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outubro 26, 2026 04:26

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EDITORIAL Comemorar o quê, se o Piauí segue entre os mais pobres do Brasil?

Neste 19 de outubro, o Piauí lembra a coragem que aderiu à Independência em 1822. É dia de discurso, de palanque e de bandeira no alto. A Rádio Calçada prefere outro tipo de homenagem: olhar os números oficiais de frente, dizer onde o governo acertou, onde falhou e o que precisa ser feito. Porque o Piauí não precisa de mais festa. Precisa de mais resultado.

Propaganda não tem fila. Esgoto tem

Como esta redação já mostrou a partir dos dados do Portal da Transparência, o governo do Piauí pagou R$ 424,1 milhões em comunicação entre o fim de janeiro de 2023 e o início de julho de 2026. É uma média de R$ 10,1 milhões por mês.

No mesmo estado, só 18% das casas tinham coleta de esgoto no Censo de 2022. O próprio governador Rafael Fonteles disse, em 2025, que esse índice envergonha o Piauí. É avaliação desta redação que a vergonha estaria mais bem expressa no orçamento do que na entrevista. Um governo que encontra R$ 10 milhões por mês para falar de si mesmo precisa explicar ao piauiense por que a obra que não aparece na propaganda é sempre a que fica para depois.

Esgoto: o governo entregou o problema, mas não pode entregar a cobrança

A aposta do governo para o saneamento é a concessão à iniciativa privada. O governador prometeu sair de 18% para 90% de coleta de esgoto. A promessa é boa. O risco também é grande: quando o serviço passa para uma empresa, o governo deixa de executar e passa a ter uma única obrigação, a de fiscalizar. E fiscalização fraca transforma meta de contrato em papel.

O que precisa ser feito, na avaliação desta redação: publicar o cronograma de obras de esgoto município por município, com a meta de cada ano; divulgar a cada três meses quantas casas foram ligadas à rede em cada cidade; garantir que a agência reguladora tenha orçamento próprio e independência real em relação à empresa que fiscaliza; e tornar públicas todas as multas aplicadas por descumprimento. O piauiense de Picos, de Floriano ou de Esperantina tem o direito de saber em que ano a rede chega à sua rua.

Renda: o fim da fila não é destino

Segundo o IBGE, o PIB por habitante do Piauí em 2023 foi de R$ 24.736, o terceiro menor do país e menos da metade da média nacional, de R$ 53.886. A renda por pessoa nas casas piauienses em 2025 foi de R$ 1.546 por mês, contra R$ 2.316 na média do Brasil e R$ 2.956 em São Paulo. A família paulista tem quase o dobro do dinheiro por pessoa que a família piauiense.

E não dá para culpar só a pobreza de origem. A Paraíba tem PIB por habitante menor que o do Piauí, R$ 24,3 mil segundo o IBGE, e aparece sete posições à frente no ranking de competitividade, em 12º lugar. O Ceará, governado pelo mesmo PT de Fonteles, está em 11º. Pernambuco e Alagoas também estão à frente do Piauí.

Enquanto isso, quem produz aqui paga uma das alíquotas de ICMS mais altas do país, de 22,5%, aprovada pela Assembleia Legislativa a pedido do governo, como esta redação já mostrou.

O que precisa ser feito, na avaliação desta redação: rever a carga de ICMS sobre o pequeno comerciante, que não tem acesso aos incentivos dos grandes.

Alfabetização: a escola melhorou, os adultos foram esquecidos

O Piauí tem 13,1% da população com 15 anos ou mais sem saber ler e escrever. É a maior taxa do Brasil, empatada com Alagoas. A taxa vem caindo, mas devagar demais. São centenas de milhares de piauienses que não conseguem ler a bula de um remédio, um contrato ou a própria conta de luz.

É avaliação desta redação que aqui está a maior contradição do governo. A mesma rede que levou o ensino médio ao segundo lugar do país convive com a maior taxa de analfabetismo adulto do Brasil. O jovem foi priorizado. O pai e o avô dele, não.

O que precisa ser feito, na avaliação desta redação: lançar um plano estadual de alfabetização de adultos com meta pública, por exemplo cortar a taxa pela metade até 2030; fazer busca ativa de casa em casa, com os agentes que o Estado e os municípios já têm nas comunidades; levar as turmas para perto de onde o adulto vive e trabalha, à noite e nos fins de semana; e usar o mesmo método que fez o Ideb subir: meta clara, medição frequente e cobrança de resultado.

Segurança: a queda é real, mas ainda mata o dobro

A redução de 2025 merece reconhecimento. Mas Santa Catarina terminou o ano com 7,6 mortes por 100 mil habitantes e São Paulo com 7,8. O piauiense ainda corre mais que o dobro do risco de ser assassinado do que um catarinense. Um ano bom não é política consolidada.

O que precisa ser feito, na avaliação desta redação: publicar todo mês, por município, o número de mortes violentas, para que cada cidade saiba se está melhorando ou piorando; divulgar quantos homicídios são esclarecidos e levados à Justiça, porque crime sem punição é convite à repetição; e fixar metas de redução por região, com cobrança pública dos responsáveis.

Sem desculpas

O governo não pode dizer que herdou o problema. Rafael Fonteles foi secretário estadual de Fazenda de janeiro de 2015 a março de 2022 e governa o estado desde 2023. Há mais de uma década ele está no centro das decisões sobre o dinheiro do Piauí. Os números de hoje são resultado de uma gestão da qual ele faz parte há mais de dez anos.

Também não pode dizer que falta apoio. Fonteles foi reeleito no primeiro turno, em 4 de outubro, com 70,90% dos votos válidos, à frente de uma coligação que reúne PT, MDB, PSD, Republicanos, PDT, PCdoB e PV, segundo o TSE. É avaliação desta redação que esse é ao mesmo tempo o maior trunfo e o maior risco do novo mandato. Com quase todos do mesmo lado, a oposição encolhe e a Assembleia tende a aprovar sem discutir. Um governo sem contraponto tende a confundir voto com resultado. A urna mede confiança. Não mede quantas casas ganharam esgoto, quantos adultos aprenderam a ler, quantas vidas foram poupadas.

Um compromisso para o novo mandato

Se o governo quer de fato honrar o 19 de outubro, a Rádio Calçada propõe um gesto simples, que não custa um real: nos primeiros 90 dias do novo mandato, apresentar ao piauiense um plano de metas com números, prazos e responsáveis para esgoto, alfabetização de adultos, segurança e geração de renda, com prestação de contas pública a cada seis meses. A cidade de São Paulo faz isso por lei desde 2008. O Piauí pode fazer por vontade.

E um segundo gesto, também ao alcance da caneta do governador: cortar o gasto com propaganda, devolvendo esse dinheiro para obras que o povo sente na pele, e não só vê na televisão.

A festa que o povo merece

O que o Piauí tem para celebrar neste 19 de outubro é a sua gente. O agricultor que produz no semiárido apesar da seca. A professora que ajudou o ensino médio a chegar ao segundo lugar do país. O pequeno comerciante que paga imposto alto e mantém a porta aberta. É esse povo que carrega o estado nas costas.

O Piauí não é pobre por destino. Vizinhos com menos riqueza encontraram o caminho, e a própria escola piauiense mostrou que ele existe. Coragem o piauiense tem desde 1822. Falta ao governo a mesma ambição em tudo o que não rende foto. Enquanto isso não mudar, o 19 de outubro seguirá sendo um dia de bandeiras no alto e indicadores lá embaixo.

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