O Estado paga R$ 13 milhões por mês para manter o hospital de Floriano e R$ 11,5 milhões pelo de Parnaíba. Com números divulgados pela própria organização social, cada atendimento no hospital de Parnaíba custou R$ 1.494,51 no início de 2025, mas a mesma conta pode dar R$ 339 ou R$ 5.766, dependendo do que se chama de atendimento.
Jornalista Trabulo Neto
A Secretaria da Saúde do Piauí (SESAPI) pagou R$ 2.320.740.006,58 a seis Organizações Sociais de Saúde (OSS) entre 2023 e setembro de 2026. OSS são entidades privadas sem fins lucrativos que recebem dinheiro público para administrar hospitais, UPAs e centrais de exames. Só em 2025 foram R$ 833,7 milhões, média de R$ 69,5 milhões por mês. Em 2026, até setembro, o valor já chega a R$ 929,2 milhões.
A Rádio Calçada leu o histórico de cada nota de empenho no Portal da Transparência do Piauí, com extração de 28/09/2026. A nota de empenho é o documento que reserva o dinheiro para uma despesa, e o histórico informa a que mês de serviço cada pagamento se refere. Foi assim que a redação montou o custo mensal de cada hospital e cruzou o dinheiro com a produção que as próprias entidades divulgaram para o mesmo período.
Quanto custa manter cada hospital por mês
A tabela mostra a média da parcela mensal fixa paga em 2026 pelos principais hospitais sob gestão de OSS. Os valores não incluem o piso da enfermagem nem os repasses trimestrais.
| Hospital | Organização social | Contrato | Média mensal |
|---|---|---|---|
| Hospital Regional Tibério Nunes (Floriano) | Nova Esperança | CG 012/2025 | R$ 13,0 milhões |
| Hospital Estadual Dirceu Arcoverde, HEDA (Parnaíba) | ISAC | CG 36/2023-A | R$ 11,5 milhões |
| Nova Maternidade Dona Evangelina Rosa (Teresina) | Reabilitar | CG 32/2022 | R$ 8,8 milhões |
| Novo Hospital Regional de Picos | Caminho de Damasco | CG 004/2024 | R$ 8,2 milhões |
| Hospital Regional Justino Luz (Picos) | Caminho de Damasco | CG 011/2025 | R$ 7,8 milhões |
| Hospital Regional Chagas Rodrigues (Piripiri) | ISAC | CG 022/2025 | R$ 6,4 milhões |
| Hospital Regional Senador Cândido Ferraz (São Raimundo Nonato) | Caminho de Damasco | CG 33/2025 | R$ 5,3 milhões |
| Hospital Regional de Campo Maior e Central de Diagnóstico | Caminho de Damasco | 18/2026 | R$ 4,6 milhões |
| Hospital Regional Manoel Sousa Santos e Central de Exames (Bom Jesus) | Beneficência Hospitalar de Cesário Lange | CG 019/2025 | R$ 3,6 milhões |
| Hospital Regional Senador Dirceu Arcoverde (Uruçuí) | Caminho de Damasco | CG 07/2026 | R$ 3,5 milhões |
| Hospital Regional Eustáquio Portela (Valença) | Caminho de Damasco | CG 035/2025 | R$ 3,0 milhões |
Em Picos, a mesma organização social administra dois hospitais, que somam R$ 16 milhões por mês.
Em Campo Maior, o hospital regional trocou de gestora em 2026. Até março, a Santa Casa de Misericórdia de Chavantes recebia R$ 3,27 milhões por mês pelo contrato 34/2023. A partir de abril, a Caminho de Damasco passou a receber R$ 4,56 milhões por mês pelo contrato 18/2026, que inclui também a Central de Diagnóstico da cidade.
Como o dinheiro é pago
Os históricos das notas mostram que o repasse às OSS tem cinco partes:
- Parcela mensal fixa: R$ 2,07 bilhões, 89,30% de tudo o que foi pago.
- Repasses trimestrais: R$ 117,4 milhões (5,06%), pagos em separado a cada três meses.
- Piso salarial da enfermagem: R$ 63,7 milhões (2,74%), pagos com dinheiro da assistência financeira da União.
- Investimentos, equipamentos e reformas: R$ 56,2 milhões (2,42%).
- Repasses retroativos de valores acrescentados por aditivo: R$ 11,1 milhões (0,48%), todos do contrato do HEDA.
A conta possível: o HEDA no início de 2025
O ISAC, que administra o HEDA, divulgou o balanço do hospital no primeiro trimestre de 2025. Segundo a entidade, de janeiro a março o HEDA registrou 28.379 atendimentos, 86.690 exames, 7.355 internações, 1.656 cirurgias e 772 partos. As internações incluem o Anexo II, o Hospital Nossa Senhora de Fátima.
Pelo Portal da Transparência, os pagamentos com competência nesses três meses somam R$ 42.412.793,40:
- três parcelas mensais: R$ 35.178.091,74;
- piso da enfermagem dos três meses: R$ 2.507.382,06;
- repasse do 1º trimestre de 2025: R$ 4.727.319,60.
