Rafael Fonteles acompanhou pessoalmente a atracação do Konta II em 24 de junho e afirmou que o projeto havia provado sua viabilidade na prática. Desde então, três embarcações seguem imobilizadas no litoral de Luís Correia, o transbordo não foi concluído e nem o gabinete do governador nem a Companhia Porto Piauí publicaram uma linha sobre o que travou a operação.
Trabulo Neto e Trabulo Júnior
O que foi anunciado
Em 24 de junho de 2026, o navio graneleiro Konta II atracou no Berço 401 do Terminal de Uso Privado da Companhia Porto Piauí, em Luís Correia. A embarcação tem 109 metros de comprimento, 26,8 metros de boca e capacidade aproximada de 9 mil toneladas de minério de ferro por viagem. A manobra de entrada no canal ocorreu por volta das 16h, em velocidade entre 3 e 5 nós, com acompanhamento da Marinha do Brasil e participação de cinco empresas nos serviços de apoio marítimo, agenciamento, operação de rebocadores e arqueação.
O governador Rafael Fonteles acompanhou a atracação a bordo de um helicóptero. Em declaração distribuída pela comunicação oficial, afirmou que foram “116 anos de espera até este momento histórico” e sustentou que o estado havia demonstrado na prática a viabilidade do projeto.
A operação anunciada previa a movimentação de mais de 110 mil toneladas de minério de ferro com destino à China, pelo modelo de transbordo de granéis entre embarcações. O minério tem origem em Piripiri. A Companhia Porto Piauí informou que a técnica dispensaria estruturas portuárias mais complexas e anteciparia o início das operações em até três anos.
O governo do estado divulgou ainda que a nova rota encurta em cerca de 200 quilômetros o trajeto rodoviário entre a mina e o terminal, com economia estimada em R$ 9 milhões por operação de exportação, e que a Lion Mining firmou contrato de longo prazo para escoar até 10 milhões de toneladas pelo complexo.
O que existe no mar em 25 de julho de 2026
A operação anunciada envolve três embarcações. O graneleiro Konta II recebe a carga no Berço 401. Um navio de transbordo, equipado com guindastes e esteiras, opera como armazém flutuante na área de fundeio, a cerca de 30 quilômetros da costa. Um navio de classe oceânica, com capacidade superior a 100 mil toneladas, é a embarcação que efetivamente levaria o minério ao mercado comprador.
Um mês após a atracação celebrada como marco histórico, as três embarcações permanecem sem concluir a operação de transbordo. Nenhum quilo de minério de ferro piauiense foi exportado pelo Porto Piauí até o fechamento desta edição.
O gargalo que a comunicação oficial não menciona
Em 20 de julho, três semanas depois da atracação, veio a público a informação de que a empresa responsável pela exportação vinha executando serviços de sondagem e aprofundamento do canal para viabilizar a saída do Konta II já carregado. O navio oceânico seguia fundeado em alto-mar aguardando as condições para o transbordo.
O ponto é decisivo e merece ser lido devagar. A dragagem em curso não é obra de expansão futura. É intervenção emergencial para permitir que uma embarcação de 9 mil toneladas, carregada, consiga sair do canal em que já havia entrado vazia. A profundidade do canal de acesso é a variável que a comunicação oficial não citou em nenhum dos materiais de divulgação do “marco histórico”.
No mesmo pacote de anúncios de 3 de julho, o governo informou ter garantido recursos para aprofundar o canal de acesso para 11,5 metros e para executar dragagens de manutenção. A Rádio Calçada já documentou, em reportagens anteriores desta série, o histórico de contratações de dragagem no complexo, incluindo o contrato de aproximadamente R$ 68 milhões com a DTA Engenharia e o galpão inflável de R$ 9,5 milhões.
Consta ainda dos materiais de divulgação do próprio governo que, no momento do anúncio da primeira exportação, a Receita Federal havia habilitado o porto no Siscomex, a ANTAQ havia concedido autorização especial de movimentação de cargas e a Semarh havia emitido a Licença de Operação, enquanto a emissão do Termo de Liberação de Operação seguia em andamento.
