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agosto 23, 2026 20:10

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Cinquenta e quatro dias, quatro navios e 9 mil das 110 mil toneladas prometidas

O cargueiro que levaria o minério do Piauí à China continua fundeado na costa com o mesmo calado de dez dias atrás. O navio que faz o vaivém até o cais aparece agora com rota declarada para Fortaleza. O custo dessa espera existe, é conhecido pela Companhia Porto Piauí, e não é divulgado

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

Passaram-se 54 dias entre a primeira atracação de um navio de carga no Porto Piauí, em Luís Correia, e este sábado (22). Nesse período, a única quantidade de minério de ferro confirmada em comunicado oficial como embarcada é de 9 mil toneladas. A meta anunciada pelo Governo do Estado é de mais de 110 mil toneladas em uma única viagem para a China.

Neste sábado, o navio graneleiro Konta II, embarcação escolhida para fazer o transporte entre o cais e a área de fundeio em alto-mar, aparecia com destino declarado para Fortaleza, no Ceará.

O que diz o rastreamento

A informação consta do sistema VesselFinder, que reúne os sinais de AIS emitidos pelas próprias embarcações. Em consulta feita pela Rádio Calçada neste sábado (22), o Konta II (IMO 8530283, bandeira do Panamá) registrava destino FORTALEZA [BR FOR], previsão de chegada em 23 de agosto às 8h, calado de 4,2 metros e última posição recebida a cerca de 30 quilômetros a nordeste do porto de Luís Correia.

O AIS é o sistema de identificação automática que todo navio de grande porte precisa manter ligado. O campo “destino” é preenchido pela tripulação e pode ser alterado a qualquer momento. Ele indica para onde o navio informa que vai. Ele não confirma o que o navio carrega.

Na mesma consulta, o Marine Victory (IMO 9455533, bandeira da Libéria), o cargueiro que levaria a carga à China, aparecia com situação de navegação “fundeado”, velocidade de 0,3 nó e destino declarado BR LUIS CORREIA, com previsão de chegada vencida em 14 de agosto às 18h. O calado registrado era de 8,3 metros.

Esse mesmo calado de 8,3 metros já constava do rastreamento em 12 de agosto, quando o navio deixou o fundeadouro de Icoaraci, na região de Belém, e retornou à costa piauiense. Dez dias depois, o número não mudou.

Calado é a profundidade da parte submersa do casco. Quanto mais carga o navio recebe, mais fundo ele afunda e maior fica o calado. Um navio em processo de carregamento tende a mostrar aumento progressivo desse número. Vale o registro de que o calado informado pelo AIS é declarado pela tripulação e não é medido de forma automática. Ele é um indício e não uma prova.

A cronologia oficial

O Konta II atracou no berço 401 do Terminal de Uso Privado em 29 de junho de 2026. Foi a primeira atracação de navio de carga da história do porto. O governador Rafael Fonteles acompanhou a manobra e sobrevoou a operação de helicóptero. Na ocasião, afirmou que o terminal permitiria o embarque de mais de 100 mil toneladas em um único navio.

Em 5 de agosto, por volta das 9h, o navio deixou o cais levando 9 mil toneladas de minério extraído em Piripiri, segundo comunicado da Companhia Porto Piauí S.A. reproduzido pela imprensa. Foram 37 dias entre a atracação e a saída da primeira carga.

Em 7 de agosto, a companhia informou o início do transbordo em alto-mar, a cerca de 22 quilômetros da costa. Transbordo, ou transhipment, é a técnica em que navios menores levam a carga do cais até um navio oceânico fundeado longe da praia, porque o canal de acesso do porto não tem profundidade para receber o navio grande.

Por volta de 17 de agosto, em declarações reproduzidas pela imprensa, o presidente da Companhia Porto Piauí, Raimundo Dias, afirmou que o carregamento do Marine Victory deveria ser concluído nos dias seguintes, quando o navio seguiria viagem para a China. Na mesma ocasião, informou que o Konta II descarregava naquele dia, que o Konta III estava no porto para carregar e que os dois ficariam nesse giro entre o cais e a área offshore.

