O Porto Piauí levou 37 dias para embarcar 9 mil toneladas de minério. Desde a primeira atracação, o governo do Estado não divulgou uma única taxa de carregamento, o número de ciclos de transbordo concluídos ou a data de partida do navio oceânico
Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)
O Porto Piauí, em Luís Correia, recebeu a primeira atracação de um navio de carga da sua história em 29 de junho de 2026. O graneleiro Konta II encostou no berço 401 do Terminal de Uso Privado e começou a receber minério de ferro extraído em Piripiri. O navio deixou o terminal em 5 de agosto, por volta das 9h, levando 9 mil toneladas.
São 37 dias entre a atracação e a saída para transportar uma única carga de 9 mil toneladas. A conta simples, feita com as duas datas divulgadas pela própria Companhia Porto Piauí, dá uma média de aproximadamente 243 toneladas por dia, ou algo em torno de 10 toneladas por hora.
Esse número é o centro desta reportagem. Ele explica por que a operação que foi anunciada como marco histórico segue, quase dois meses depois, sem confirmação pública de que uma tonelada de minério piauiense tenha efetivamente partido para a China.
Por que o carregamento foi tão lento
A resposta aparece na cobertura da imprensa econômica do próprio início da operação. O portal Meio News registrou, em julho, que transportadores de correia e shiploaders iriam acelerar o carregamento “nas próximas semanas”. Shiploader é o equipamento fixo que despeja o minério direto no porão do navio. Uma máquina desse tipo movimenta entre mil e duas mil toneladas por hora.
É avaliação desta redação que a operação comercial foi inaugurada antes de o terminal ter instalado o equipamento capaz de carregar um navio em ritmo industrial. A diferença entre 10 toneladas por hora e mil toneladas por hora não é detalhe técnico. É a diferença entre encher um navio oceânico em uma semana e não conseguir enchê-lo em um ano.
Mantido o ritmo da primeira viagem, as 110 mil toneladas que o navio oceânico deveria levar exigiriam mais de 400 dias de carregamento no berço 401.
A conta é uma projeção e parte de uma premissa explícita: que o ritmo verificado entre 29 de junho e 5 de agosto se repetisse nas viagens seguintes. A Companhia Porto Piauí afirma que a entrada em operação dos transportadores de correia e do shiploader vai acelerar o carregamento, e o navio Konta III passou a integrar a operação em agosto. Nenhum dos dois fatos foi acompanhado da divulgação de uma nova taxa de carregamento. Enquanto esse número não for publicado, o único ritmo comprovado da história do terminal continua sendo o da primeira carga.
O minério é movimentado três vezes antes de sair do Piauí
O desenho da operação divulgado pela Companhia Porto Piauí funciona assim: o minério sai das minas de Piripiri por caminhão, é carregado no berço 401 em um navio menor, é transferido em alto-mar para um navio intermediário que funciona como armazém flutuante e, só então, é transferido de novo para o navio oceânico que segue para a Ásia.
São três transferências de carga depois do pátio do porto. Cada transferência custa dinheiro, consome tempo de navio parado, depende de condição de mar e provoca perda de material.
A técnica se chama transhipment e é usada em países como Equador, Singapura e Guiné-Bissau, segundo a Companhia Porto Piauí. O governo do Piauí adotou o modelo para começar a exportar sem esperar a conclusão de estruturas com maior profundidade no canal de acesso, o que, segundo a Companhia, antecipou o início das operações em até três anos.
O ponto que a Companhia não explicou publicamente é a taxa de transferência contratada em cada etapa. Sem esse número, não é possível dizer se o modelo funciona.
Um navio de 250 metros abastecido em porções de 9 mil toneladas
O Marine Victory tem 250 metros de comprimento e 43 metros de largura. As versões oficiais divulgadas à imprensa apontam capacidade entre 114 mil e 120 mil toneladas. O navio é operado pela chinesa Cosco Shipping. A carga é de responsabilidade da trader Xiamen Xiangyu.
Do outro lado da cadeia estão os navios Konta II e Konta III, com cerca de 9 mil a 10 mil toneladas cada um, e uma embarcação intermediária.
Para completar a carga do navio oceânico são necessárias em torno de doze viagens dos navios menores. Cada viagem depende do carregamento no berço 401, que é justamente a etapa mais lenta da cadeia.
As versões oficiais não fecham entre si
A Rádio Calçada comparou os comunicados e as declarações divulgadas pela Companhia Porto Piauí e reproduzidos pela imprensa entre junho e agosto de 2026. Em pontos objetivos, que não deveriam variar, as versões divergem.
O número de embarcações envolvidas aparece como três em agosto e como quatro na declaração do presidente da Companhia, Raimundo Dias, em 16 de agosto, quando foram citados o Marine Victory, o Konta II, o Konta III e uma embarcação intermediária.
