Estado tem a maior taxa do Brasil de gente sem trabalho suficiente e fica entre os últimos em carteira assinada, enquanto o país cresce e metade dos adultos tem o nome sujo
Jornalista Trabulo Neto
Quem olha só as manchetes oficiais vê um país crescendo. Quem vive no Piauí e procura emprego vê outra coisa. As duas imagens são verdadeiras, e a Rádio Calçada mostra aqui as duas.
O retrato do trabalho no Piauí
No segundo trimestre, as maiores taxas de desemprego do país foram no Amapá (9,8%), Bahia (9,1%), Pernambuco e Piauí (8,3% cada). A média nacional, no mesmo período, foi de 5,4%.
O dado mais grave é o do trabalho insuficiente. O IBGE mede a chamada subutilização, que soma quem está desempregado, quem trabalha menos horas do que gostaria e quem poderia trabalhar mas não está procurando. O Piauí teve a maior taxa do Brasil, 26,6%, seguido por Bahia e Alagoas; a menor foi em Santa Catarina, 4,1%. Ou seja, mais de um em cada quatro piauienses que poderiam trabalhar está sem emprego ou com trabalho de menos.
A carteira assinada também é rara. Entre os empregados do setor privado, Maranhão (53,6%), Piauí (54,2%) e Acre (55,1%) tiveram os menores percentuais com carteira assinada. Quase metade de quem trabalha para um patrão no Piauí não tem férias, 13º ou FGTS garantidos.
Há números que apontam em outra direção. O governo estadual afirmou que o estado reduziu a taxa de desalentados, pessoas que desistiram de procurar emprego, de 12% para 7,3% entre o fim de 2023 e o fim de 2025.
O país cresce, mas devagar
A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 na comparação com o primeiro trimestre, e em relação ao mesmo período de 2025 a alta foi de 2%, segundo o IBGE. O ritmo, porém, diminuiu: o resultado mostra desaceleração após a alta de 1,1% no primeiro trimestre, perda de ritmo que analistas já esperavam por causa dos juros altos. Se a previsão do mercado se confirmar, 2026 será o primeiro ano com crescimento abaixo de 2% desde 2020.
No emprego, o quadro nacional é o melhor já medido. A taxa de desemprego ficou em 5,3% nos três meses até julho, e a população ocupada chegou a 103,3 milhões de pessoas, o maior número da série histórica. O Piauí, portanto, não acompanha o ritmo do resto do país.
A inflação está sob controle. Em agosto houve deflação de 0,32%, e a inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,22%, dentro do limite de tolerância da meta, que vai até 4,5%.
O bolso das famílias
O problema aparece quando se olha para as dívidas. Segundo o Banco Central, a inadimplência no crédito livre para pessoas físicas chegou a 7,8%, o maior nível desde o início da série, em março de 2011, e no consignado privado bateu a marca inédita de 10%. Em linguagem simples: nunca tanta gente deixou de pagar empréstimo em dia.
Em maio de 2026, 81,6% das famílias disseram ter dívidas a vencer, o maior índice de toda a série histórica da pesquisa da CNC. E quem mais sofre é quem ganha menos: quase metade dos inadimplentes (48%) recebe até um salário mínimo, e outros 30% recebem até dois.
Por trás disso estão os juros. A Selic, taxa básica de juros, estava em 14% mesmo depois do início dos cortes, em março. Juro alto encarece o cartão, o cheque especial e o crediário, justamente o crédito que o trabalhador usa para fechar o mês. As contas públicas também preocupam: a dívida bruta do setor público chegou a 81,93% do PIB em junho.
No Piauí, a situação das dívidas é menos grave que a média: o estado tinha 1.059.506 consumidores negativados em março de 2026, o equivalente a 41,2% da população adulta, abaixo da média nacional, que passa da metade.
O que isso quer dizer
É avaliação desta redação que o principal problema econômico do Piauí não é a qualidade do trabalho: o estado lidera o país em gente sem trabalho suficiente e fica entre os últimos em carteira assinada. É avaliação desta redação que, no plano nacional, os bons indicadores gerais convivem com uma situação financeira difícil para milhões de famílias, espremidas entre juros de 14% e dívidas recordes














