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julho 28, 2026 07:09

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Piauí aluga sala na China por dispensa de licitação

Por dispensa de licitação, Investe Piauí assina aluguel de R$ 16,6 mil mensais por uma sala em Xangai; a dona do imóvel é a Nordic Innovation (Shanghai) Co., Ltd., cujos sócios não aparecem em nenhum documento público, e a fiscal do contrato trabalha a 16 mil quilômetros da porta que deveria vigiar

Por Trabulo Neto e Trabulo Júnior 

Todo mês, a partir de agora, uma ordem de pagamento sai dos cofres de uma estatal piauiense, cruza o planeta e pousa numa conta bancária na China. O valor é de R$ 16.628,52, o equivalente a R$ 554 por dia. O destino é a Nordic Innovation (Shanghai) Co., Ltd., proprietária de uma sala comercial no terceiro andar de um prédio da Zhoujiazui Road, em Xangai. Pergunte a qualquer órgão brasileiro quem são os donos dessa empresa e a resposta será a mesma que esta redação obteve depois de vasculhar todas as fontes públicas disponíveis: ninguém sabe.

O contrato está na página 66 da edição nº 139/2026 do Diário Oficial do Estado do Piauí, de 22 de julho de 2026.

O negócio, linha por linha

É fato que o Extrato de Contrato nº 037/2026 da Agência de Atração de Investimentos Estratégicos do Piauí S/A, a Investe Piauí, processo SEI nº 00147.000735/2026-16, formaliza a locação do imóvel batizado de Hosting Office P3, no 3º andar do nº 3688 da Zhoujiazui Road, distrito de Yangpu, Xangai, dentro do Shanghai Brazil Center, para abrigar o Escritório Internacional de Representação da companhia na China.

É fato que a contratação se deu por Dispensa de Licitação nº 12/2026, com fundamento no artigo 29, inciso V, da Lei federal nº 13.303/2016, a Lei das Estatais, e no regulamento interno da companhia. É fato que o aluguel mensal é de R$ 16.628,52, cerca de R$ 200 mil por ano, pago com recursos próprios da Investe Piauí, e que o contrato foi assinado em 21 de julho de 2026 pelo diretor-presidente Victor Hugo Saraiva de Almeida. Pela locadora, assina Wu Jie.

É fato que a contratada é identificada no extrato por um único dado: o registro empresarial chinês USCC nº 91310000MA1G91531X. Nada de endereço próprio, nada de representante no Brasil, nada de quadro societário.

É fato que a fiscalização do contrato foi atribuída a uma única servidora, Marlia Ferreira Ribeiro. É avaliação desta redação que aqui mora um detalhe que resume o caso: a distância em linha reta entre Teresina e Xangai é de cerca de 16 mil quilômetros. O Estado do Piauí acaba de criar um contrato cuja execução física nenhum fiscal consegue atestar sem atravessar o mundo, e cuja contraparte nenhum cidadão consegue identificar sem ler mandarim.

A empresa sem rosto

É fato que esta redação buscou, em bases empresariais brasileiras, em buscadores em português e inglês e nos sítios de instituições nórdicas e sino-brasileiras de Xangai, qualquer informação sobre a Nordic Innovation (Shanghai) Co., Ltd.: sócios, capital, data de constituição, outros negócios. Nada foi localizado. O nome, genérico a ponto de colidir com entidades de cooperação nórdica que nada têm a ver com a locadora, funciona na prática como um véu. A titularidade real da empresa e do imóvel está registrada no cadastro empresarial da República Popular da China, fora do alcance de quem paga a conta.

É fato que o prédio, em si, tem pedigree: o Brazil Center de Yangpu foi inaugurado em 15 de agosto de 2025 como plataforma de cooperação empresarial entre os dois países, a partir de memorando firmado em 2024 entre o governo distrital de Yangpu e a Apex-Brasil, agência federal brasileira de promoção de exportações.

É avaliação desta redação que a fachada institucional do condomínio não responde a pergunta nenhuma. O contrato do Piauí não é com a Apex-Brasil nem com o distrito de Yangpu. É com uma pessoa jurídica privada chinesa, e a Lei das Estatais, que rege a Investe Piauí, exige da companhia programa de integridade e gestão de riscos (artigo 9º). Diligência de integridade sobre uma contraparte começa pelo básico: saber quem ela é. Se a Investe Piauí sabe, o processo SEI nº 00147.000735/2026-16 deve mostrar. Se não sabe, assinou às cegas.

O preço sem parâmetro

É avaliação desta redação que a modalidade do imóvel agrava a exigência de justificativa. “Hosting office” é, no mercado corporativo, a sala compartilhada de hospedagem empresarial, tipicamente a opção mais econômica de presença física num endereço. Para validar R$ 16.628,52 mensais por uma unidade desse tipo, a instrução da dispensa precisa exibir pesquisa de preços com alternativas reais do mercado de Xangai, e não apenas a proposta da própria locadora. É fato que o extrato publicado não traz prazo de vigência da locação, informação obrigatória que impede ao leitor do diário oficial saber sequer por quantos meses o Estado se comprometeu.

A sala e o calendário

É fato que a Investe Piauí anunciou para 31 de outubro a 6 de novembro de 2026 a Missão Empresarial China 2026, com programação em Cantão e em Xangai, incluindo a China International Import Expo. É fato que o contrato da sala de Xangai foi assinado 102 dias antes do início da missão, e publicado no diário oficial já dentro do trimestre que antecede as eleições estaduais de 4 de outubro.

É avaliação desta redação que a coincidência de praça e de datas sugere a função imediata do imóvel: servir de vitrine e base de apoio para a missão de outubro, evento que, realizado por um governo em fim de mandato e em plena sucessão estadual, tem valor político evidente. Não há ilegalidade em preparar uma missão comercial. Há, sim, obrigação de separar com nitidez o que é promoção do Estado do que é promoção de governo, e de demonstrar que um aluguel permanente não foi contratado para atender, no essencial, a uma semana de evento.

As quatro perguntas

É avaliação desta redação que o caso se resolve com quatro respostas que só a Investe Piauí pode dar. Quem são os beneficiários finais da Nordic Innovation (Shanghai) Co., Ltd.? Que diligência de integridade foi feita sobre eles antes da assinatura? Que pesquisa de preços e que prazo de vigência sustentam o valor contratado? E qual é, afinal, o custo total e o resultado auditável de cada um dos escritórios que a companhia mantém fora do Piauí? Enquanto essas respostas não vierem, o contrato é exatamente o que o extrato mostra: dinheiro público piauiense atravessando o mundo, todo mês, rumo a um destinatário sem rosto.

Contraditório

O espaço está aberto, em sua integralidade, à Investe Piauí e ao Governo do Estado. A companhia pode apresentar a instrução completa da Dispensa nº 12/2026, com a pesquisa de preços, o prazo de vigência, a diligência de integridade sobre a contratada e a identificação de seus beneficiários finais, bem como o balanço auditável de custos e resultados de seus escritórios externos. Esta redação publica na íntegra as respostas que forem encaminhadas.

Ao controle externo

Esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) e ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) o exame da instrução do processo SEI nº 00147.000735/2026-16, com atenção à pesquisa de preços, ao prazo de vigência omitido no extrato publicado, à identificação dos beneficiários finais da Nordic Innovation (Shanghai) Co., Ltd. e à aptidão do modelo de fiscalização adotado para um contrato executado no exterior, à luz das exigências de integridade e gestão de riscos da Lei nº 13.303/2016. Solicita, ainda, que a companhia seja instada a publicar o custo consolidado anual e os resultados mensuráveis de cada escritório internacional que mantém.

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