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agosto 25, 2026 06:48

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6.522 pessoas aguardam cirurgia eletiva no Piauí

Levantamento da Rádio Calçada nos registros do sistema estadual de regulação, feito nesta sexta-feira (14), mostra uma fila maior do que a informada pelo governo em setembro do ano passado e pedidos médicos parados há mais de três meses. O Ministério Público do Piauí já havia recomendado o saneamento do sistema em 2023.

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O tamanho real da fila

O sistema Regula Piauí, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi), concentra desde agosto de 2024 todos os agendamentos de consultas, exames e cirurgias eletivas da rede estadual, em Teresina e no interior.

Às 16h35 desta sexta-feira, 14 de agosto de 2026, os registros do sistema apontavam 6.522 pedidos de cirurgia eletiva em espera. Os dois últimos pedidos da fila haviam entrado no próprio dia 14 de agosto, às 16h33 e às 16h35.

Cirurgia eletiva é a cirurgia que pode ser marcada com antecedência, sem risco imediato de morte. Entram nessa conta procedimentos como correção de hérnia, retirada da vesícula, histerectomia e cirurgias de catarata.

Quanto tempo se espera de verdade

A fila é ordenada pela data em que o médico pediu o procedimento. Quem pediu primeiro fica nas primeiras posições.

Na posição 2.400 da fila está um pedido médico feito em 13 de maio de 2026. São 93 dias de espera contados até esta sexta-feira. Pelo critério de ordenação do próprio sistema, as 2.399 posições anteriores correspondem a pedidos de data igual ou anterior a essa.

A meta anunciada pelo Governo do Estado é de 60 dias de espera. Na posição 2.400, portanto, a espera já ultrapassa em 33 dias a meta do próprio governo. E há outras 2.399 pessoas à frente, esperando o mesmo tempo ou mais.

A recomendação do Ministério da Saúde é de até 120 dias para procedimentos eletivos.

Há ainda um segundo intervalo, que não aparece em nenhum indicador oficial: o tempo entre a consulta que indicou a cirurgia e o registro do paciente na fila. Nas dez posições examinadas em torno da 2.400, todas com pedido médico de 13 de maio de 2026, as datas de cadastro variavam de 1º de junho a 5 de agosto de 2026. O paciente que aparece na posição 2.398 teve o pedido médico feito em maio e só entrou no sistema em 5 de agosto, quase três meses depois.

O número que o governo divulga

O Governo do Estado comunica a fila pelo tempo médio de espera, e não pelo tamanho dela nem pela distribuição.

Segundo publicação do portal oficial pi.gov de setembro de 2025, o tempo médio de espera por cirurgia eletiva na rede estadual era de 59,6 dias, contra 464 dias em 2023. A mesma publicação atribui ao governador Rafael Fonteles a informação de que a fila havia caído de mais de 14 mil pacientes para pouco mais de 5 mil, em 23 hospitais estaduais que realizam cirurgias eletivas.

Em janeiro de 2026, conforme publicou o portal GP1, dados do Regula Piauí indicavam tempo médio de 52,4 dias.

Em agosto de 2026, conforme publicou o portal Cidades em Foco, o governador afirmou em plenária de programa de governo que a meta passa a ser reduzir a espera para menos de 20 dias, e citou mais de 130 mil procedimentos por mês no Piauí Saúde Digital e o lançamento do Regula Fácil.

O Regula Fácil entrou no ar em 6 de julho de 2026, com agendamento por WhatsApp e pelo aplicativo Gov.pi Cidadão, desenvolvido pela Sesapi em parceria com a Empresa de Tecnologia da Informação do Piauí (Etipi).

É avaliação desta redação que a média de dias é um indicador incompleto para medir a fila. A média junta, num único número, o paciente operado em uma semana e o paciente que espera há um ano, e o resultado esconde o segundo. O dado que falta ao debate público é a distribuição: quantas pessoas esperam mais de 60 dias, quantas esperam mais de 120 dias e qual é a especialidade mais represada. Esses números existem dentro do sistema estadual, mas não são publicados em nenhum relatório de acesso direto.

O que o Ministério Público já apontou

A crítica ao funcionamento da regulação estadual não é nova e não parte apenas da imprensa.

Em julho de 2023, a 12ª Promotoria de Justiça de Teresina expediu recomendação para que a Sesapi e a Unidade de Controle, Avaliação, Regulação e Auditoria (Ducara) adotassem providências de saneamento e aprimoramento do sistema estadual de regulação. O documento é assinado pelo promotor de Justiça Eny Marcos Vieira Pontes e foi divulgado pelo próprio Ministério Público do Estado do Piauí.

