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agosto 26, 2026 05:48

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SÉRIE ESPECIAL ICMS PIAUÍ – PARTE 5 – O BALCÃO DE ISENÇÕES

O consumidor paga 22,5%, a empresa escolhida paga zero: o balcão de isenções do ICMS piauiense

O Estado abriu mão de R$ 166 milhões em 2024 e prevê R$ 175 milhões em diferimento para 2025, em benefícios concedidos caso a caso a indústrias e agroindústrias, mediante promessas de emprego celebradas em cerimônias de pedra fundamental. Depois de anos dessa política, o Piauí fechou 2025 na lanterna nacional do emprego. Quem confere se as promessas foram entregues?

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

No Piauí do ICMS a 22,5%, há dois balcões. No primeiro, o do supermercado, o consumidor paga R$ 129,03 para levar R$ 100 de mercadoria, sem direito a negociar. No segundo, o do Palácio, empresas selecionadas em processo administrativo negociam pagar menos, ou nada.

É fato que, no mesmo período em que elevou a alíquota geral ao segundo maior patamar do país, o governo ampliou a concessão de incentivos fiscais. É fato que a renúncia voltada à indústria, agroindústria e comércio somou R$ 166,44 milhões em 2024, com diferimento estimado em R$ 175,76 milhões para 2025, segundo dados divulgados pelo próprio governo. É fato que, só em 2024, 22 indústrias e agroindústrias receberam incentivos, por processos analisados pela Comissão de Assessoramento Técnico e aprovados pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial, com fundamento na Lei estadual nº 6.146/2011.

Para dimensionar: os R$ 166 milhões de renúncia de 2024 são da mesma ordem de grandeza dos cerca de R$ 200 milhões por ano que, pela régua do próprio governo, o segundo aumento da alíquota extrai do consumidor. Numa leitura possível, e é avaliação desta redação, o aumento cobrado de todos financia, em valor equivalente, o benefício concedido a poucos.

A promessa e a lanterna

O argumento oficial é conhecido: incentivo atrai investimento e gera emprego. O secretário Emílio Júnior afirma que os incentivos são a forma de o governo contribuir com o desenvolvimento, e o Estado divulga os empreendimentos com suas promessas: um laticínio no Vale do Gurguéia com R$ 532 milhões de investimento anunciado e 500 empregos diretos prometidos, uma agroindústria em Uruçuí com R$ 2 bilhões anunciados e 3.000 empregos diretos prometidos.

É fato, porém, que depois de anos dessa política o Piauí fechou 2025 com a maior taxa de desemprego do Brasil, 9,3%, e a maior subutilização da força de trabalho do país, 31%. Se a renúncia fiscal gera emprego, os empregos gerados não bastaram sequer para tirar o Estado da lanterna nacional.

Esta redação não afirma que os incentivos sejam ilegais nem que as empresas beneficiadas tenham descumprido obrigações. O que esta reportagem sustenta, e é avaliação desta redação, é o dever reforçado de prestação de contas: um estado que cobra de seu povo o segundo imposto mais alto do país precisa demonstrar, empresa por empresa, emprego por emprego, decreto por decreto publicado no diário oficial, que a receita da qual abre mão retorna à sociedade. Hoje essa demonstração não existe em formato acessível ao cidadão, e o portal que deveria permitir a conferência bloqueia a extração de relatórios.

Contraditório

A Rádio Calçada encaminha à Secretaria da Fazenda do Estado do Piauí as seguintes perguntas e solicita resposta:

  1. Qual a lista completa das empresas com incentivos fiscais de ICMS vigentes, com o valor anual da renúncia ou diferimento por empresa e o número do decreto concessivo de cada uma?
  2. Quais metas de emprego, investimento e produção constam dos atos concessivos e qual o resultado das verificações de cumprimento, empresa por empresa?
  3. Algum benefício foi revogado ou suspenso por descumprimento de contrapartidas desde 2023? Quais?
  4. Quantos dos 500 empregos diretos prometidos pelo empreendimento do Vale do Gurguéia e dos 3.000 prometidos pelo empreendimento de Uruçuí estão efetivamente criados, com vínculo registrado?
  5. O demonstrativo de renúncia fiscal exigido pela Lei de Responsabilidade Fiscal está disponível ao público em formato aberto? Onde?

Órgãos de controle

A Rádio Calçada solicita ao TCE-PI, ao MPC-PI e ao MP-PI manifestação sobre a fiscalização das contrapartidas dos incentivos concedidos com fundamento na Lei nº 6.146/2011, e se compromete a publicar as respostas na íntegra.

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