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julho 27, 2026 19:23

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Enquanto o minério não sai, o Estado contrata sondagem para 200 hectares de resorts em Luís Correia

Investe Piauí assina em 20 de julho investigação geotécnica de fundação em área costeira destinada ao Projeto Polo Turístico do Litoral. O extrato publicado no diário oficial não informa a poligonal, a matrícula nem a titularidade da área.

Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

A Agência de Atração de Investimentos Estratégicos do Piauí, a Investe Piauí, contratou levantamento topográfico e investigação geotécnica de fundação em área de aproximadamente 200 hectares na zona costeira de Luís Correia, destinada ao que o documento chama de “Projeto Polo Turístico do Litoral, Piauí Resorts”. O contrato foi assinado em 20 de julho de 2026 e publicado nas páginas 4 e 5 da edição nº 141/2026 do diário oficial do Estado, edição suplementar de 24 de julho de 2026.

O Extrato de Contrato nº 036/2026 corresponde ao processo SEI nº 00147.000672/2026-06. A contratada é a CSA Controle Sondagem Projetos e Assessoria Ltda, CNPJ 22.595.220/0001-48. O valor é de R$ 152.500,00, com recursos próprios da companhia. O contrato é assinado, pela contratante, pelo diretor-presidente da Investe Piauí, Victor Hugo Saraiva de Almeida, e, pela contratada, por Francisco das Chagas Silva Filho. O fiscal designado é Gabriel Péricles Borges Aragão.

O objeto descrito no extrato compreende levantamento topográfico planialtimétrico, modelagem digital de elevação do terreno nos formatos MDE e MDT, análise geoambiental e investigação geotécnica pelos ensaios SPT e CBR.

O ensaio SPT é a sondagem de simples reconhecimento à percussão, utilizada para determinar a capacidade de suporte do solo. O ensaio CBR mede o índice de suporte do terreno para dimensionamento de pavimento. Os dois ensaios são etapa de projeto executivo de fundação e pavimentação, e não etapa de estudo preliminar de viabilidade.

O extrato não informa a poligonal da área, a matrícula do imóvel, a titularidade dos 200 hectares nem a situação dominial do terreno. Também não informa o prazo de vigência do contrato.

A Constituição Federal estabelece, no artigo 225, parágrafo 4º, que a Zona Costeira é patrimônio nacional, e sua utilização se dará na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente. O artigo 20, inciso VII, da Constituição inclui entre os bens da União os terrenos de marinha e seus acrescidos, cuja utilização depende de manifestação da Secretaria de Patrimônio da União.

O contrato se soma a outras frentes da mesma companhia no mesmo município. Segundo o portal da transparência da Investe Piauí, consultado por esta reportagem, a Licitação Eletrônica nº 003/2026, com abertura em 4 de maio de 2026, tem por objeto serviços de monitoramento e implementação de programas ambientais durante a implantação da retroárea do Terminal Pesqueiro e a operação do Terminal Pesqueiro de Luís Correia. A Licitação Eletrônica nº 004/2026, com abertura em 25 de junho de 2026, tem por objeto a implantação de galpão industrial pré-moldado destinado ao Terminal Pesqueiro de Luís Correia. O Porto Piauí figura como subsidiária da Investe Piauí.

Luís Correia é também o município onde esta redação vem documentando a operação de transbordo de minério de ferro que reuniu as embarcações MARINE VICTORY, VENTURE e KONTA II na costa piauiense.

É avaliação desta redação que o ponto central desta contratação não é o valor, que é modesto, e sim a ausência de identificação da área. Contratar sondagem de fundação em 200 hectares de zona costeira significa que existe empreendimento já desenhado, com localização definida, e que a Investe Piauí sabe exatamente onde ele será implantado. É avaliação desta redação que o diário oficial publicou o gasto sem publicar a informação que permitiria à sociedade verificar se a área proposta se sobrepõe a terreno de marinha, a área de preservação permanente, a terra pública estadual ou a propriedade privada em vias de aquisição.

É avaliação desta redação que a concentração de investimentos estatais em Luís Correia, com porto, terminal pesqueiro e agora polo turístico sob a mesma companhia estadual, exige do Estado a divulgação de um plano público consolidado para o município, com áreas, prazos e valores, e não a publicação fragmentada de contratos isolados no diário oficial.

Contraditório

A Rádio Calçada pergunta à Investe Piauí qual é a poligonal exata dos 200 hectares objeto do Contrato nº 036/2026, quais as matrículas dos imóveis abrangidos, quem é o atual proprietário ou possuidor da área, e se há sobreposição com terrenos de marinha, área de preservação permanente ou terra pública estadual.

A reportagem pergunta à Investe Piauí se há manifestação da Secretaria de Patrimônio da União sobre a área, se existe licenciamento ambiental instaurado para o Projeto Polo Turístico do Litoral, e qual o prazo de vigência do contrato.

A reportagem pergunta à Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Piauí se há processo de licenciamento aberto para o empreendimento.

O espaço para resposta está aberto. As manifestações serão publicadas na íntegra.

Controle

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí a análise do Contrato nº 036/2026 da Investe Piauí quanto à identificação do objeto e à situação dominial da área contratada.

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Estado do Piauí o acompanhamento do Projeto Polo Turístico do Litoral quanto à ocupação da zona costeira de Luís Correia.

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