O governador diz que a seca é herança antiga. Mas vizinhos do semiárido e países do deserto mostram que o problema tem solução, e o Piauí contraiu bilhões em empréstimos enquanto o sertão espera
Por Trabulo Neto
Quando a falta d’água entrou nos debates da campanha, o governador Rafael Fonteles respondeu com uma frase que virou marca: o abastecimento de água seria um problema secular que a Agespisa, a antiga companhia estadual, nunca conseguiu solucionar. A frase tem um efeito político claro. Se o problema é antigo, a culpa é de todo mundo e, portanto, de ninguém. Esta redação propõe olhar o problema por outro ângulo. A pergunta não é há quanto tempo falta água no Piauí. A pergunta é por que, tendo dinheiro, técnica e exemplos à mão, a água não virou a obra número um do governo.
O mundo já resolveu problemas maiores
Israel é o exemplo mais conhecido. O país vive em pleno deserto e consome 45% mais água do que a chuva que cai sobre o seu território. A virada veio depois de uma crise: uma seca de sete anos, iniciada em 2005, esgotou as principais fontes naturais do país. O governo criou em 2007 uma autoridade interministerial para cuidar da água e acelerou a dessalinização, com cinco grandes usinas entrando em operação em uma década. Segundo a empresa nacional de água israelense, a água dessalinizada hoje fornece de 60% a 80% da água potável do país, e 90% do esgoto tratado vai para a agricultura. Israel está ressuscitando os desertos com a sua tecnologia no agro – CompreRural +2
Não é preciso ir tão longe. O Ceará, que divide com o Piauí o mesmo semiárido, decidiu tratar a água como política de Estado. O projeto Malha d’Água leva água tratada de açudes com maior garantia até as cidades por meio de adutoras, que são grandes tubulações de transporte de água. A primeira fase recebeu R$ 643,3 milhões, dinheiro obtido pelo governo cearense por meio de contrato com o Banco Mundial. O primeiro sistema tem 688 quilômetros e atende nove municípios e 38 distritos, com capacidade para cerca de 280 mil pessoas. Quando concluído, o projeto deverá chegar a 178 municípios e mais de 5,5 milhões de cearenses. Governo do Estado do CearáBrasil 247
Ou seja: um estado vizinho, com clima parecido, usou empréstimo internacional para levar água ao sertão.
O Piauí tem a água. Falta levá-la
O caso do Piauí é ainda mais difícil de explicar, porque aqui a água existe. O Aquífero Cabeças, no Vale do Gurguéia, guarda a maior reserva de água subterrânea do Nordeste e a terceira maior do país. Estudos técnicos apontam que ele poderia fornecer 20 mil metros cúbicos por hora, em bombeamento contínuo, com os poços já existentes, o suficiente para abastecer cerca de 3,2 milhões de pessoas. É praticamente a população inteira do estado. CidadeverdeÁguas Subterrâneas
O projeto para aproveitar essa água tem nome e tem idade. O Serviço Geológico do Brasil elaborou em 2013 a proposta da Adutora do Sertão, com 600 quilômetros de extensão, para levar 72 milhões de litros de água por dia a 51 municípios do interior. Segundo o órgão, a obra beneficiaria 500 mil pessoas. Em 2015, a obra foi parar na Justiça: o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual moveram ação civil pública contra a União e o Estado do Piauí para garantir os recursos. Em julho de 2024, quase uma década depois, apenas a primeira etapa do estudo de viabilidade do projeto básico tinha previsão de conclusão. Projeto que pode acabar com seca no Piauí está parado por falta de recursos – Cidadeverde.com +3
Onze anos depois do projeto pronto, o sertão ainda espera o estudo.
O dinheiro existiu
O argumento de que falta dinheiro não se sustenta diante dos números da própria gestão. Em maio de 2025, o governador sancionou cinco leis que autorizam empréstimos que somam R$ 11.598.426.435,18. A lista oficial de destinos inclui rodovias, mobilidade urbana, urbanização, segurança, saúde, infraestrutura hídrica e transformação digital. A água aparece no meio da fila, entre outras seis prioridades. Portal Cidade LuzPortal Cidade Luz
Em novembro de 2025, o governo pediu mais: R$ 4,98 bilhões com o Banco do Brasil para infraestrutura, mobilidade, segurança, saúde, transformação digital e outras áreas, e US$ 600 milhões com o BID para reestruturar a dívida do Estado. Em julho de 2026, a Assembleia aprovou outras três operações, que somam cerca de R$ 1,5 bilhão. Dessas, a única voltada para água é a de R$ 95 milhões com a Caixa, para o programa Saneamento para Todos, que deve beneficiar cerca de 3.519 famílias da zona rural. Em números redondos, cerca de 6% do pacote. “Operações de crédito reforçam o maior ciclo de investimentos da história do Piauí”, afirma Rafael Fonteles +2
Agora compare com a meta que o próprio governador anunciou em debate. Ele prometeu investir R$ 2 bilhões em barragens, adutoras, sistemas simplificados, cisternas e sistemas de dessalinização. Só o empréstimo pedido ao Banco do Brasil em novembro é mais que o dobro dessa meta. O pacote sancionado em maio de 2025 é quase seis vezes maior. Cidades em Foco
É avaliação desta redação que, se a água fosse de fato a prioridade, ela estaria no topo da lista, e não diluída entre sete áreas.
