Relatos de pescadores indicam que o graneleiro só sairia plenamente carregado na maré de sizígia de meados de julho; se a profundidade oficial de 7 metros na baixa-mar estiver correta, essa espera não deveria existir — e é exatamente essa contradição que o poder público precisa explicar
Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior
É fato: o navio existe, os números oficiais existem, e o calado é segredo
O KONTA II está atracado no Porto de Luís Correia para embarque de minério, em operação divulgada pelo próprio Governo do Estado como marco do transbordo marítimo piauiense. É fato, registrado em bases públicas internacionais de rastreamento marítimo (VesselFinder, MagicPort, Maritime Optima) e no site da operadora CSL Group, que a embarcação tem as seguintes características: IMO 8530283, bandeira do Panamá, construída em 2017 sob o nome original WEI QIAO JIA DA 28, com 109,80 metros de comprimento, 26,80 metros de boca e porte bruto de 9.595 toneladas.
É fato também que o KONTA II não é um graneleiro convencional. Ele pertence a uma série de navios-shuttle de transbordo construída para o sistema de exportação de bauxita da Guiné, na África Ocidental — embarcações desenhadas especificamente para operar em barras e canais rasos, onde navios comuns não entram. A proporção do casco denuncia o projeto: 110 metros de comprimento para quase 27 de largura, uma geometria de barcaça, feita para flutuar raso.
E é fato que o calado máximo da embarcação — a medida vertical entre a linha d’água e o fundo do casco, o dado que define quanta água o navio precisa para flutuar carregado — não consta em campo aberto de nenhuma base pública consultada por esta reportagem. O campo correspondente está vazio no VesselFinder e restrito a assinantes em outras plataformas. Até a publicação desta matéria, nem a operadora portuária nem o poder público divulgaram o calado operacional do KONTA II, a profundidade efetiva atual do canal de acesso ou a folga de segurança sob a quilha adotada nas manobras.
O relato dos pescadores
Circulam em portais e redes sociais da região relatos de pescadores que atuam diariamente nas proximidades do porto, segundo os quais o KONTA II dificilmente deixaria o terminal plenamente carregado antes da próxima maré de sizígia — o período de maiores amplitudes do ciclo lunar, associado neste mês à Lua Nova, em torno de 15 de julho. Na leitura de quem conhece a barra na prática, a elevação extra do nível da água na sizígia seria determinante para garantir a profundidade necessária à saída do navio carregado.
É avaliação desta redação que o relato merece ser levado a sério, mas não pelo motivo aparente. A mecânica descrita é tecnicamente correta: nas sizígias, o alinhamento entre Sol, Terra e Lua produz as maiores marés do ciclo, e para um navio operando perto do calado máximo, centímetros decidem entre sair e esperar. O problema é outro: se os números oficiais do canal estiverem corretos, essa espera não deveria ser necessária.
O que o governo divulgou sobre o canal
É fato, registrado em comunicados oficiais do Governo do Piauí e da Companhia Porto Piauí, que o canal de acesso ao porto tem cerca de 3,7 quilômetros de extensão e profundidade divulgada de 7 metros na maré baixa, chegando a 9,5 metros na maré cheia. É fato que a dragagem inicial, concluída em 2023, removeu mais de 600 mil metros cúbicos de areia ao custo de R$ 64,2 milhões, e que o canal passou por duas dragagens de manutenção desde então: em agosto de 2024 e em junho de 2025. É fato, ainda, que nota oficial da própria companhia admite a existência de áreas com profundidades menores e pequenas coroas na faixa do rio que margeia o canal, na margem esquerda do Igaraçu — embora afirme que essas formações não interferem na navegação.
Em resumo: pelo discurso oficial, o canal oferece 7 metros de água mesmo na pior maré do dia.
A conta que esta redação fez
Diante do silêncio sobre o calado do KONTA II, esta redação calculou uma faixa provável a partir da física elementar da flutuação — o mesmo método usado em arquitetura naval —, tomando por base as dimensões públicas do casco, o porte bruto registrado e coeficientes típicos de barcaças autopropelidas dessa categoria. A metodologia completa, com todas as premissas e cenários, está publicada em nota técnica anexa a esta matéria.
