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julho 27, 2026 12:59

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TRANSBORDO EM LUÍS CORREIA: BARCAÇA PRECISARIA DE ATÉ 16 VIAGENS E DUAS SEMANAS PARA CARREGAR UM ÚNICO NAVIO

Dados de rastreamento marítimo mostram graneleiro de 114 mil toneladas fundeado a 30 quilômetros do porto, enquanto embarcação de apoio dez vezes menor faz o trajeto de ida e volta para completar a carga

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

A operação de transbordo montada no Porto de Luís Correia depende de um ciclo logístico em que uma embarcação de pequeno porte percorre cerca de 60 quilômetros por viagem, entre o píer e um graneleiro oceânico fundeado em mar aberto. A depender da capacidade efetivamente embarcada em cada viagem, seriam necessárias de 13 a 16 viagens — e algo entre duas semanas e dezesseis dias de operação contínua — para completar o carregamento de um único navio.

O QUE É FATO

É fato, conforme registros públicos do sistema AIS (Automatic Identification System) consultados por esta redação em 06.07.2026:

O graneleiro MARINE VICTORY (bandeira da Libéria, IMO 9455533), com 250 metros de comprimento e capacidade de 114.091 toneladas de porte bruto (DWT), encontra-se fundeado nas coordenadas 2.59897 S / 41.66518 W, com destino declarado “BR LUIS CORREIA” e status “At anchor” (fundeado).

A embarcação KONTA II (bandeira do Panamá, IMO 8530283), com 110 metros de comprimento e 9.595 toneladas de porte bruto, encontra-se nas coordenadas 2.87120 S / 41.65085 W, junto à estrutura portuária de Luís Correia, com status “Moored” (atracada).

A distância entre os dois pontos, calculada a partir das coordenadas AIS, é de aproximadamente 16,4 milhas náuticas — cerca de 30,3 quilômetros. Cada viagem de ida e volta entre o píer e o graneleiro percorre, portanto, cerca de 60,6 quilômetros.

O calado registrado do MARINE VICTORY na leitura é de 7,3 metros. Para um navio dessa classe, trata-se de calado compatível com carregamento parcial — navios desse porte plenamente carregados operam com calados substancialmente maiores.

O calado registrado do KONTA II na mesma janela de leitura é de 4,1 metros.

O QUE É AVALIAÇÃO DESTA REDAÇÃO

É avaliação desta redação, a partir dos dados acima e de parâmetros operacionais usuais do setor:

  1. A capacidade útil do KONTA II por viagem é inferior ao seu porte bruto nominal de 9.595 toneladas, já que o DWT inclui combustível, água e provisões. Trabalhando com cenários de 7.000 a 9.000 toneladas de carga útil por viagem, o carregamento de cerca de 110 mil toneladas exigiria entre 13 e 16 viagens.
  2. Considerando velocidade de navegação típica de embarcações desse perfil (7 a 10 nós), cada ciclo de navegação (ida e volta) consome entre 3 e 5 horas — sem contar carregamento no píer, manobra de atracação a contrabordo do graneleiro e descarga. O ciclo completo por viagem tende a ficar entre 18 e 30 horas, o que resulta em ritmo aproximado de uma viagem por dia por embarcação de apoio.
  3. Nesse ritmo, o carregamento completo de um único navio do porte do MARINE VICTORY demandaria de 13 a 16 dias com uma embarcação de apoio, ou de 7 a 8 dias com duas embarcações alternadas.
  4. Quanto ao combustível da embarcação de transbordo: uma embarcação do porte do KONTA II (110 metros, cerca de 9.600 toneladas de porte bruto) opera tipicamente com motor principal na faixa de 2.000 a 3.000 kW, com consumo estimado entre 0,3 e 0,5 tonelada de óleo por hora em navegação. No ciclo de ida e volta de cerca de 60 quilômetros (3 a 5 horas de navegação), somado ao consumo dos motores auxiliares durante carregamento, manobra e descarga ao longo do ciclo completo, o gasto estimado fica entre 3 e 4 toneladas de combustível por viagem. Para o carregamento completo do MARINE VICTORY (13 a 16 viagens), isso representa algo entre 40 e 65 toneladas de combustível apenas na embarcação de transbordo. Considerando óleo marítimo (MGO/diesel marítimo) na faixa de R$ 3.500 a R$ 4.500 por tonelada, o custo estimado de combustível da operação de transbordo fica entre R$ 140 mil e R$ 290 mil por navio carregado — entre R$ 1,30 e R$ 2,60 por tonelada movimentada, somente nesse item.
  5. Cada dia adicional de operação representa custo direto — afretamento das embarcações de apoio, estadia do graneleiro fundeado (demurrage, quando aplicável), tripulação e combustível. Quanto mais lento o ciclo, maior o custo por tonelada movimentada, elemento central para a análise de viabilidade econômica da operação que esta série vem documentando.

Esses cenários são estimativas construídas a partir de dados públicos de rastreamento e de parâmetros usuais do setor. As premissas de potência de motor e consumo de combustível correspondem a faixas típicas para embarcações do porte do KONTA II, e não a dados técnicos específicos da embarcação — a ficha técnica completa pode ser verificada em registros marítimos internacionais, como a base Equasis, a partir do número IMO 8530283. Os números oficiais da operação — tonelagem por viagem, consumo real de combustível, cronograma e custos contratados — são de conhecimento da administração portuária e do Governo do Estado, a quem esta reportagem dirige os questionamentos abaixo.

CONTRADITÓRIO

A reportagem encaminha os seguintes questionamentos à administração do Porto de Luís Correia e ao Governo do Estado do Piauí e solicita resposta:

  1. Quantas viagens de transbordo foram realizadas até o momento para o carregamento do navio MARINE VICTORY, e qual a tonelagem efetivamente embarcada em cada viagem?
  2. Qual o prazo total previsto para a conclusão do carregamento do MARINE VICTORY, e qual o prazo originalmente contratado ou planejado?
  3. Qual o custo total da operação de transbordo (afretamento das embarcações de apoio, combustível, praticagem, rebocadores e demais serviços), qual o consumo real de combustível da embarcação de transbordo por viagem, e qual o custo resultante por tonelada movimentada?
  4. Há incidência de demurrage ou custo de estadia do graneleiro fundeado durante o período de carregamento? Em caso positivo, qual o valor diário e quem o suporta?
  5. Qual o calado máximo operacional do canal de acesso e do píer de Luís Correia, e qual a carga útil máxima autorizada por viagem para as embarcações de apoio?
  6. Foi realizado estudo comparativo de custo entre a operação de transbordo em Luís Correia e o embarque direto em porto de águas profundas da região? Em caso positivo, a reportagem solicita acesso ao documento.

O espaço segue aberto para manifestação, que será publicada na íntegra.

AOS ÓRGÃOS DE CONTROLE

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas do Piauí (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se já têm conhecimento dos custos e do desenho logístico da operação de transbordo no Porto de Luís Correia e quais providências pretendem adotar quanto à verificação da economicidade da operação. Esta redação se coloca à disposição para publicar as respostas na íntegra.

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