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outubro 26, 2026 09:29

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Lula começa o quarto mandato no vermelho. E agora?

Reeleito, o presidente vai governar um país que gasta R$ 1,18 trilhão por ano só com juros da dívida, com 92% do Orçamento já comprometido e risco, apontado pela própria equipe econômica, de faltar dinheiro para o básico a partir de 2028. Desta vez não há herança de outro governo para culpar.

EDITORIAL | Rádio Calçada |

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo, 25 de outubro, para o quarto mandato como presidente da República. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, ele recebeu 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, do senador Flávio Bolsonaro (PL). Foi uma virada em relação ao primeiro turno, quando Flávio havia terminado na frente.

Durante semanas, os dois candidatos disputaram quem prometia mais. Pouco se falou sobre quem vai pagar. É avaliação desta redação que a campanha tratou o problema mais grave do país como se ele não existisse. Agora ele tem dono, tem número e tem data para cobrar. E há uma diferença importante em relação a qualquer outra transição: o presidente que assume em 5 de janeiro de 2027 é o mesmo que governa desde 2023. A conta que chega é, em boa parte, a conta do próprio governo.

A conta que chega antes de qualquer promessa

Segundo levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia da eleição, o governo federal precisa desembolsar hoje cerca de R$ 1,182 trilhão em um ano apenas para pagar os juros da dívida pública. Não é para construir hospital, abrir escola ou asfaltar estrada. É o preço de ter pegado dinheiro emprestado no passado e continuar pegando.

Para entender o tamanho disso: dívida bruta é tudo o que o governo deve a bancos, fundos, investidores e às próprias pessoas que compram títulos do Tesouro. Em agosto de 2026, essa dívida chegou a 82,9% de tudo o que o país produz em um ano (o chamado PIB), o equivalente a R$ 11,1 trilhões, de acordo com dados do Banco Central citados pelo Estadão.

O jornal informa ainda que, pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), apenas dois países devem gastar mais com juros do que o Brasil em 2026: Egito e Bahrein. É uma companhia que nenhum país que pretende crescer deveria querer.

O problema se alimenta sozinho. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, descreve um ciclo difícil de quebrar: quanto mais o governo deve, mais os investidores cobram para emprestar; quanto mais cobram, mais a dívida cresce. Pelas contas da IFI, a dívida pode chegar a 86,4% do PIB até o fim de 2027, o primeiro ano do novo mandato. Juro alto não pesa só no caixa da União. É ele que encarece o crediário da geladeira, o financiamento da moto e o empréstimo do pequeno comerciante de Teresina.

Um governo que herda a si mesmo

Nas transições anteriores, todo presidente que chegava podia apontar o antecessor. Lula não pode. O governo dele projeta um déficit de R$ 80,9 bilhões em 2026, ou seja, vai gastar mais do que arrecada, sem contar os juros. O Estadão atribui parte desse resultado às medidas lançadas durante a campanha à reeleição. Segundo o jornal, o presidente reajustou o Bolsa Família em 15% a 17 dias do primeiro turno, ampliando o peso das despesas obrigatórias. A equipe econômica afirma que o aumento será acomodado com remanejamento dentro do Orçamento, reduzindo a previsão de outros gastos.

Para 2027, o Orçamento enviado pelo próprio governo prevê um superávit de R$ 18,6 bilhões. A IFI não compra esse número. Depois de descontar as despesas que a lei permite deixar fora do cálculo da meta fiscal, a instituição chega a um saldo positivo de apenas R$ 900 milhões, praticamente zero para um Orçamento de trilhões. A IFI lembra que houve contingenciamento (congelamento de gastos) em 2026 e prevê que o mesmo vai se repetir em 2027, com corte significativo de despesas. O Estadão aponta que o Orçamento do ano que vem terá de ser refeito, com revisão das receitas e uma discussão sobre como encaixar tudo o que foi prometido no palanque.

E foi muita promessa. No último debate, Lula defendeu uma nova etapa do Desenrola, o programa de renegociação de dívidas, com leilões para comprar débitos bancários com descontos que, segundo ele, podem chegar a 95%. É avaliação desta redação que cada nova promessa precisa vir acompanhada de uma resposta simples: quanto custa e de onde sai o dinheiro.