É avaliação desta redação, com base nesse cálculo, que o calado do KONTA II a plena carga situa-se entre 4,6 e 5,3 metros, com valor central em torno de 4,9 metros. Somando os fatores que trabalham contra o navio na saída — o afundamento dinâmico do casco em movimento em águas rasas (squat), o efeito da água salobra da foz do Igaraçu, que faz o casco imergir alguns centímetros a mais, e a folga de segurança sob a quilha exigida em qualquer manobra —, a profundidade total requerida fica em torno de 5,5 a 6,3 metros.
Três explicações possíveis — e o que cada uma significa
É avaliação desta redação que o episódio comporta três leituras, e todas interessam ao contribuinte.
Na primeira, a profundidade oficial é real, o navio sai carregado em preamar comum nos próximos dias, e o relato dos pescadores reflete cautela operacional, condições de ondulação na barra ou simples cronograma de carregamento — não falta d’água. Nesse caso, os 7 metros se confirmam e a operação se normaliza.
Na segunda, o canal assoreou. A última dragagem de manutenção foi em junho de 2025, há treze meses, numa foz de delta reconhecidamente dinâmica — o mesmo ambiente que exigiu duas manutenções em menos de dois anos. Se a profundidade efetiva na baixa-mar caiu para a faixa de 5,5 a 6 metros, a dependência de maré alta torna-se real; a dependência específica de sizígia indicaria degradação ainda maior. Nesse cenário, a pergunta deixa de ser náutica e vira administrativa: qual a profundidade medida hoje, quando foi o último levantamento hidrográfico, e quanto custará ao erário a próxima dragagem de um canal que já consumiu dezenas de milhões e não segura a cota.
Na terceira, o navio embarca menos carga do que comporta, para caber na água disponível. Aqui a limitação vira número: pela geometria do casco, cada centímetro de calado do KONTA II equivale a cerca de 26 toneladas de carga. Dez centímetros de maré que faltam são 260 toneladas que ficam no pátio. Se a diferença entre uma preamar comum e uma preamar de sizígia na barra for da ordem de meio metro a um metro — valor a confirmar na Tábua de Marés da Marinha para o Porto de Amarração —, a janela de Lua Nova representa entre 1.300 e 2.600 toneladas a mais por viagem, algo entre 14% e 27% do porte do navio. Esperar a sizígia, nesse cenário, não é capricho: é frete.
Há ainda um detalhe de calendário que a apuração registra. Sizígias ocorrem duas vezes por mês, na Lua Nova e na Lua Cheia. Houve janela de Lua Cheia na virada de junho para julho.
É avaliação desta redação que o mais valioso deste episódio é seu desfecho público e datado. Três dados, todos verificáveis por qualquer cidadão, arbitram a disputa nos próximos dias: a data e a hora da saída efetiva do KONTA II; o calado declarado pela embarcação no sistema AIS — transmitido abertamente e atualizado pela tripulação a cada mudança de condição de carga — no momento da manobra; e a altura da maré prevista na Tábua da Marinha para aquele instante.
Se o navio sair carregado em maré comum, a profundidade oficial se sustenta. Se sair apenas na janela de sizígia, ou sair com calado visivelmente inferior ao de plena carga, os pescadores terão enxergado antes do poder público aquilo que os comunicados oficiais não mostram. Esta reportagem acompanhará a manobra e publicará o resultado.
Questionamentos à Companhia Porto Piauí e à Investe Piauí S/A
A reportagem encaminha os seguintes questionamentos e solicita resposta.
- Qual é a profundidade efetiva atual do canal de acesso ao Porto de Luís Correia, medida na baixa-mar de sizígia (nível de redução), em toda a sua extensão e no berço de atracação?
- Quando foi realizado o último levantamento hidrográfico do canal após a dragagem de manutenção de junho de 2025? A companhia disponibiliza a planta batimétrica resultante e o responsável técnico pelo levantamento?