Dividido pelos números do próprio ISAC, o resultado muda conforme a régua usada:
- R$ 1.494,51 por atendimento (28.379);
- R$ 5.766,52 por internação (7.355);
- R$ 339,71 por item, se forem somadas as cinco categorias do balanço (124.852 entre atendimentos, exames, internações, cirurgias e partos).
A diferença entre a menor e a maior conta é de 17 vezes. Nenhum dos três números é o custo de um paciente. O dinheiro pago cobre tudo ao mesmo tempo: pronto-socorro, exames, cirurgias, partos e internações. Um mesmo paciente pode aparecer em várias categorias do balanço.
A conta das seis unidades do ISAC em 2026
Em outro balanço, o ISAC informou que suas seis unidades no Piauí somaram 63.106 atendimentos de janeiro a março de 2026. São elas: HEDA, Hospital Regional Chagas Rodrigues, Centro Especializado de Reabilitação de Parnaíba (CER IV) e as centrais de diagnóstico de Parnaíba, Esperantina e Água Branca.
Os pagamentos com competência nesse trimestre somam R$ 68.659.676,10. Desse total, o HEDA responde por R$ 40,7 milhões e o Chagas Rodrigues por R$ 21,9 milhões. Dividido pelos atendimentos declarados, dá R$ 1.088,01 por atendimento.
Nesse período, a base não traz as parcelas de janeiro e fevereiro de 2026 da Central de Esperantina. Uma nota emitida em fevereiro de 2026 para essa central registra no histórico que o pagamento corresponde a “fevereiro/2025”. Se as duas parcelas entrarem na conta, o valor sobe cerca de R$ 13 por atendimento.
Pagamentos atrasados e uma parcela menor
O dinheiro trimestral do HEDA costuma sair meses depois do trimestre a que se refere:
- o 2º trimestre de 2025 (abril a junho) só foi empenhado em 19 de março de 2026, nove meses depois;
- o 4º trimestre de 2025 foi empenhado em 17 de abril de 2026;
- o 3º trimestre de 2025 (julho a setembro) não aparece na base extraída em 28/09/2026.
Os quatro repasses trimestrais anteriores do HEDA foram de R$ 4.727.319,60 cada. O do 1º trimestre de 2026, empenhado em 3 de agosto, foi de R$ 4.098.586,09, ou seja, R$ 628.733,51 a menos (13,30%). O histórico da nota não explica a diferença.
Os valores acrescentados ao contrato do HEDA por aditivo também chegam com atraso. Em janeiro de 2026, a SESAPI empenhou R$ 1 milhão como “5ª parcela” de valores retroativos referentes a julho a dezembro de 2023.
O que a conta não mostra
A redação fez a conta apenas onde as duas informações vêm de fonte primária e cobrem o mesmo período: o pagamento, pelo Portal da Transparência, e a produção, pelo balanço da própria entidade. Para as outras unidades, os números de produção disponíveis não foram conferidos em fonte primária ou não coincidem com os meses pagos.
O governo divulga resultados isolados, como as mais de 7 mil cirurgias feitas em 2025 pelo Hospital Regional Tibério Nunes, o mais caro da lista. Um número isolado de cirurgias, porém, não permite calcular quanto custa cada paciente atendido pelo hospital.
É avaliação desta redação que uma régua única, definida pela SESAPI e publicada ao lado de cada pagamento, é a condição para que o piauiense saiba se os R$ 69,5 milhões mensais pagos às OSS compram mais ou menos saúde de um hospital para outro.
O que a lei prevê
A Lei federal 9.637/1998, que criou o modelo das organizações sociais, determina que os resultados de cada contrato de gestão sejam analisados periodicamente por uma comissão de avaliação. Também obriga a entidade a apresentar, ao fim de cada ano, um relatório comparando as metas propostas com os resultados alcançados. No Piauí, o modelo é regulado pela Lei estadual 5.519/2005.
Órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Piauí (MPPI) informações sobre:
- a análise dos relatórios de metas e resultados dos contratos de gestão;
- o critério dos repasses trimestrais;
- a existência de indicador padronizado de produção para comparar o custo das unidades.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Secretaria da Saúde do Piauí (SESAPI), Instituto Saúde e Cidadania (ISAC), Sociedade Brasileira Caminho de Damasco, Associação Filantrópica Nova Esperança, Associação Reabilitar, Santa Casa de Misericórdia de Chavantes e Beneficência Hospitalar de Cesário Lange.
A redação pergunta, em especial:
- o que determina o valor dos repasses trimestrais e por que o do HEDA no 1º trimestre de 2026 foi menor;
- se o repasse do 3º trimestre de 2025 do HEDA foi feito;
- a que se refere a nota da Central de Esperantina com competência de fevereiro de 2025, emitida em 2026;
- quais são os relatórios de metas e os pareceres das comissões de avaliação de cada contrato;
- quantos atendimentos, internações e cirurgias cada unidade fez em 2025, e com qual critério de contagem.
As respostas enviadas serão publicadas na íntegra. Contato: consultor@xconexoes.com.br














