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outubro 10, 2026 11:29

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Trabulo Neto denuncia: 68% da conta de luz do piauiense não é energia

Do que o consumidor paga por quilowatt-hora no Piauí, R$ 0,647 é custo de rede e R$ 0,299 é a energia em si. Dentro da parcela de rede está, entre outros itens, a fatia do furto de energia que a própria ANEEL confirma ser repassada a quem paga em dia.

Por Trabulo Júnior

O piauiense que olha a conta de luz e pensa estar pagando pela energia que consumiu está pagando, na maior parte, por outra coisa.

Da tarifa residencial em vigor no Piauí, 68,4% correspondem à TUSD, a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição, e apenas 31,6% correspondem à TE, a Tarifa de Energia. A divisão está na Resolução Homologatória nº 3.555, de 25 de novembro de 2025, da ANEEL: R$ 647,22 por megawatt-hora de TUSD contra R$ 299,47 de TE.

Em uma conta de 150 quilowatts-hora por mês, isso significa R$ 97,08 de custo de rede e R$ 44,92 de energia, antes de qualquer imposto. Ao longo de um ano, são R$ 1.165,00 pagos só pela parcela de rede.

O que está dentro dos 68%

A TUSD não é lucro da distribuidora, e a matéria não afirma isso. Ela cobre o transporte da energia, a manutenção e expansão da rede, os encargos setoriais, a remuneração regulada da concessionária e as perdas de energia.

São as perdas que interessam aqui.

A ANEEL divide as perdas em duas. As técnicas são físicas e inevitáveis: energia que vira calor no fio, que se dissipa no transformador, que some na transformação de tensão. As não técnicas, ou comerciais, vêm principalmente de furto por ligação clandestina e desvio direto da rede, de fraude por adulteração de medidor, e de erros de leitura, medição e faturamento. São os chamados gatos.

Em 2025, as perdas totais do país representaram 14,3% de toda a energia injetada nas redes. Foram 7,2% de perdas técnicas e 7,1% de perdas não técnicas. Em 2024, o custo das perdas não técnicas no Brasil foi da ordem de R$ 10,3 bilhões, e o das técnicas, de R$ 11,2 bilhões.

A ANEEL responde: sim, você paga pelo gato

Na página institucional sobre perdas de energia, a própria agência reguladora formula e responde a pergunta.

“O consumidor regular paga a conta de quem frauda ou furta energia?” A resposta da ANEEL começa com um sim. O consumidor regular arca, na sua tarifa, pela fraude e pelo furto praticados por outros.

A agência acrescenta uma ressalva que precisa constar. O valor repassado à tarifa não é o total do que a empresa perde. É um valor regulatório, calculado por critérios de eficiência, e normalmente inferior ao que a concessionária de fato perde. A diferença fica com a empresa. É um mecanismo de incentivo: se a distribuidora reduz as perdas abaixo do limite, ganha; se não reduz, arca com o prejuízo.

Há outro ponto registrado pela própria ANEEL. A metodologia das perdas não técnicas não estabelece penalidade para a concessionária que não atinge os percentuais regulatórios. E a agência não determina quais ações a empresa deve adotar para combater o furto, por entender que é a distribuidora que detém as informações necessárias para escolher a estratégia.

Os limites de perdas não são revistos todo ano. São fixados na Revisão Tarifária Periódica, que ocorre a cada quatro ou cinco anos, e valem para todo o ciclo.

Como o Piauí se compara

Os 68,4% do Piauí ficam acima da mediana nacional, que é de 65,3% entre as 38 grandes distribuidoras do país. Mas é preciso dizer com clareza: o Piauí não é o extremo dessa lista. Ocupa a 13ª posição.

Acima dele estão distribuidoras de estados da Amazônia e do Nordeste, com estruturas de rede muito dispersas. No Amapá, a parcela de rede chega a 95% da tarifa. Em Rondônia, 92,3%. No Acre, 86,3%.

Na outra ponta, no Distrito Federal a parcela de rede é de 51,3% da tarifa, e em Santa Catarina, 54,5%.

O que diferencia o caso piauiense é a combinação. O Piauí tem a quinta tarifa residencial mais cara entre as 38 grandes distribuidoras, com R$ 0,9467 por quilowatt-hora sem tributos. Tem o sexto pior tempo de interrupção do país, com 17 horas e 25 minutos sem energia por consumidor em 2025. E tem 68,4% da tarifa concentrados na parcela de rede.

Paga-se caro, paga-se sobretudo pela rede, e a rede entrega mal.

A denúncia

O jornalista Trabulo Neto responsável pelo levantamento na base de tarifas da ANEEL, afirma que o consumidor piauiense não tem como saber quanto da sua conta corresponde à energia furtada por terceiros e à ineficiência da rede.

“O piauiense acha que está pagando pela luz que acendeu. Está pagando 68% por outra coisa. Parte disso é rede, parte é encargo, e parte é o gato do vizinho, e quem diz isso não sou eu, é a ANEEL no site dela. O que eu cobro é simples: que digam ao consumidor quanto exatamente da conta dele é isso. Quem paga tem direito de saber pelo que paga.”

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.

À Equatorial Piauí Distribuidora de Energia S.A., CNPJ 06.840.748/0001-89, sobre a composição da TUSD homologada em R$ 647,22 por megawatt-hora, sobre os percentuais de perdas técnicas e não técnicas apurados na área de concessão, sobre a comparação entre as perdas reais e os limites regulatórios fixados pela ANEEL, e sobre as ações de combate ao furto de energia executadas no estado.

À Agência Nacional de Energia Elétrica, sobre os limites regulatórios de perdas fixados para a Equatorial Piauí na última Revisão Tarifária Periódica, sobre a posição da distribuidora no comparativo nacional de perdas e sobre a data da próxima revisão.

As respostas serão publicadas na íntegra.

Contato: consultor@xconexoes.com.br

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