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julho 25, 2026 19:56

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Hospital de Esperantina declara mais “pacientes” em um mês do que a cidade inteira tem de moradores

Esperantina tem 40.970 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. O Hospital Estadual Dr. Julio Hartman informou ao Tribunal de Contas que atendeu 42.961 “pacientes” só em junho. O segredo da conta: cada exame de laboratório, cada remédio aplicado na veia e cada eletrocardiograma entra na estatística como se fosse uma pessoa. E o campo do teto financeiro, que deveria mostrar o dinheiro por trás desses números, foi enviado em branco duas vezes no mesmo papel

Por Trabulo Neto  e Trabulo Júnior 

O que você precisa saber

  • Esperantina, no norte do Piauí, tem 40.970 moradores. O hospital estadual da cidade declarou 42.961 “pacientes atendidos” em 30 dias: mais atendimentos do que habitantes;
  • O número não é de pessoas, é de procedimentos: só o bloco chamado de “emergência” soma 29.396 registros, e dentro dele estão produção de laboratório e administração de medicamento;
  • No bloco de internação aparecem partos normais, cesáreas e óbitos após internação, números sensíveis enviados sem nenhuma explicação;
  • Os dois campos de “teto financeiro” do formulário foram mandados vazios ao Tribunal de Contas;
  • No mesmo dia 22 de julho, outra unidade da mesma rede estadual, em Paes Landim, entregou seu demonstrativo com uma conta feita de outro jeito. Cada hospital do governo presta contas do seu próprio modo.

Faça uma conta simples. Se cada morador de Esperantina, do recém-nascido ao mais idoso, tivesse ido ao Hospital Estadual Dr. Julio Hartman em junho, ainda faltariam quase 2 mil atendimentos para fechar o número que o hospital declarou ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI): 42.961 “pacientes atendidos” em um único mês.

É claro que isso não aconteceu. E é exatamente aí que mora a história.

É fato que o Hospital Estadual Dr. Julio Hartman, unidade da rede própria da Secretaria de Saúde do Piauí (SESAPI) em Esperantina, a 11ª cidade mais populosa do estado, enviou ao TCE-PI, pelo sistema Documentação Web, o formulário chamado Anexo IX, o “Demonstrativo do Número de Pacientes Atendidos”, referente a junho de 2026. É fato que o papel está datado de 30 de junho, traz o nome do diretor clínico Pedro Braga Júnior e foi assinado digitalmente em 22 de julho de 2026 por Vilma Rodrigues Batista Moraes e por Geovan da Silva Vieira.

É fato que o total declarado é de 42.961 registros: 12.544 no ambulatório, 1.021 na internação e 29.396 na emergência. É fato que Esperantina tem 40.970 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE.

De onde saem 43 mil “pacientes”

Pense no que acontece quando alguém chega passando mal numa emergência. A pessoa passa pelo médico, faz um exame de sangue, toma medicação na veia e faz um eletrocardiograma. É uma pessoa. No papel do hospital, viram quatro registros.

É fato que o bloco de emergência do Anexo IX inclui, entre suas rubricas, produção laboratorial, administração de medicamento, consultas de enfermagem e eletrocardiografia, ao lado das consultas médicas e das pequenas cirurgias. É fato que uma única dessas rubricas registra 11.407 ocorrências e outra, 7.393.

É avaliação desta redação que nenhum hospital do porte do Julio Hartman atende 29 mil pacientes de emergência em 30 dias. O que o formulário soma é tudo o que foi feito, não quem foi atendido. E essa diferença importa: o Anexo IX é a peça que acompanha a prestação de contas mensal e ajuda a justificar o dinheiro que a unidade recebe. Quanto mais gorda a produção no papel, mais robusta parece a gestão.

Partos, cesáreas e óbitos jogados no papel

É fato que o bloco de internação, com 1.021 registros, lista internações, observação, transferências, óbitos após internação e partos, normais e cesáreos, com os valores 505, 398, 50, 31, 27 e 10 distribuídos entre essas linhas.

É avaliação desta redação que, confirmada a conferência, esse percentual de cesáreas merece uma apuração só dele: a Organização Mundial da Saúde considera que, do ponto de vista da saúde da população, taxas acima de 10% a 15% não se justificam. E o número de óbitos após internação num único mês precisa ser comparado com o histórico do hospital nos sistemas do Ministério da Saúde. Do jeito que o formulário chega ao Tribunal de Contas, não dá para comparar nada.

O campo do dinheiro, vazio duas vezes

É fato que o Anexo IX tem duas linhas escritas “TETO FINANCEIRO”, uma depois do bloco do ambulatório e outra depois do bloco de internação. É fato que as duas foram enviadas em branco.

E não foi caso isolado. É fato que o mesmo aconteceu no demonstrativo da Unidade Mista de Saúde de Paes Landim, outra unidade da rede estadual, protocolado no mesmo dia 22 de julho e revelado em reportagem própria desta redação. É avaliação desta redação que, quando o campo do dinheiro vem vazio em unidades diferentes da mesma secretaria, isso deixa de parecer esquecimento e passa a parecer prática: a rede da SESAPI mostra produção ao Tribunal de Contas, mas não informa, no mesmo papel, o parâmetro financeiro que essa produção deveria justificar.

Cada hospital com a sua matemática

É fato que, no mesmo mês de junho, a unidade de Paes Landim declarou 3.103 atendimentos usando um formulário diferente e outra forma de contar, enquanto Esperantina somou procedimentos de toda natureza até chegar a 42.961. É avaliação desta redação que, sem um padrão único, os números dos hospitais do estado não podem ser comparados entre si, e o controle externo fica sem condição de avaliar desempenho, custo por atendimento ou adequação de teto a partir desses papéis.

Existe, porém, um caminho de verificação que é público: os sistemas do Ministério da Saúde (SIA/SUS e SIH/SUS) mostram a produção que o SUS de fato aprovou e pagou para cada hospital. Basta comparar com o que o hospital declarou ao TCE-PI. Esta redação fará esse cruzamento.

Contraditório

A reportagem solicita posicionamento da Secretaria de Saúde do Estado do Piauí (SESAPI) e da direção do Hospital Estadual Dr. Julio Hartman sobre a forma de contar pacientes no Anexo IX, sobre o número real de pessoas distintas atendidas no mês, sobre a proporção de cesáreas e sobre os campos de teto financeiro enviados em branco. O espaço permanece aberto e eventuais respostas serão publicadas na íntegra.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita que o Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), o Ministério Público de Contas (MPC-PI) e o Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) examinem a metodologia dos demonstrativos mensais da rede própria da SESAPI, a omissão repetida dos valores de teto financeiro e a diferença entre a produção declarada ao controle externo e a produção aprovada nos sistemas nacionais do SUS.

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