Há uma velha máxima da política: governos quase nunca são derrotados apenas pela força da oposição. Antes disso, costumam ser derrotados pela incapacidade de enxergar os próprios erros.
O poder produz um fenômeno silencioso. Quanto mais tempo se permanece no centro das decisões, maior é a tentação de acreditar que a realidade cabe dentro dos gabinetes. O contraditório passa a incomodar. A crítica passa a ser vista como deslealdade. O alerta transforma-se em ofensa. É nesse instante que nasce a arrogância política.
O problema da prepotência é que ela produz um efeito perverso: elimina os freios internos. Assessores deixam de discordar. Secretários passam a confirmar tudo. Pesquisas são interpretadas apenas quando agradam. As ruas passam a ser vistas através dos vidros escuros dos carros oficiais.
A partir daí, instala-se uma perigosa ilusão de unanimidade.
É justamente por isso que a humildade não é uma virtude moral apenas. É um instrumento de governo. Quem escuta corrige. Quem corrige evita crises. Quem acredita saber tudo normalmente só descobre o erro quando ele já se transformou em desgaste político.
Os sinais de desgaste raramente aparecem primeiro nas pesquisas. Eles surgem nas pequenas reclamações ignoradas, nos setores que deixam de ser ouvidos, nas críticas tratadas como ataques pessoais e na impressão de que o governo passou a falar mais do que ouvir.
Governos fortes não têm medo do contraditório. Ao contrário, procuram por ele. Cercar-se apenas de aplausos pode ser confortável, mas costuma ser o caminho mais curto para o isolamento.
A política brasileira oferece inúmeros exemplos desse roteiro. Líderes que pareciam imbatíveis descobriram tarde demais que nenhuma estrutura, nenhum orçamento e nenhuma coalizão conseguem substituir a confiança genuína da população. Quando um governante acredita que vencerá porque controla a máquina, normalmente já começou a perder o sentimento das ruas.
É por isso que o maior adversário de Rafael Fonteles talvez não esteja em outro partido. Talvez não esteja em um candidato específico. Talvez esteja na convicção de que tudo está sob controle.
A competência constrói governos. A humildade os preserva.
A arrogância, ao contrário, costuma derrotar líderes muito antes de qualquer eleição.
Porque, na democracia, o espelho costuma ser um adversário muito mais perigoso do que a oposição.