Passados cinco dias dessa declaração, a Rádio Calçada não localizou comunicado oficial informando a conclusão do carregamento nem a partida do navio para a China.

A conta das viagens

A operação envolve quatro embarcações. O Marine Victory tem 250 metros de comprimento e 114.091 toneladas de porte bruto. O Venture funciona como navio-pulmão, uma espécie de depósito flutuante intermediário, com capacidade aproximada de 35 mil toneladas, segundo informação da própria companhia. O Konta II e o Konta III transportam cerca de 9,6 mil toneladas cada um entre o cais e o mar aberto.

Com 9 mil toneladas por viagem, são necessárias mais de doze viagens dos navios menores para completar as 110 mil toneladas anunciadas.

É avaliação desta redação que o prazo é o dado central desta operação. Cinquenta e quatro dias depois da primeira atracação e dezessete dias depois da saída da primeira carga do cais, não há confirmação oficial de que o carregamento tenha sido completado.

O custo que ninguém divulga

A Rádio Calçada não conseguiu apurar o custo diário da permanência das quatro embarcações na costa piauiense.

O valor depende do contrato de afretamento, que é o aluguel do navio, e esse contrato não é público. Depende também do porte específico de cada embarcação. Os índices de referência do Baltic Exchange, a bolsa de fretes marítimos de Londres que serve de parâmetro mundial para o setor, não se aplicam diretamente a esses navios: o padrão do índice para navios de minério é uma embarcação de 182 mil toneladas com até 10 anos de uso, enquanto o Marine Victory tem 114 mil toneladas e foi construído em 2011.

É avaliação desta redação que o custo da espera existe, é relevante e é conhecido pela Companhia Porto Piauí S.A., e que a ausência de divulgação é o que impede o contribuinte piauiense de saber se está pagando essa conta.

Há três possibilidades, e elas levam a lugares diferentes. Se a venda do minério foi feita na modalidade FOB, quem contratou o navio oceânico foi o comprador estrangeiro, e o custo da espera é dele. Se foi na modalidade CFR, o custo é do vendedor. Se alguma dessas embarcações foi afretada pela Companhia Porto Piauí S.A. ou pelo Grupo Investe Piauí, o custo é público.

A Companhia Porto Piauí S.A. é empresa de capital misto vinculada ao Governo do Estado. O contrato de afretamento e a modalidade de venda são os documentos que respondem sozinhos à pergunta.

As perguntas

A Rádio Calçada quer saber:

  1. Quantas toneladas de minério de ferro foram efetivamente transferidas para o Marine Victory até esta data.
  2. Quantas viagens o Konta II e o Konta III realizaram entre o cais e a área de fundeio desde 5 de agosto.
  3. Se o Konta II segue vinculado à operação do Porto Piauí e qual o motivo da rota declarada para Fortaleza.
  4. Qual a nova data prevista para a partida do Marine Victory com destino à China.
  5. Qual a modalidade de venda do minério exportado, se FOB ou CFR.
  6. Se a Companhia Porto Piauí S.A. ou o Grupo Investe Piauí firmaram contrato de afretamento com os armadores de alguma das quatro embarcações, e qual o valor.
  7. Qual o custo diário da permanência das embarcações na costa piauiense e quem arca com esse custo.
  8. Se houve pagamento de sobrestadia, a multa devida ao dono do navio quando a embarcação fica parada além do prazo contratado, e por conta de quem.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Companhia Porto Piauí S.A., Grupo Investe Piauí, Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Estado da Comunicação Social e Lion Mining.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes.

Contatos: consultor@xconexoes.com.br

FISCALIZAÇÃO

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí que apurem os custos assumidos pelo poder público com a operação portuária de Luís Correia, incluindo eventuais despesas com afretamento e com permanência de embarcações, e que verifiquem a transparência dos contratos da Companhia Porto Piauí S.A.

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