A conta que corre enquanto ninguém fala
Embarcação parada custa dinheiro todos os dias. Afretamento, tripulação, combustível de geração, agenciamento e sobrestadia continuam correndo independentemente de a carga se mover ou não. Circulou publicamente a estimativa de que a permanência das embarcações envolveria despesas da ordem de R$ 100 mil por dia.
A pergunta que a comunicação oficial não respondeu até agora é elementar e tem três partes. Quem paga a sobrestadia das três embarcações. Se há cláusula contratual que transfira esse custo à Companhia Porto Piauí, sociedade de economia mista vinculada ao estado. Se o contrato de longo prazo firmado com a Lion Mining prevê penalidade por indisponibilidade do canal.
O silêncio
A comunicação do governo do Piauí operou o anúncio da primeira exportação com estrutura completa de campanha. Houve visita prévia do governador ao terminal em 19 de junho, com declaração sobre a chegada de cerca de 100 rodotrens diários. Houve acompanhamento aéreo da atracação. Houve nota oficial replicada por dezenas de portais, com o mesmo texto e as mesmas imagens de divulgação, incluindo veículos de fora do estado. Houve enquadramento explícito do feito como realização da gestão Rafael Fonteles.
A mesma estrutura não foi acionada quando a operação travou.
É avaliação desta redação que a assimetria entre a intensidade da divulgação do anúncio e a ausência de comunicação sobre a paralisação configura uso seletivo da estrutura pública de comunicação. Recurso público custeia a Agência de Notícias do Piauí. A obrigação de informar não se suspende quando a informação é desfavorável à gestão.
É avaliação desta redação que, tendo o governador escolhido pessoalmente ser o rosto do anúncio, inclusive respondendo de forma direta a quem duvidava da viabilidade do projeto, a ele cabe pessoalmente prestar contas do que ocorreu depois. A autoria da celebração não se descola da autoria da prestação de contas.
É avaliação desta redação que a expressão “primeira exportação de minério de ferro da história do Piauí”, empregada nos materiais oficiais, descreve um evento que até esta data não se completou. Atracação não é exportação. Carregamento não é exportação. Exportação se comprova com registro aduaneiro de saída da mercadoria do território nacional.
Contraditório
A Rádio Calçada procura o Governo do Estado do Piauí, o gabinete do governador Rafael Fonteles, a Companhia Porto Piauí S.A. e a Lion Mining, e formula as seguintes questões.
- Qual a data efetiva de conclusão da primeira operação de transbordo e de saída do navio oceânico com o minério a bordo.
- Qual a causa técnica da paralisação da operação desde 29 de junho de 2026.
- Qual a profundidade aferida do canal de acesso na data da atracação do Konta II e qual a profundidade necessária para a saída da embarcação carregada.
- Qual o custo diário de permanência das três embarcações e quem o suporta.
- Qual o instrumento contratual que autorizou os serviços de sondagem e aprofundamento executados em julho de 2026, com número de processo e valor.
- O Termo de Liberação de Operação foi emitido, e em que data.
- Por que nenhuma comunicação oficial foi emitida sobre a paralisação da operação anunciada como histórica.
O espaço permanece aberto. Manifestações recebidas são publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição.
Fiscalização
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí a apuração dos custos suportados pela Companhia Porto Piauí S.A. em razão da imobilização das embarcações, da regularidade dos instrumentos que amparam os serviços de dragagem e sondagem executados em julho de 2026 e da conformidade do início da operação com as autorizações regulatórias exigíveis.
A Rádio Calçada solicita ainda à Agência Nacional de Transportes Aquaviários e à Capitania dos Portos do Piauí informação sobre as condições de navegabilidade do canal de acesso e sobre a autorização especial de movimentação de cargas concedida ao terminal.