A recomendação foi construída a partir de inquéritos civis públicos que apuram irregularidades no funcionamento da regulação estadual. Entre os pontos citados estão o acompanhamento da fila única de cirurgias eletivas, a abertura dos sistemas de regulação estadual com todos os links necessários para que os demais entes do SUS e os órgãos de controle possam enxergar a fila, e a falta de medicamentos.

O promotor recomendou ainda que Estado e municípios executem a regulação, o controle, a avaliação e a auditoria dos serviços de saúde por meio de centrais de regulação preferencialmente descentralizadas, com um nível central de coordenação, e que a Secretaria Estadual de Saúde preste cooperação técnica aos municípios na qualificação dessas atividades.

Traduzindo: o Ministério Público pediu, há três anos, que a fila ficasse visível para quem fiscaliza e que a regulação não ficasse concentrada em um único balcão estadual.

Dados de saúde de pacientes ficam visíveis

Os registros da fila de cirurgia eletiva do sistema estadual associam, para cada paciente que aguarda, o número de um documento de 15 dígitos no formato do Cartão Nacional de Saúde, as iniciais do nome, a data de nascimento completa, a especialidade médica e a data da solicitação da cirurgia. Entre as especialidades da lista estão Oncologia, Nefrologia Renal Crônico, Infectologia e Neurocirurgia.

Esta redação não publica nenhum desses identificadores.

É avaliação desta redação que a combinação entre número de documento de saúde, data de nascimento e especialidade médica constitui tratamento de dado pessoal sensível. A Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018, classifica dado referente à saúde como dado pessoal sensível no artigo 5º, inciso II, e submete seu tratamento a hipóteses específicas no artigo 11. É avaliação desta redação que a transparência da fila, que é legítima e necessária, pode ser assegurada sem esses campos, bastando divulgar posição, data do pedido, especialidade e município.

O conflito com a regulação municipal de Teresina

Desde agosto de 2024, os hospitais da rede estadual em Teresina e no interior passaram a realizar consultas, exames e cirurgias eletivas exclusivamente pelo Sistema Regula Piauí, conforme divulgou o portal oficial pi.gov.

Teresina possui gestão plena do SUS municipal e opera seu próprio sistema de regulação, o Gestor Saúde, da Fundação Municipal de Saúde (FMS). Pelo fluxo oficial atual, o paciente de Teresina com encaminhamento emitido no Gestor Saúde precisa validar esse encaminhamento junto à Central de Marcação da Sesapi, pelo telefone (86) 2222-7150, para então entrar na fila estadual.

Esta redação apura a existência de divergência entre o Estado e o município sobre o aproveitamento das filas e dos agendamentos já existentes no sistema municipal no momento da migração. Os números que circularam sobre esse episódio ainda não foram confirmados em fonte primária e, por isso, não são publicados nesta matéria.

O que dizem os citados

A Rádio Calçada questiona a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí sobre os seguintes pontos:

  1. Qual é hoje a distribuição do tempo de espera na fila de cirurgia eletiva, e não apenas a média, com o número de pacientes acima de 60 dias e acima de 120 dias.
  2. Por que o número de pacientes na fila de cirurgia eletiva é hoje superior ao divulgado pelo governo em setembro de 2025.
  3. Qual é o fundamento legal para manter visíveis o número de documento de saúde e a data de nascimento dos pacientes que aguardam na fila.
  4. Quais providências foram adotadas em resposta à recomendação da 12ª Promotoria de Justiça de Teresina expedida em julho de 2023.
  5. Qual é o tratamento dado às solicitações médicas cujo cadastro no sistema ocorre semanas depois da consulta que indicou o procedimento.

A Rádio Calçada questiona também a Unidade de Controle, Avaliação, Regulação e Auditoria sobre o critério de ordenação e de priorização clínica da fila.

O espaço permanece aberto. As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes, assim que enviadas.

Controle

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre o andamento dos inquéritos civis públicos que embasaram a recomendação de julho de 2023 e sobre o cumprimento das providências recomendadas.

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí informação sobre a existência de auditoria operacional em curso no sistema estadual de regulação.

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí manifestação sobre a exibição de dados pessoais sensíveis nos registros da fila de cirurgia eletiva.

Serviço: como o leitor acompanha o próprio caso

Situação do agendamento ambulatorial: o Regula Piauí mantém uma área pública de acompanhamento de agendamentos, acessível pelo site do sistema. É necessário informar o número do protocolo e o CPF.

Central de Marcação da Sesapi: (86) 2222-7150, de segunda a sexta-feira, 24 horas.

Regula Fácil: WhatsApp (86) 99825-7855 ou aplicativo Gov.pi Cidadão.

Se você está há mais de 60 dias na fila de uma cirurgia eletiva, escreva para a Rádio Calçada. Estamos reunindo relatos para uma segunda reportagem sobre a espera real, caso a caso.

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