Onde está a energia do governo
Se a água não é a prioridade, o que é? Os fatos respondem.
O Porto Piauí, em Luís Correia, recebeu atenção e dinheiro do Tesouro. Segundo a própria Companhia Porto Piauí, o governo aplicou R$ 200 milhões em dois anos em obras, dragagem do canal, pátios e sede administrativa, e reservou mais R$ 400 milhões para 2025 e 2026, elevando o investimento público total a R$ 600 milhões. Como esta Rádio Calçada vem mostrando, a primeira operação de exportação de minério pelo porto passou meses com navios parados na costa. Assembleia Legislativa do Piauí
O hidrogênio verde ganhou viagens e palcos. As negociações foram conduzidas pessoalmente pelo governador, que fez sete missões internacionais em um ano para apresentar o Piauí a investidores estrangeiros. Na lista de vantagens do estado para produzir hidrogênio, o governador citou a abundância de sol, vento e água. Questionado sobre o consumo de água do projeto, respondeu que o uso previsto é de 0,0001% da vazão do Rio Parnaíba em direção ao oceano. Piauí lança nesta sexta (15) maior projeto de hidrogênio verde do mundo com investimentos de R$ 200 bilhões – Parnaiba – Cidadeverde.com +2
A frase merece atenção. Para o hidrogênio, o Piauí tem água em abundância e o rio despeja no mar muito mais do que a indústria vai usar. Para o morador de Várzea Branca, Pajeú do Piauí ou Santo Inácio do Piauí, a água é um problema secular sem solução à vista. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo sem que a diferença seja uma escolha.
O crédito de carbono também ganhou cerimônia internacional. Durante missão na Europa, o governador participou em Genebra, na Suíça, da assinatura do acordo em que a Investe Piauí, empresa de economia mista do Estado, contratou a Silvania, que fornecerá de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões para desenvolver o programa. PinpiauiNotícias Agrícolas
Nenhum desses projetos é ilegítimo em si. Um estado pobre precisa de indústria, de porto e de renda nova. É avaliação desta redação que o problema está na ordem das coisas: o governo viaja o mundo atrás do futuro enquanto a torneira do presente continua seca.
A concessão não resolve o que não está nela
A resposta oficial para a água tem sido a concessão à Águas do Piauí. O governador diz que a operação da empresa, iniciada há 15 meses, vem acompanhada de mais investimentos. Mas a concessão tem limites. Grandes obras de adução, que trazem água de fontes distantes até as cidades, dependem de decisão e de dinheiro do governo. Não por acaso, o tema virou disputa eleitoral, com a oposição afirmando que os investimentos em adutoras não estão dentro do contrato de concessão. A Rádio Calçada solicita ao governo que informe quais obras de adução estão a cargo do Estado e quais estão a cargo da concessionária. Folha ExpressaOitoMeia
O que o cidadão tem o direito de saber
É avaliação desta redação que chamar a falta d’água de problema secular não é explicação, é álibi. Israel resolveu o seu com decisão política depois de uma seca. O Ceará está resolvendo o seu com empréstimo do Banco Mundial. O Piauí tem o maior aquífero do Nordeste, um projeto de adutora pronto desde 2013 e bilhões em crédito autorizado.
O que faltou não foi água, nem dinheiro, nem técnica. Faltou colocar a água no topo da lista. E isso não é herança de século nenhum. É escolha de governo.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação do Governo do Estado do Piauí, da Secretaria da Fazenda, da Secretaria da Irrigação e Infraestrutura Hídrica (SEFIR) e da Investe Piauí sobre: quanto dos empréstimos autorizados desde 2023 foi efetivamente destinado a obras de abastecimento de água; qual a situação atual do projeto da Adutora do Sertão; e quanto o Estado já gastou com o Porto Piauí, o programa de hidrogênio verde e o programa de créditos de carbono. As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br














