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julho 26, 2026 13:43

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O navio da China espera há 10 dias no mar do Piauí e ainda não recebeu um grama de minério

Embarcação oceânica que levará a primeira exportação do Porto Piauí chegou em 22 de junho. O navio pequeno que deveria abastecê-la só atracou no dia 29  e a conta prevê cerca de 12 viagens de vaivém para encher o gigante.

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

A festa foi na segunda-feira, 29 de junho: helicóptero, discurso e a primeira atracação de um navio de carga na história do Porto Piauí, em Luís Correia. Mas a operação de verdade tinha começado uma semana antes, longe das câmeras — e é ela que conta a história que o material de divulgação não contou.

Desde o dia 22 de junho, segundo o monitoramento de tráfego marítimo feito por esta redação, o navio de classe oceânica que levará o minério de ferro piauiense para a China está fundeado na costa do Piauí. Fundeado quer dizer ancorado ao largo, parado, esperando. Até o fechamento desta matéria, em 1º de julho — nove dias depois —, ele não havia recebido uma tonelada sequer de carga.

O que está nos registros públicos

A logística anunciada pela própria Porto Piauí envolve três embarcações. Um navio graneleiro é carregado com o minério no Terminal de Uso Privado, em Luís Correia, e navega até a área de fundeio, a aproximadamente 30 quilômetros da costa. Lá, encontra o navio-pulmão — uma embarcação equipada com galpões, guindastes e esteiras, que funciona como armazém e plataforma de transferência. Do navio-pulmão, o minério passa ao navio de classe oceânica, com capacidade superior a 100 mil toneladas, que faz a viagem internacional. Cidades em Foco

O navio pequeno é o graneleiro Konta II, com 109 metros de comprimento e capacidade para cerca de 9 mil toneladas por viagem. Ele atracou no Berço 401 na segunda-feira, 29 de junho, entrando no canal por volta das 16h e completando a manobra cerca de uma hora depois, com o governador Rafael Fonteles acompanhando de helicóptero.

Dez dias antes, em 19 de junho, o governador havia visitado o terminal e declarado que o terminal de minério já estava com a carga armazenada e pronta para embarque, com cerca de 100 rodotrens chegando por dia, 24 horas por dia. A operação inaugural prevista é de mais de 110 mil toneladas com destino ao mercado asiático. Portalsemfronteiras + 2

Dois registros oficiais completam o quadro. Primeiro: o sistema de transbordo de granéis entre embarcações será utilizado pela primeira vez no Brasil pela Porto Piauí — a técnica é adotada em países como Equador e Guiné-Bissau.

Por fim, o padrão de medição: a ANTAQ, agência que regula o setor, mede oficialmente os tempos de cada navio — a espera no fundeio, o tempo até iniciar a operação e a operação em si. Entre janeiro e novembro de 2025, o tempo médio de espera nos portos brasileiros foi de cerca de 122 horas na navegação de longo curso — pouco mais de cinco dias, somando todas as cargas e refletindo, sobretudo, portos congestionados, com fila de navios. GOV.BR

A leitura desta redação

Na leitura desta redação, a linha do tempo é o problema. O governo declarou em 19 de junho que a carga estava pronta para embarque. O navio da China chegou no dia 22. E o primeiro elo da corrente — o navio pequeno que deveria abastecê-lo — só encostou no cais no dia 29, sete dias depois, num porto sem fila nenhuma, com o berço vazio à disposição. Em Santos, navio espera porque há vinte na frente. Em Luís Correia, o navio esperou sozinho. Espera sem fila não é excesso de demanda: é sinal de que faltava algo do lado de terra — e cabe à Porto Piauí dizer o quê.

Navio parado custa caro. No mercado, a multa por atraso na liberação de uma embarcação — a chamada demurrage — costuma variar de US$ 10 mil a US$ 15 mil por dia, e navios de grande porte, como o oceânico de mais de 100 mil toneladas fundeado na costa, custam ainda mais. Nove dias de espera podem representar, na ponta do lápis, algo na casa de centenas de milhares de dólares — quem paga essa conta, se o Estado, o minerador ou o operador, é uma informação que o contribuinte piauiense tem o direito de conhecer, porque ela entra no preço final de cada tonelada exportada. Portodoitaqui

E há a conta estrutural. Para encher o navio de 110 mil toneladas com um vaivém de 9 mil toneladas por viagem, são necessárias cerca de 12 viagens completas — cada uma com carregamento no cais, navegação de 30 quilômetros, descarga no navio-pulmão, transferência ao oceânico e retorno. Se a primeira atracação já consumiu uma semana de espera, a operação inteira pode se arrastar por semanas com o navio da China acumulando diárias no fundeio.  A pergunta que decide a viabilidade do porto não é se o navio atraca — é quanto custa cada tonelada que sai por Luís Correia, comparada à mesma tonelada saindo por Itaqui ou Pecém, portos maduros na vizinhança. Essa planilha existe. Ela só não foi publicada.

Registre-se o que é justo: toda estreia tem curva de aprendizado, e o transbordo é inédito no Brasil — atraso na primeira operação não condena o projeto. Mas o mesmo ineditismo que desculpa o tropeço obriga à transparência: se não há referência nacional para comparar, que a Porto Piauí publique seus próprios números, hora por hora, como fazem as autoridades portuárias sérias do país.

O contraditório

Esta redação encaminhou à Companhia de Terminais, Portos e Hidrovias do Piauí (Porto Piauí) os seguintes questionamentos e solicita resposta:

  1. Em que data e hora o navio de classe oceânica chegou à área de fundeio, e qual a data contratual prevista para o início do seu carregamento?
  2. Se a carga estava “armazenada e pronta para embarque” em 19 de junho, o que impediu o início do transbordo entre 22 e 29 de junho?
  3. O navio-pulmão já está posicionado na área de fundeio? Desde quando? Qual embarcação é, e quem a afretou?
  4. Quantas toneladas já foram transferidas ao navio oceânico até esta data?
  5. Quantas viagens do Konta II estão previstas e qual o prazo total estimado para completar as 110 mil toneladas?
  6. Quem arca com as diárias e a eventual demurrage do navio oceânico e do navio-pulmão durante a espera — Estado, operador ou exportador? Quais os valores diários contratados?
  7. Qual o custo total do transbordo por tonelada nesta operação — incluindo afretamento das três embarcações, praticagem, rebocadores e apoio marítimo — e como ele se compara ao custo de embarcar por Itaqui ou Pecém?
  8. A companhia publicará os tempos operacionais de todas as escalas (chegada, atracação, início e fim de operação), nos moldes do Estatístico Aquaviário da ANTAQ?

O que dizem os órgãos de controle

Esta redação solicita manifestação do TCE-PI, do MPC-PI e do MP-PI: os órgãos acompanham os custos e os prazos da operação inaugural do Porto Piauí? Solicitam ou pretendem solicitar à companhia os contratos de afretamento das três embarcações envolvidas, o estudo de viabilidade econômica do modelo de transbordo e a demonstração de quem suporta os custos de espera dos navios? A redação está à disposição para publicar, na íntegra, as respostas dos órgãos de controle e a eventual manifestação da Porto Piauí.

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