Teresina - PI /
julho 12, 2026 21:40

Menu

EDITORIAL: ÁGUA OU MINÉRIO — O QUE VALE MAIS PARA O PIAUÍ?

Editorial — Rádio Calçada

Tem três navios estrangeiros na porta do Piauí agora. Um atracado no rio Igaraçu, em Luís Correia. Um parado no mar, funcionando como um guindaste flutuante. E um gigante de 250 metros — quase três campos de futebol — fundeado lá longe, vazio, esperando ser enchido de minério, colherada por colherada.

Por que três navios para uma carga só? Porque o nosso porto não tem fundura. O navio grande, que é quem leva o minério pro outro lado do mundo, precisa de 14 a 18 metros de água embaixo do casco. O píer de Luís Correia não tem nem perto disso. Então inventaram uma gambiarra de alto-mar: o navio pequeno faz o vaivém no rio, o do meio recebe e repassa, e o grandão espera. Cada tonelada de minério piauiense é carregada e descarregada três vezes antes de virar dinheiro — e o dinheiro, diga-se, atraca em outro porto.

Essa espera não é de graça. Pelos preços públicos do mercado internacional de navios, a brincadeira toda custa algo entre R$ 220 mil e R$ 300 mil por dia. Por DIA. O navio grande chegou em meados de junho e até o fim do mês seguia parado, vazio, com o taxímetro rodando. Só de espera, a conta de mercado já passa de R$ 1,7 milhão. Quem paga? Não sabemos. O contrato ninguém mostra. E é por isso que esta redação perguntou, oficialmente, ao Governo do Estado e à Portos do Piauí. Seguimos aguardando.

Mas o editorial de hoje não é sobre navio. É sobre uma escolha.

Todo real público tem endereço. Real que vira dragagem, píer, estrada pra escoar minério, incentivo pra minerador, é real que não vira adutora, poço, cisterna, estação de tratamento. E aqui vai o fato que nenhum discurso de desenvolvimento apaga: o Piauí é um estado onde gente grande e gente miúda ainda anda quilômetros atrás de água. Onde o semiárido não é conceito de relatório — é a vida de mais da metade dos nossos municípios. Onde o rio que corta a capital agoniza e a torneira do interior seca antes do meio-dia.

O minério é riqueza? É. Mas é riqueza que sai. Sai bruta, sem beneficiamento, sem indústria, sem valor agregado — sai do chão do Piauí pro porão de um navio de bandeira da Libéria, e o que fica é o buraco, a poeira da carreta na estrada e a promessa de royalty. A água não. A água é a riqueza que fica. É ela que segura o homem no campo, a criança na escola, o gado vivo, a roça de pé. Não existe desenvolvimento em cima de cisterna vazia.

Então a pergunta que este jornal deixa — pro governo, pros deputados, pros órgãos de controle e principalmente pra você, leitor — é simples de fazer e incômoda de responder:

Na hora de decidir onde vai o dinheiro público do Piauí, o que vem primeiro: a água do povo ou o minério dos outros?

Não estamos dizendo que é um ou outro. Estado grande faz os dois. Mas estado sério mostra a conta dos dois — quanto custa o corredor do minério, quem paga a gambiarra dos três navios, e quanto, no mesmo orçamento, está indo pra levar água a quem não tem. Enquanto uma conta é pública e a outra é segredo, a resposta já está dada. E não é a que o povo daria.

Mais lidas

Veja mais

FIQUE A FRENTE DOS ACONTECIMENTOS!

Deixe seu e-mail e receba análises profundas, furos de reportagem e os bastidores do poder toda semana.