Dados do Portal da Transparência do Piauí mostram que o estado empenhrou, entre 2023 e maio de 2026, R$ 165,1 milhões em diárias e passagens aéreas — média de R$ 5,8 milhões por mês nos dois últimos anos completos. Quatro agências de viagem concentram mais de 90% de todos os contratos de passagens. A Rádio Calçada solicitou posicionamento das empresas e do governo antes da publicação.
O governo do Estado do Piauí, sob a gestão do governador Rafael Fonteles (PT), empenhrou R$ 165.183.318,52 em despesas de viagem entre 2023 e maio de 2026, segundo dados extraídos do Portal da Transparência do Piauí (transparencia.pi.gov.br) e obtidos pela Rádio Calçada. Do total empenhado, R$ 149.599.871,67 foram efetivamente pagos — e R$ 15,5 milhões permanecem em aberto, sem pagamento registrado até a data da extração.
Os dados abrangem três naturezas de despesa: Diárias — Civil (339014), Diárias — Militar (339015) e Passagens e Despesas com Locomoção (339033), cobrindo todos os órgãos do Poder Executivo estadual.
Crescimento acelerado em 2024 e 2025
O volume de despesas com viagens foi inexpressivo no primeiro ano do governo Fonteles — R$ 146.760 em 2023 —, mas cresceu de forma acentuada a partir de 2024. Nos dois anos seguintes, o estado empenhrou valores praticamente idênticos:
- 2023: R$ 146.760 empenhados | R$ 146.440 pagos
- 2024: R$ 70.458.640 empenhados | R$ 64.762.459 pagos
- 2025: R$ 70.797.365 empenhados | R$ 66.114.433 pagos
- 2026 (jan–mai): R$ 23.780.552 empenhados | R$ 18.576.537 pagos
Em 2024 e 2025, o estado desembolsou, em média, R$ 5,8 milhões por mês apenas em viagens. O volume registrado nos primeiros cinco meses de 2026 aponta para ritmo de R$ 4,7 milhões mensais.
Diárias respondem por 68% do total
Das despesas de viagem, R$ 112.428.596,81 (68,1%) correspondem a diárias pagas a servidores civis e militares, e R$ 52.754.721,71 (31,9%) a passagens aéreas e locomoção contratadas com agências.
Saúde e Educação lideram; Governadoria gasta R$ 11,2 mi
Entre os órgãos, a Secretaria da Saúde (SESAPI) registra o maior volume de gastos com viagens no período: R$ 25.053.222, equivalente a 15,2% do total estadual. A Secretaria da Educação (SEDUC) aparece em segundo lugar, com R$ 24.235.373 (14,7%), seguida pela Secretaria da Fazenda (SEFAZ), com R$ 17.390.324 (10,5%).
A Governadoria do Estado — que concentra o gabinete do próprio governador e secretarias ligadas diretamente ao Palácio de Karnak — empenhrou R$ 11.159.262 em viagens no período, com R$ 9.453.102 efetivamente pagos e R$ 1,7 milhão ainda sem pagamento registrado.
Ranking completo dos dez maiores órgãos:
| Órgão | Empenhado | Pago |
|---|---|---|
| Secretaria da Saúde | R$ 25.053.222 | R$ 23.022.379 |
| Secretaria da Educação | R$ 24.235.373 | R$ 20.834.884 |
| Secretaria da Fazenda | R$ 17.390.324 | R$ 15.168.201 |
| Polícia Militar | R$ 14.458.573 | R$ 14.224.583 |
| Secretaria da Segurança Pública | R$ 12.648.582 | R$ 12.487.444 |
| Secretaria da Justiça | R$ 12.121.563 | R$ 11.731.698 |
| Governadoria do Estado | R$ 11.159.262 | R$ 9.453.102 |
| Secretaria do Meio Ambiente | R$ 5.608.250 | R$ 5.016.981 |
| Secretaria das Cidades | R$ 5.489.395 | R$ 5.256.381 |
| Secretaria da Assistência Social | R$ 4.808.057 | R$ 4.043.987 |
Quatro agências concentram mais de 90% das passagens
Na rubrica de passagens aéreas, quatro empresas respondem por mais de 90% dos contratos com o Estado. Juntas, MIRACEU TURISMO LTDA, PRIMEIRA CLASSE VIAGENS E TURISMO LTDA, AEROVIP VIAGENS E TURISMO LTDA e R MORAES AGÊNCIA DE TURISMO LTDA somam R$ 47,8 milhões empenhados — 90,8% do total de passagens do Estado no período.
A maior beneficiária é a MIRACEU TURISMO LTDA, com R$ 22.109.510 em empenhos, equivalente a 41,9% de toda a rubrica de passagens. Somente junto à SESAPI, a empresa recebeu R$ 12.686.570 — mais da metade de seu faturamento com o Estado concentrado em um único órgão.
| Empresa | Empenhado | Pago | Em aberto |
|---|---|---|---|
| Miraceu Turismo Ltda | R$ 22.109.510 | R$ 17.604.304 | R$ 4.505.206 |
| Primeira Classe Viagens | R$ 10.747.601 | R$ 7.524.993 | R$ 3.222.608 |
| Aerovip Viagens e Turismo | R$ 8.141.176 | R$ 4.053.864 | R$ 4.087.312 |
| R Moraes Agência de Turismo | R$ 6.900.669 | R$ 5.804.584 | R$ 1.096.085 |
A concentração de contratos em poucos fornecedores, sem que os dados disponíveis no Portal da Transparência permitam identificar os processos licitatórios ou as atas de registro de preços que amparam individualmente cada empenho, é padrão que órgãos de controle — como o TCE-PI e o TCU — classificam como alerta em auditorias sobre despesas com passagens públicas. A presença desse padrão nos dados não implica, por si só, a existência de irregularidade, cabendo às autoridades competentes a análise dos instrumentos contratuais correspondentes.
Os valores acima são extraídos exclusivamente do Portal da Transparência do Estado do Piauí. A Rádio Calçada não teve acesso aos contratos, processos SEI ou atas de registro de preços que amparam os empenhos registrados. O cruzamento entre os empenhos e os instrumentos contratuais será objeto de apuração junto ao TCE-PI e por meio de pedidos via Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011).
Metodologia
Os dados foram extraídos do Portal da Transparência do Piauí em 16 de maio de 2026, filtrando as naturezas de despesa 339014 (Diárias — Civil), 339015 (Diárias — Militar) e 339033 (Passagens e Despesas com Locomoção), para os exercícios de 2023, 2024, 2025 e 2026. Os valores de “empenhado” representam o compromisso orçamentário registrado; os de “pago” representam o efetivo desembolso financeiro até a data da extração. Divergências entre os dois indicam saldo ainda em aberto no sistema.
Direito de resposta
A Rádio Calçada solicitou posicionamento formal do Governo do Estado do Piauí e das quatro empresas citadas nesta reportagem antes da publicação. Manifestações, esclarecimentos e notas podem ser encaminhados ao endereço redacao@radiocalcada.com.br. O espaço para resposta permanece aberto.
Situação atual e desdobramentos possíveis
Os dados analisados são públicos e extraídos de sistema oficial do próprio governo estadual. A reportagem será encaminhada ao TCE-PI e ao Ministério Público do Piauí (MPPI) para ciência, em especial quanto à concentração de contratos de passagens em quatro fornecedores e aos saldos pendentes de pagamento que totalizam R$ 15,5 milhões.
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