Um Orçamento que já nasce amarrado

O segundo problema é que quase todo o dinheiro federal já tem destino certo antes de o ano começar. As chamadas despesas obrigatórias, aquelas que o governo não pode deixar de pagar por força de lei ou da Constituição, somam 92% do Orçamento da União, segundo o Estadão. Entram aí aposentadorias e pensões do INSS, salários de servidores, benefícios sociais e os pisos de saúde e educação.

Só quatro áreas, Previdência, assistência social, saúde e educação, passam de 80% do Orçamento. E elas crescem por conta própria. Aposentadorias e benefícios acompanham o salário mínimo, que sobe acima da inflação. Desde 2024, uma regra aprovada no próprio governo Lula limita esse ganho a 2,5% ao ano acima da inflação, o mesmo teto de crescimento de gastos do arcabouço fiscal (a regra criada por este governo para definir quanto a despesa pode aumentar a cada ano). Mesmo assim, a pressão continua. Já saúde e educação têm verba carimbada, presa à arrecadação: quando a receita sobe, o gasto mínimo sobe junto.

O que sobra recebe o nome técnico de despesa discricionária. Na linguagem de quem paga imposto, é o dinheiro que mantém o Estado de pé: a conta de luz das repartições, o combustível da viatura, a compra de remédio, a bolsa de pesquisa, a manutenção da rodovia, a obra que já começou. O projeto de Orçamento de 2027 reserva R$ 266,8 bilhões para isso, conforme reportagem da Forbes. A IFI projeta um valor menor, de R$ 240,4 bilhões, cerca de 1,7% do PIB, e estima que abaixo de 0,7% do PIB a máquina pública simplesmente deixa de funcionar.

O próprio governo reconhece o risco. Segundo o Estadão, a equipe econômica de Lula projetou que, se nada for feito, vai faltar dinheiro para bancar as despesas não obrigatórias a partir de 2028, o segundo ano do novo mandato. A estimativa oficial citada pela Forbes indica que, só para manter o nível atual desses gastos em 2028, seriam necessários mais R$ 15,8 bilhões. É disso que se fala quando especialistas usam a palavra “colapso” da máquina pública: não é o governo quebrar de uma vez, é o serviço público ir parando aos poucos, por falta de verba para o básico.

O arcabouço não basta

O arcabouço fiscal foi a resposta do governo Lula para controlar as contas. É avaliação desta redação que, diante dos números do próprio governo e da IFI, ele sozinho não resolve o problema. A regra limita o crescimento do gasto total, mas não impede que as despesas obrigatórias engulam, ano após ano, o espaço do resto. Quem paga é o posto de saúde sem insumo, a obra parada e o convênio que não chega à prefeitura.

O Congresso também segura a caneta

O Palácio do Planalto não decide sozinho. No Orçamento de 2026, o Congresso aprovou R$ 62 bilhões em emendas parlamentares, segundo o Estadão. Desse total, R$ 49,9 bilhões são recursos carimbados diretamente por deputados e senadores, que escolhem para onde o dinheiro vai. O restante ficou sob controle dos ministérios.

É dinheiro que sai da mesma fatia apertada das despesas discricionárias. Quem acompanha o caminho das emendas até os municípios piauienses sabe como é difícil, muitas vezes, descobrir o que foi feito com cada real. Qualquer ajuste sério vai ter de incluir o Congresso. Sem isso, o corte cai sempre sobre o posto de saúde, a universidade e a estrada, enquanto a parte do Orçamento sob controle dos parlamentares segue intocada.

O que dizem os especialistas

O Estadão ouviu três especialistas em contas públicas. As propostas apontam para o mesmo lugar: não existe saída mágica.

