Estado homologou R$ 64 milhões para 4.345 cisternas de placas de 16 mil litros pelo projeto PSI — custo unitário que é o dobro do referencial federal vigente e do valor implícito no anúncio feito pelo próprio governo em 2025; reportagem apresenta as contas, as possíveis explicações e as perguntas enviadas às secretarias
Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior
A Secretaria de Estado do Planejamento (SEPLAN) homologou, em termo publicado nas páginas 225 a 227 do Diário Oficial do Estado nº 125/2026, de 2 de julho de 2026, a Comparação de Preços nº 4/2025, destinada à construção de 4.345 cisternas de placas com capacidade mínima de 16 mil litros, incluindo materiais, mão de obra, logística e primeira carga de água. A despesa será custeada com recursos do Projeto Integrado de Segurança Hídrica, Sustentabilidade Ambiental e Desenvolvimento Socioprodutivo da Bacia dos Rios Piauí e Canindé (PSI/PI). O documento é assinado pelo secretário Washington Luís de Sousa Bonfim, com data de 1º de julho de 2026, e tramita sob o Processo SEI nº 00323.002753/2025-73.
Conforme a publicação, os valores adjudicados somam R$ 63.995.596,45, distribuídos entre quatro vencedoras: VIGA Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda (lotes 1, 3, 8, 11 e 13, que somam R$ 28.623.099,45), Consórcio Edificar Junto — Casa Forte Construtora e Cânion Construções (lotes 2, 6, 7, 9, 10 e 12, no total de R$ 22.825.829,62), VM Service (lote 4, R$ 6.765.634,30) e Construtora Padrão Ltda (lote 5, R$ 5.781.033,08). O termo de homologação não informa a quantidade de cisternas por lote.
Todos os números acima são fatos publicados no diário oficial. O que segue são contas aritméticas que qualquer leitor pode refazer — com os documentos de origem linkados ao final desta matéria — e as perguntas que elas suscitam.
A primeira conta: o custo por cisterna
Dividindo o valor total homologado pelas 4.345 unidades, cada cisterna sairá, em média, por R$ 14.728,56.
A segunda conta: o referencial federal
Existe um parâmetro nacional público para essa exata tecnologia. A Instrução Normativa SESAN nº 51/2024, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, fixa os valores unitários de referência do Programa Cisternas para a cisterna de placas de 16 mil litros — a norma integra o marco legal do programa, disponível na página oficial de legislação do MDS (gov.br/mds, seção Acesso à Água). Com base nela, edital publicado pelo Governo de Pernambuco em 2025, disponível no portal do MDS, contrata a construção de 4.312 cisternas do mesmo modelo ao valor unitário de R$ 7.114,31. Segundo as normas do programa federal, esse valor cobre a totalidade das despesas diretas e indiretas — pessoal, tributos, encargos, despesas administrativas, logística, alimentação, processo construtivo e capacitação —, e o modelo inclui material de construção, escavação, mão de obra, água para abastecimento inicial e entrega de filtro de barro. O escopo do certame piauiense, conforme o termo de homologação, também compreende materiais, mão de obra, logística e primeira carga de água.
O custo médio homologado no Piauí é, portanto, cerca de 107% superior ao valor de referência federal aplicado em contratação congênere.
A terceira conta: o anúncio do próprio governo
Em nota publicada em 27 de março de 2025 no site oficial do PSI (psi.seplan.pi.gov.br), a Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) anunciou a construção de cerca de 14 mil cisternas no estado, com investimento de cerca de R$ 100 milhões — sendo cerca de 5 mil unidades por meio de convênio com o MDS, no âmbito do Programa Cisternas, e cerca de 9 mil pelo PSI, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). A aritmética implícita nesse anúncio é de aproximadamente R$ 7,1 mil por cisterna.
Mantido o custo unitário agora homologado, os cerca de R$ 100 milhões anunciados construiriam aproximadamente 6,8 mil cisternas — menos da metade da meta divulgada. Dito de outro modo: este único certame corresponde a cerca de 64% do investimento anunciado e a cerca de 31% das unidades prometidas.
A quarta observação: a distribuição dos lotes
A VIGA Construções venceu cinco dos treze lotes, correspondentes a aproximadamente 45% do valor total homologado. A publicação não informa quantas propostas foram apresentadas por lote nem se houve limite de lotes por licitante. Registre-se, com clareza: vencer múltiplos lotes de uma licitação não constitui, por si, qualquer irregularidade — a concentração é aqui apontada apenas como dado que a publicação oficial não permite contextualizar, pela ausência das informações sobre a disputa.