A distância do ponto de fundeio aparece como aproximadamente 22 quilômetros da costa em publicações de agosto e como aproximadamente 37 quilômetros em publicações de junho.
A capacidade da embarcação intermediária aparece como 48 mil toneladas em uma versão e como cerca de 35 mil toneladas em outra.
A capacidade do navio oceânico aparece como 100 mil, 110 mil, 114 mil e 120 mil toneladas, conforme a data e o veículo.
O número de viagens necessárias aparece como dez em uma versão e em número maior em outras.
É avaliação desta redação que a variação nesses dados, todos originados da mesma fonte oficial, indica ausência de um boletim operacional padronizado. Um porto público em operação comercial divulga toneladas movimentadas, número de atracações e produtividade por período. Nada disso foi publicado.
O que a Companhia anunciou em 16 de agosto
Em 16 de agosto, a Companhia Porto Piauí anunciou o início do carregamento do navio oceânico Marine Victory. O presidente da Companhia, Raimundo Dias, afirmou que o carregamento deveria ser concluído nos próximos dias, quando o navio seguiria viagem com destino à China.
Até o fechamento desta reportagem, em 23 de agosto de 2026, a Rádio Calçada não localizou comunicado oficial informando a conclusão do carregamento nem a partida do navio.
Quem paga a conta enquanto os navios esperam
Navio parado custa dinheiro todos os dias. No transporte marítimo, o valor pago pelo tempo de espera além do previsto em contrato se chama sobrestadia. Quem paga depende do que está escrito no contrato de afretamento e no contrato de venda do minério.
A Rádio Calçada não teve acesso a esses contratos. Por isso não publica estimativa de valor. A pergunta que precisa de resposta pública é objetiva: a Companhia Porto Piauí, que é estatal, arcou com alguma parcela de sobrestadia, rebocador, apoio marítimo, agenciamento ou praticagem nesse período?
A operação envolveu cinco empresas especializadas em apoio marítimo, agenciamento, operação de navios, rebocadores e arqueação, segundo a Companhia. Os nomes dessas empresas não foram divulgados.
A praticagem responsável pelo trecho do litoral piauiense é a da zona quatro, sediada no Maranhão.
O contexto do investimento
O minério exportado é produzido pela Lion Mining, que opera três minas em Piripiri e produz cerca de 1,5 milhão de toneladas por ano, com teor de ferro que pode chegar a 65%. A empresa firmou contrato de longo prazo para escoar até 10 milhões de toneladas pelo terminal piauiense, segundo informações divulgadas à imprensa.
Antes do Porto Piauí, o minério seguia por rodovia até o Porto do Pecém, no Ceará. A nova rota encurta o percurso terrestre.
É avaliação desta redação que o ganho da rota mais curta só se confirma se a operação portuária tiver produtividade compatível. Uma economia no frete rodoviário perde sentido se a carga passa semanas esperando embarque no litoral.
O que a Rádio Calçada quer saber
A Rádio Calçada formula à Companhia Porto Piauí os seguintes questionamentos:
- Qual a taxa de carregamento contratada para o berço 401, em toneladas por hora?
- Em que data os transportadores de correia e o shiploader foram ou serão instalados e entraram ou entrarão em operação?
- Qual a taxa de transferência contratada para o transbordo em alto-mar, em toneladas por dia?
- Quantos ciclos de transbordo foram concluídos desde 5 de agosto de 2026 e quantas toneladas foram efetivamente transferidas para o navio oceânico?
- O navio Marine Victory partiu com destino à China? Em que data e com qual tonelagem?
- Qual a profundidade atual do canal de acesso e qual a data do levantamento batimétrico mais recente?
- A Companhia Porto Piauí pagou, a qualquer título, despesas de sobrestadia, rebocadores, apoio marítimo, agenciamento, arqueação ou praticagem relacionadas a esta operação? Em caso positivo, quais os valores e os contratos correspondentes?
- Quais são as cinco empresas que participaram da operação e sob qual instrumento contratual cada uma foi contratada?
- Por que a Companhia não divulga boletim periódico com toneladas movimentadas e produtividade do terminal?
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Companhia Administradora do Porto Piauí, Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Comunicação do Estado do Piauí, Lion Mining, Xiamen Xiangyu e Cosco Shipping.
As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no espaço desta reportagem.
Contatos: consultor@xconexoes.com.br e WhatsApp 86.9.9991.9990.
CONTROLE
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí a apuração dos custos públicos incorridos pela Companhia Administradora do Porto Piauí na operação de transbordo iniciada em 29 de junho de 2026, com verificação específica de despesas com apoio marítimo, rebocadores, agenciamento, arqueação, praticagem e eventuais encargos de sobrestadia.














