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julho 25, 2026 19:57

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Em Paes Landim, hospital do governo do Piauí fez só 6 internações no mês inteiro

Papel oficial enviado ao Tribunal de Contas mostra que a Unidade Mista Félix Barroso da Silva, mantida pelo governo do estado na cidade de Paes Landim, no sul do Piauí, internou uma pessoa a cada cinco dias em junho. O serviço mais feito lá não é consulta com médico: é aplicação de injeção. E o campo do dinheiro, que deveria mostrar o teto financeiro da unidade, foi mandado em branco

Por Trabulo Neto e Trabulo Júnior 

O que você precisa saber

  • A unidade fica em Paes Landim, cidade de 4.088 habitantes no sul do Piauí, segundo o Censo 2022 do IBGE;
  • Ela se chama “mista” porque deveria funcionar como hospital, com leitos e internação. Em junho de 2026, internou 6 pessoas. Seis. No mês inteiro;
  • O procedimento mais realizado foi injeção: 1.531 aplicações, mais do que as 1.098 consultas médicas;
  • A emergência atendeu 96 consultas no mês, ou seja, cerca de 3 por dia;
  • Curativo especial: zero;
  • O formulário tem um campo para informar o teto financeiro, que é o limite de dinheiro que banca a produção do hospital. Esse campo foi enviado vazio ao Tribunal de Contas.

Todo mês, os hospitais do governo do estado precisam mandar ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) um papel dizendo quantos pacientes atenderam. É a prestação de contas: o documento serve para mostrar que o dinheiro público investido na unidade está virando atendimento para a população.

É fato que a Unidade Mista de Saúde “Félix Barroso da Silva”, que pertence à rede da Secretaria de Saúde do Piauí (SESAPI) e usa o CNPJ da própria secretaria (06.553.564/0159-17), enviou esse documento referente a junho de 2026. É fato que esse mesmo CNPJ está registrado no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES 2324555) do Ministério da Saúde como a unidade mista de saúde do município de Paes Landim, no sul do estado. É fato que o documento foi assinado digitalmente no dia 22 de julho de 2026, à noite, pelas servidoras Sheirley Hilario Barbosa de Carvalho e Danyella Costa Guimaraes de Sousa, a diretora geral.

O total declarado impressiona à primeira vista: 3.103 atendimentos. Mas é quando se abre a conta que a história muda.

Um hospital que quase não interna

É fato que o documento registra 6 internações em junho. Para comparar: o mês tem 30 dias. Deu uma internação a cada cinco dias. Além disso, 58 pessoas ficaram em observação.

É fato que a emergência da unidade registrou 96 consultas no mês, 3 imobilizações, 23 pequenas cirurgias, 9 retiradas de corpos estranhos e 2 outros procedimentos. Somando tudo: 133 atendimentos de emergência em 30 dias, numa cidade de pouco mais de 4 mil moradores.

É avaliação desta redação que esses números são de um posto de saúde, não de um hospital. Só que posto de saúde não precisa de estrutura de internação: leitos, plantão, escala de equipe, insumos hospitalares. Tudo isso custa dinheiro todo mês. A pergunta que o documento deixa no ar é simples: quanto custa manter essa estrutura em Paes Landim para internar 6 pessoas?

O campeão de produção: a injeção

É fato que o serviço mais realizado na unidade não foi a consulta médica. Foi a injeção: 1.531 aplicações, contra 1.098 consultas. Ou seja, para cada consulta com médico, houve quase uma injeção e meia. Numa cidade de 4.088 habitantes, o número de injeções declaradas em um único mês equivale a mais de um terço da população inteira do município.

E tem um detalhe na conta. Cada injeção entra no papel como um “paciente atendido”. Cada nebulização também (foram 154). Cada curativo simples também (foram 59). É avaliação desta redação que isso engorda o número final: uma mesma pessoa que passa no médico, toma uma injeção e faz uma nebulização pode virar três “pacientes” na estatística. O título do documento, porém, é “Demonstrativo do Número de Pacientes Atendidos”.

O campo do dinheiro veio em branco

É fato que o formulário tem um campo chamado “TETO: AIH’S/UCAS’S”. Traduzindo: é ali que a unidade informa o limite financeiro das internações, o valor que o SUS autoriza e paga. É fato que esse campo foi enviado em branco.

É avaliação desta redação que isso esvazia o propósito do documento. O papel existe justamente para comparar produção com dinheiro. Sem o valor do teto, o Tribunal de Contas recebe só metade da história: sabe quantos atendimentos a unidade diz ter feito, mas não sabe, naquele mesmo papel, quanto isso deveria custar.

Contraditório

A reportagem solicita posicionamento da Secretaria de Saúde do Estado do Piauí (SESAPI) e da direção da Unidade Mista de Saúde “Félix Barroso da Silva”, de Paes Landim, sobre o número de internações, sobre a forma de contar pacientes e sobre o campo do teto financeiro enviado em branco. O espaço permanece aberto e eventuais respostas serão publicadas na íntegra.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita que o Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), o Ministério Público de Contas (MPC-PI) e o Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) examinem se a estrutura mantida na unidade de Paes Landim é compatível com a produção declarada e por que os demonstrativos da rede estadual chegam ao controle externo sem o valor do teto financeiro.

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