As explicações possíveis — que a reportagem apresenta antes de perguntar
Há hipóteses legítimas capazes de justificar, no todo ou em parte, a diferença de preços, e é dever desta reportagem enunciá-las. A principal: o Programa Cisternas federal contrata entidades privadas sem fins lucrativos e cooperativas, com construção de base comunitária, enquanto o certame do PSI, regido pelas regras de aquisições do organismo financiador na modalidade comparação de preços, selecionou construtoras privadas — estrutura de custos que inclui lucro, encargos e garantias contratuais. Também é possível que os lotes do PSI envolvam dispersão geográfica atípica, exigências adicionais de escopo ou condições de execução que elevem legitimamente o custo unitário. A reportagem não teve acesso, até a publicação desta matéria, ao edital da Comparação de Preços nº 4/2025 nem ao orçamento-base do certame; a íntegra foi solicitada à SEPLAN, conforme questionamentos abaixo.
É precisamente porque essas explicações existem — e porque os documentos que as confirmariam ou afastariam não constam da publicação oficial — que as perguntas abaixo são necessárias. A escolha entre um modelo que entrega a tecnologia por cerca de R$ 7 mil e outro que a entrega por cerca de R$ 14,7 mil é uma decisão administrativa de mérito, que envolve recursos públicos e de empréstimo internacional, e cuja motivação o cidadão tem o direito de conhecer.
O que a reportagem pergunta à SEPLAN
A reportagem encaminha os seguintes questionamentos e solicita resposta:
- Qual foi o orçamento-base da Comparação de Preços nº 4/2025 e quais referenciais de custo o fundamentaram?
- Quantas cisternas serão construídas em cada um dos 13 lotes, informação ausente do termo de homologação publicado?
- Quantas empresas apresentaram propostas em cada lote e houve limite de lotes por licitante?
- Como a SEPLAN explica a diferença entre o custo unitário médio homologado (R$ 14.728,56) e o valor de referência da Instrução Normativa SESAN nº 51/2024, aplicado em contratação estadual congênere a R$ 7.114,31 por unidade?
- Há exigências de escopo, dispersão geográfica ou condições de execução nos lotes do PSI que justifiquem custo unitário superior ao do modelo federal? Quais?
- Por que se optou pela contratação de construtoras privadas, e não pelo modelo de entidades executoras consolidado pelo Programa Cisternas — inclusive em execução paralela no próprio estado?
- O BID e o FIDA analisaram e aprovaram (emitiram não objeção a) o resultado do certame e seus preços?
- A reportagem solicita, ainda, a disponibilização da íntegra do edital da Comparação de Preços nº 4/2025 e de seus anexos.
O que a reportagem pergunta à SAF
A reportagem encaminha os seguintes questionamentos e solicita resposta:
- Qual é o valor unitário pactuado no convênio com o MDS para as cerca de 5 mil cisternas do Programa Cisternas conduzidas pela pasta?
- O anúncio de março de 2025 — cerca de 14 mil cisternas com investimento de cerca de R$ 100 milhões — permanece válido diante do custo unitário homologado no certame do PSI? Quantas cisternas o orçamento total do componente efetivamente entregará?
- Quais municípios e comunidades serão atendidos pelas 4.345 cisternas ora homologadas e qual o cronograma de entrega?
O que a reportagem pergunta aos órgãos de controle
A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) informar se têm conhecimento da homologação da Comparação de Preços nº 4/2025 do PSI/PI e da diferença entre o custo unitário homologado e o referencial federal da Instrução Normativa SESAN nº 51/2024 para a mesma tecnologia, e quais providências, se cabíveis, pretendem adotar. A redação está à disposição para publicar as respostas na íntegra.
Documentos consultados pela reportagem
Todos os documentos que fundamentam esta matéria são públicos e podem ser conferidos pelo leitor:
- Termo de Homologação e Adjudicação — Comparação de Preços nº 4/2025 (Processo SEI nº 00323.002753/2025-73): Diário Oficial do Estado do Piauí nº 125/2026, de 2 de julho de 2026, páginas 225 a 227, disponível no portal do Diário Oficial do Estado.
- Anúncio oficial do programa de cisternas do Governo do Piauí (27/03/2025): https://psi.seplan.pi.gov.br/governo-do-estado-vai-construir-14-mil-cisternas-para-familias-que-enfrentam-escassez-de-agua-no-piaui/
- Edital de Chamada Pública do Governo de Pernambuco (2025), com o valor unitário de R$ 7.114,31 para a cisterna de placas de 16 mil litros, conforme a Instrução Normativa SESAN nº 51/2024, publicado no portal do MDS: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/acesso-a-alimentos-e-a-agua/programa-cisternas/editais-de-chamada-publica/2025/Edital_PE_Retificao.pdf
- Marco legal do Programa Cisternas (MDS), com a relação das instruções normativas por tecnologia, incluindo a Instrução Normativa SESAN nº 51/2024 — Cisterna de Placas de 16 mil litros: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/outros/sesan/inclusao-produtiva-rural/acesso-a-agua-1/legislacao
Cópias integrais dos documentos foram arquivadas pela redação na data de publicação desta matéria.
A Rádio Calçada é um veículo independente, financiado exclusivamente pelos leitores, e não aceita publicidade do governo estadual. Apoie este trabalho: PIX 86.9.9991.9990.














