616 consultas ambulatoriais, 7,5 exames por consulta em unidade que declara nenhuma internação. Os 1.257 exames de radiologia e as 1.251 tomografias computadorizadas ficam separados por seis unidades, apesar de custo e complexidade distintos.

Aparecem zeradas no ambulatório do hospital, em junho, as consultas de neurologia, neuropsiquiatria, urologia, otorrinolaringologia, gastroenterologia, cardiologia, ginecologia e cirurgia pediátrica. Também zerados os exames de encefalograma, endoscopia digestiva e ultrassonografia com doppler colorido de vasos, além de todo o bloco de pequenas cirurgias na urgência.

Nos dois demonstrativos, os quadros VALOR DA PRODUÇÃO trazem as linhas BPA, AIH’s e TOTAL sem qualquer preenchimento. Os quadros de teto financeiro limitam-se a citar a Portaria nº 2.241, de 29 de dezembro de 2015, e a Resolução CIB-PI nº 115/2015, sem informar valores.

É avaliação desta redação que a remessa do documento ao Tribunal de Contas sem os valores de produção esvazia a finalidade do próprio envio, porque impede o confronto entre a produção física declarada e o que foi faturado e pago às unidades no período.

Não é um documento isolado

Esta redação vem examinando demonstrativos mensais de produção e censos hospitalares de unidades da Secretaria de Estado da Saúde protocolados pela mesma via, incluindo o Hospital Regional de Amarante, o Hospital Estadual José Furtado de Mendonça, em São Miguel do Tapuio, e o Hospital João Luiz de Moraes, em Demerval Lobão.

O padrão se repete: blocos assistenciais inteiros zerados, totais que somam pacientes com procedimentos, e campos financeiros em branco.

Em Oeiras, o mesmo paciente chega a ser contado três vezes. Os 166 atendidos em fisioterapia aparecem como consultas fisioterapêuticas no quadro de consultas médicas, novamente como pacientes atendidos no bloco fisioterápico, e são somados às 1.660 sessões realizadas. As 224 consultas de ginecologista e obstetra na urgência têm número idêntico ao dos 224 atendimentos por enfermeiro, e os dois entram no mesmo total.

O que o Estado divulga como atendimento, nesses documentos, não é pessoa atendida.

Contraditório

Esta reportagem solicita à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí e à direção do complexo HRDC/UPA de Oeiras esclarecimentos sobre o destino das 251 pacientes obstétricas registradas em observação sem internação e sem transferência, sobre a ausência de qualquer internação no Hospital Regional Deolindo Couto em junho de 2026, sobre a divergência de 9.419 atendimentos no total geral da UPA 24 horas de Oeiras, e sobre a razão de os campos de valor da produção terem sido remetidos ao Tribunal de Contas sem preenchimento.

Esta redação registra que publica na íntegra qualquer manifestação da SESAPI, da direção do complexo e dos signatários do documento.

Órgãos de controle

Esta reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí que se manifestem sobre a consistência dos demonstrativos de junho de 2026 do complexo HRDC/UPA de Oeiras, protocolados no próprio Tribunal via Documentação Web.

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