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agosto 26, 2026 16:50

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SÉRIE ESPECIAL ICMS PIAUÍ – PARTE 6 – A CONTA NA MESA

Imposto recorde, desemprego recorde: no primeiro ano da alíquota de 22,5%, o Piauí virou lanterna nacional do emprego

Enquanto vinte unidades da federação comemoravam as menores taxas de desemprego de suas séries históricas, o Piauí fechou 2025 com 9,3% de desocupação, 31% de subutilização e mais da metade dos trabalhadores na informalidade. O governo fala em 67 mil oportunidades geradas. A régua dos outros 26 estados conta outra história.

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

O ano de 2025 foi de festa no mercado de trabalho brasileiro. Vinte unidades da federação atingiram a menor taxa anual de desemprego de suas séries históricas, iniciadas em 2012. O Piauí não estava na lista. O Piauí estava na outra ponta.

É fato que o Piauí encerrou 2025 com a maior taxa anual de desocupação entre todos os estados: 9,3%, contra média nacional de 5,6%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. É fato que registrou também a maior subutilização da força de trabalho do país: 31%, quase um em cada três piauienses na força de trabalho desempregado, desalentado ou trabalhando menos do que precisa. É fato que a informalidade alcançou 52,7% dos ocupados no terceiro trimestre, terceira maior do país, e que o Piauí teve o segundo menor percentual de carteira assinada do Brasil no quarto trimestre, 54,3%, à frente apenas do Maranhão. É fato que 7,9% da força de trabalho estava em desalento no terceiro trimestre, segundo pior índice nacional: gente que desistiu de procurar emprego por não acreditar que vai encontrar.

E é fato que tudo isso ocorreu no primeiro ano completo de vigência da alíquota de 22,5%, a segunda maior do Brasil.

O mecanismo que liga o caixa do supermercado à fila do desemprego

O ICMS encarece o produto na ponta. Os R$ 7,08 a mais que o piauiense paga hoje a cada R$ 100 de mercadoria, em relação a 2022, são R$ 7,08 que não viram outra compra. Demanda menor significa menos vendas no comércio, justamente o setor que mais emprega nas cidades do Piauí. Margem comprimida significa menos contratação e mais informalidade, porque operar formalmente, pagando o imposto cheio, fica mais caro em relação a operar por fora. E por estar embutido no preço, o imposto é regressivo: pesa proporcionalmente mais sobre quem ganha menos, porque quem ganha menos consome tudo o que ganha.

O raciocínio não é exclusividade desta redação. Em Pernambuco, federações da indústria e do comércio reagiram por escrito ao aumento local, citando expressamente a posição do estado no ranking de desemprego como evidência do risco. No Ceará, o secretário da Fazenda transformou a comparação em vitrine: mantendo 20%, uma das menores alíquotas do Nordeste, sustentou crescimento de arrecadação em torno de 7% em 2025 e citou nominalmente o Piauí como contraexemplo.

O que diz o governo

Diante dos dados do IBGE, o governo afirmou que a recuperação é gradual, que o Estado parte de base histórica de alta informalidade, que o estoque de empregos formais cresce de forma consistente e que a meta de 80 mil novas oportunidades de trabalho está próxima, com cerca de 67 mil alcançadas no terceiro ano de gestão. Sustenta ainda que o PIB estadual cresceu 3,3% em 2024, acima dos vizinhos, impulsionado pela política de incentivos.

É avaliação desta redação que os dois conjuntos de números podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, e é exatamente isso que agrava o quadro: um estado pode gerar empregos formais em números absolutos e ainda assim liderar o desemprego nacional, porque a geração não acompanha o tamanho da população que precisa trabalhar. A régua relevante não é a propaganda, é a comparação com os outros 26 entes da federação. E nessa régua o Piauí de 2025 ocupa, ao mesmo tempo, o segundo lugar em alíquota e o primeiro em desemprego.

Ao fim desta série, uma síntese, e ela é avaliação desta redação. O piauiense fez a sua parte: pagou. Pagou R$ 129,03 por cada R$ 100 de mercadoria, pagou imposto sobre uma fatia maior da conta de luz, financiou uma arrecadação que cresce em dois dígitos e ainda banca, com cerca de R$ 200 milhões por ano, uma aposta fiscal que só devolve resultado ao longo de 49 anos, se devolver. O Estado, do seu lado, comprometeu 84 de cada 100 reais com a folha, contratou shows sem licitação, pagou obra não executada, abriu mão de R$ 166 milhões em favor de empresas escolhidas e manteve bloqueado o portal onde o cidadão conferiria tudo isso. Entre o caixa cheio do Tesouro e a mesa vazia do trabalhador, há uma distância que nenhuma sessão extraordinária de véspera de Natal votou para encurtar.

Contraditório

A Rádio Calçada encaminha à Secretaria da Fazenda e à Secretaria de Planejamento do Estado do Piauí as seguintes perguntas e solicita resposta:

  1. Existe estudo do governo sobre o impacto da alíquota de 22,5% no consumo das famílias, no faturamento do comércio e no emprego? Qual o resultado?
  2. Como o governo explica que o Piauí tenha registrado em 2025 a maior taxa de desemprego e a maior subutilização do país, no primeiro ano completo da nova alíquota, enquanto vinte unidades da federação batiam mínimas históricas?
  3. Qual a metodologia e a memória de cálculo das 67 mil oportunidades de trabalho que o governo afirma ter gerado, discriminando vínculos formais criados?
  4. O governo avalia medidas de desoneração do consumo ou de estímulo à formalização para 2026 e 2027? Quais?

Órgãos de controle

A Rádio Calçada solicita ao TCE-PI, ao MPC-PI e ao MP-PI manifestação sobre o acompanhamento dos efeitos econômicos e sociais da política tributária estadual, e se compromete a publicar as respostas na íntegra. A redação registra que o Portal da Transparência do Piauí segue bloqueando a extração de relatórios de despesa pelos cidadãos, obstruindo a fiscalização do destino dos recursos arrecadados, sem que nenhuma providência corretiva tenha sido adotada pelos órgãos de controle.

A Rádio Calçada é um veículo independente, financiado pelos leitores, que não aceita publicidade do governo do Estado. Apoie este jornalismo. PIX: 86.9.9991.9990

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