Para Daniel Couri, consultor de Orçamento do Senado, a primeira e mais eficaz medida é recuperar rapidamente a credibilidade da gestão fiscal. Na avaliação dele, o governo precisa usar a força política que sai das urnas para enfrentar a indexação do Orçamento, isto é, as regras que fazem os gastos subirem automaticamente todo ano. É uma janela curta: o capital político de um presidente recém-eleito costuma ser maior nos primeiros meses, e Lula sai das urnas com mais de 64 milhões de votos.

A economista Selene Peres Nunes, uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, diz não enxergar ajuste possível sem mexer nas quatro grandes rubricas: Previdência, assistência, saúde e educação. São justamente as áreas que formam a base política do presidente reeleito. Mas ela faz uma ressalva que esta redação considera central: o sacrifício precisa começar pelo “andar de cima” da administração pública, com corte de penduricalhos (os adicionais que inflam salários além do teto) e reforma administrativa que alcance quem ganha muito. É a forma, segundo a economista, de dividir o peso do ajuste de maneira justa.

Já Claudiano Albuquerque, consultor do FMI e ex-secretário adjunto de Orçamento, critica o ritual de fazer um pacote de corte a cada novo governo. “Não precisamos de mais regras”, resume. A proposta dele é mudar a forma como o país decide gastar. Em linguagem simples, o modelo prevê:

  • Planejar para o mandato inteiro, com programação de três a cinco anos, e não só para o ano seguinte.
  • Gastar com base na receita normal, sem contar com dinheiro extraordinário. O que entrar acima da média vai para uma reserva, com regras claras de uso.
  • Calcular o espaço real para novos gastos: só entra despesa nova se couber depois de pagos os compromissos já assumidos.
  • Controlar as decisões de todos os atores, presidente, ministros e parlamentares, e não depender da boa vontade de um só.
  • Avaliar resultados de forma independente e revisar todos os gastos de tempos em tempos, por exemplo a cada dois anos.
  • Exigir quatro autorizações para cada despesa: lei que a crie, inclusão no plano de médio prazo (só se houver espaço), inclusão no Orçamento anual e aval do responsável pelo pagamento.

Para Albuquerque, com esse rito previsto em lei, deixa de existir emenda obrigatória. É avaliação desta redação que um presidente que não disputará outra reeleição tem a rara chance de deixar como legado não apenas mais um programa, mas uma forma melhor de gastar.

E o Piauí com isso?

Muito. O Piauí é um dos estados que mais dependem do dinheiro federal para fechar as contas e manter serviços funcionando. Fundo de Participação, recursos do SUS, complementação do Fundeb, convênios e obras federais sustentam boa parte do que chega ao cidadão piauiense. Quando a União aperta o cinto, os primeiros cortes costumam atingir exatamente as transferências voluntárias, os convênios e os investimentos, que no Nordeste fazem diferença direta na vida das pessoas.

É avaliação desta redação que a proximidade política com Brasília não pode virar desculpa para o governo estadual esconder a própria responsabilidade, nem o ajuste federal pode ser usado para premiar ou punir estados por critério partidário. Um estado que depende tanto da União precisa cuidar com rigor redobrado do próprio endividamento e da qualidade do próprio gasto.

O que a Rádio Calçada cobra do presidente reeleito

A eleição terminou. A conta, não. Esta redação vai acompanhar o quarto mandato de Lula com a mesma régua com que acompanha qualquer governo, e cobra desde já quatro compromissos:

  1. Dizer a verdade sobre os números, apresentando ao país, antes da posse ou logo depois dela, um plano fiscal com metas, prazos e a origem de cada real das promessas de campanha.
  2. Começar o ajuste pelo andar de cima: supersalários, penduricalhos e privilégios .
  3. Proteger quem mais precisa sem fingir que a conta não existe, porque deixar a máquina pública parar também castiga primeiro os mais pobres.
  4. Abrir a caixa-preta das emendas parlamentares, com transparência completa sobre quem indicou, para onde foi e o que foi entregue.

O Brasil já passou por crises fiscais que terminaram em inflação, desemprego e serviço público em frangalhos. Quem mais sofreu, todas as vezes, foi quem não tinha como se proteger. O presidente reeleito tem agora a chance de fazer o que faltou na campanha: dizer a verdade sobre o tamanho do problema.

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