- Os comunicados oficiais informam profundidade de 7 metros na maré baixa e até 9,5 metros na maré cheia. Esses valores refletem medição posterior a junho de 2025 ou reproduzem a cota de projeto da dragagem?
- Qual é o calado máximo operacional autorizado para o canal e para o berço, e qual a folga sob a quilha exigida nas manobras de entrada e saída de embarcações carregadas?
- Qual é o calado de projeto e o calado operacional contratado do navio KONTA II (IMO 8530283) para as operações em curso no terminal?
- Qual tonelagem o KONTA II está autorizado a embarcar por viagem no Porto de Luís Correia? Esse limite corresponde ao porte bruto pleno da embarcação, de 9.595 toneladas, ou a carregamento parcial imposto pela profundidade disponível?
- As janelas de saída de embarcações carregadas estão condicionadas a estados de maré específicos? Em caso afirmativo, quais são os parâmetros?
- Há registro de manobra de saída adiada, remarcada ou condicionada à espera de maré desde o início do carregamento do KONTA II? Em caso afirmativo, em quais datas e por qual motivo?
- Qual é o cronograma e a estimativa de custo da próxima dragagem de manutenção do canal, e qual foi a taxa de assoreamento verificada entre as dragagens de agosto de 2024 e junho de 2025?
- Considerando que a embarcação em operação pertence a uma classe de navios-shuttle de calado reduzido, projetada para barras rasas, a companhia confirma que o canal, em sua condição atual, comporta a operação plenamente carregada de graneleiros convencionais de porte equivalente ou superior, conforme divulgado nos estudos de viabilidade do terminal?
Questionamentos à Capitania dos Portos do Piauí (Marinha do Brasil)
A reportagem encaminha os seguintes questionamentos e solicita resposta.
- Qual é a profundidade homologada do canal de acesso ao Porto de Luís Correia atualmente vigente nas Normas e Procedimentos da Capitania e na documentação náutica correspondente?
- O levantamento hidrográfico que ampara essa homologação é posterior à dragagem de manutenção de junho de 2025? Em que data foi validado?
- Há restrições de maré, calado máximo recomendado ou exigência de folga sob a quilha estabelecidas pela Capitania para manobras de embarcações carregadas no canal e na barra do rio Igaraçu?
- A Capitania recebeu, desde junho de 2025, comunicação de alteração de profundidade, avisos aos navegantes ou solicitação de atualização da Carta Náutica nº 515 referente ao canal de Luís Correia?
- As manobras do navio KONTA II estão sujeitas a praticagem obrigatória ou a acompanhamento específico da autoridade marítima? Quais parâmetros regem a autorização de saída da embarcação carregada?
Aos órgãos de controle
A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas do Piauí (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se já têm conhecimento das questões relativas à profundidade efetiva do canal de acesso ao Porto de Luís Correia, ao custo e à recorrência das dragagens de manutenção — que já consumiram mais de R$ 64 milhões na intervenção inicial, além de duas manutenções em agosto de 2024 e junho de 2025 — e à eventual limitação operacional imposta às embarcações carregadas, bem como quais providências pretendem adotar, incluindo a verificação da existência de levantamento hidrográfico atualizado que ampare os números de profundidade divulgados oficialmente.
A reportagem se coloca à disposição para publicar, na íntegra, as respostas dos órgãos investigados e dos órgãos de controle.
Nota metodológica
A estimativa de calado apresentada nesta matéria segue método auditável, com premissas, faixas e limitações detalhadas em nota técnica publicada como anexo. Em síntese: deslocamento a plena carga estimado entre 12.200 e 12.800 toneladas (porte bruto de 9.595 toneladas somado ao peso leve estimado do casco), aplicado à geometria pública da embarcação com coeficientes de bloco típicos de barcaças autopropelidas, resultando em calado de 4,6 a 5,3 metros. A estimativa não substitui o dado oficial — e é justamente a ausência do dado oficial que esta matéria registra.
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