Na edição de 23 de julho, a Secretaria de Turismo homologou calçamento e pista de caminhada, a do Trabalho contratou poços e chafarizes, a do Agronegócio fiscalizou praça com campo society, a da Defesa Civil recebeu calçamentos, e até a companhia de ferrovias reformou praça de igreja. Só nos atos com valor publicado, mais de R$ 12 milhões em obras municipais espalhadas por órgãos que não têm a obra como vocação.
Por Trabulo Neto e Trabulo Júnior
Uma única edição do Diário Oficial do Estado do Piauí, a de nº 140/2026, de 23 de julho de 2026, permite fotografar um método de governo. Espalhadas por dezenas de páginas, obras municipais de forte apelo visual, calçamento, praça, quadra, pista de caminhada, poço, aparecem contratadas, homologadas ou recebidas por secretarias e estatais cujas missões institucionais nada têm a ver com pavimento ou concreto.
O inventário do dia, sempre com página e valor do próprio diário:
A Secretaria de Estado do Turismo (SETUR) homologou a construção de pista de caminhada na Avenida São Sebastião, em Parnaíba, para a COSTA E CARVALHO LTDA, por R$ 2.157.072,10 (páginas 130 e 131), e a pavimentação em paralelepípedo de Simplício Mendes para a CANINDÉ CONSTRUÇÕES E SERVIÇOS LTDA, por R$ 995.826,24, homologação publicada duas vezes na mesma edição (páginas 131 a 133). A mesma pasta abriu licitação de R$ 970.000,00 para reformar a praça Sete de Setembro de Bom Jesus (página 65).
A Secretaria do Trabalho e Emprego (SETRE) homologou a implantação de sistemas de abastecimento de água na zona rural de Jurema, por R$ 1.090.000,03 (páginas 136 e 137).
A Secretaria de Integração e Desenvolvimento Regional (SIDERPI) homologou 7.420 metros quadrados de calçamento em Esperantina, por R$ 1.132.415,11 (páginas 135 e 136).
A Secretaria do Agronegócio (SEAGRO) designou fiscais para a construção de praça com campo society em Amarante (Contrato nº 159/2026) e para 5.110 metros quadrados de calçamento em Acauã (Contrato nº 152/2026), sem valores publicados (páginas 9 e 10).
A Secretaria da Defesa Civil (SEDEC) instituiu comissões para receber a conclusão de 18.128,40 metros quadrados de calçamento em José de Freitas e de obras de máquinas pesadas em Castelo do Piauí e Itainópolis (páginas 10 a 13), todas fundamentadas na Lei nº 8.666/1993, revogada para novas contratações.
A Secretaria das Cidades (SECID) republicou licitação de R$ 930.913,13 para quadra poliesportiva coberta em Piripiri (páginas 67 e 68), e a Secretaria da Infraestrutura (SEINFRA) relançou certame de R$ 1.155.682,42 para reformar o anexo da praça matriz de Alto Longá (páginas 66 e 67), além da ordem de serviço de R$ 5.277.895,54 para asfaltar Parnaíba em 30 dias, objeto de matéria própria desta redação.
A Secretaria da Irrigação (SEFIR) homologou sistemas de abastecimento com chafariz em Elesbão Veloso (F B SERVIÇOS LTDA, R$ 534.599,96) e em São Raimundo Nonato (CONSTRUTORA AZIMUTE LTDA, R$ 524.793,34), páginas 133 e 134. O Instituto de Desenvolvimento do Piauí (IDEPI) ratificou dispensa de R$ 128.730,52 para equipagem de poço em Pimenteiras (páginas 134 e 135). A Secretaria dos Transportes (SETRANS) prorrogou três contratos com a TREVO CONSTRUÇÃO E SERVIÇOS LTDA em um único município, Coronel José Dias: praças, portal de entrada e calçamento (páginas 102, 103, 106 e 107). O Desenvolvimento Econômico (SDE) firmou anuência para a segunda etapa da praça dos Anjinhos, em Luzilândia (páginas 95 e 96). E a Companhia Ferroviária e de Logística (CFLP) contratou R$ 1,4 milhão em praças e pista de caminhada, tema de matéria própria.
Somados apenas os atos com valor publicado nesta única edição, o pacote passa de R$ 12 milhões. O que não tem valor publicado, como os contratos fiscalizados pela SEAGRO, engrossa a conta em montante desconhecido, o que já é, em si, um problema de transparência.
Por que espalhar obra por tantas portas
Pulverizar obras por muitos órgãos tem dois efeitos práticos. Primeiro, dilui: nenhum órgão concentra volume suficiente para chamar atenção isolada dos radares de controle, embora o conjunto seja expressivo. Segundo, multiplica padrinhos: cada secretaria vira um balcão de entregas em municípios do interior na véspera do pleito de outubro. O eleitor de Simplício Mendes vê o calçamento; dificilmente vê que quem pagou foi a Secretaria de Turismo.
É avaliação desta redação que a distribuição de obras municipais por pastas sem vocação finalística, num volume dessa ordem e a pouco mais de dois meses da eleição, configura desvio de finalidade orçamentária difuso e recomenda escrutínio caso a caso da origem dos recursos, dos convênios com as prefeituras e dos critérios de escolha dos municípios contemplados, muitos deles de pequeno porte e forte disputa eleitoral. É avaliação desta redação, ainda, que esse padrão dá sequência ao que esta redação já documentou na série sobre aeródromos construídos em municípios sem esgoto.
O que esta redação solicita aos órgãos de controle
O Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) que consolide, por município e por órgão, as obras municipais contratadas pelo Estado no exercício de 2026 e verifique os critérios de seleção dos municípios beneficiados.
O Rádio Calçada solicita ao Ministério Público Eleitoral que acompanhe o calendário de inaugurações dessas obras frente às vedações da Lei nº 9.504/1997.
Contraditório
O espaço está aberto. Cada uma das secretarias e estatais citadas pode apresentar o fundamento de sua atuação em obras municipais, os convênios celebrados e os critérios de escolha dos municípios. Esta redação publica na íntegra as manifestações que receber.














