Anunciadas em março de 2023 como porta de entrada de investimento estrangeiro, as duas representações no exterior nunca divulgaram relatório de custos nem de resultados. A série faz a pergunta que qualquer contribuinte faria.
Trabulo Neto e Trabulo Júnior
De Teresina a Tallinn, capital da Estônia, são mais de 9 mil quilômetros. De Teresina a Lisboa, quase 6 mil. Nesses dois endereços distantes, o contribuinte piauiense mantém, desde 2023, representações oficiais do seu estado. Foi em 17 de março daquele ano, no Palácio de Karnak, que o governador anunciou os dois escritórios internacionais: um em Lisboa, operado pela Investe Piauí para atrair investimentos, e outro em Tallinn, voltado a empresas de tecnologia. Meses depois, o governo inaugurou na capital estoniana o Investe Piauí Estonian Trade Office, apresentado como o primeiro escritório físico de um estado brasileiro no país, junto com o lançamento de uma Câmara de Comércio Digital entre o Piauí e a União Europeia.
A justificativa oficial era clara e mensurável: internacionalizar a economia e atrair investimento estrangeiro. Justificativa mensurável merece medição. É o que esta matéria faz.
As duas colunas da conta
Coluna um, o custo. Escritório no exterior envolve aluguel ou cessão de espaço, pessoal, deslocamentos e representação. A Investe Piauí é uma sociedade anônima estatal, e sua execução financeira é menos visível ao cidadão do que a de uma secretaria comum, o que torna a transparência ativa ainda mais necessária.
Coluna dois, o resultado. A régua justa não é o número de memorandos assinados nem de reuniões realizadas. Memorando de entendimento não obriga ninguém a nada. A régua é: quantas empresas estrangeiras, atraídas comprovadamente pela atuação desses escritórios, possuem hoje CNPJ ativo, operação instalada e empregos formais gerados no Piauí?
O caso do hidrogênio verde, tratado na primeira matéria desta série, mostra por que a distinção importa. Cartas de intenção bilionárias foram assinadas em missões europeias desde 2023. Três anos depois, o que existe fisicamente é uma terraplenagem.
Na avaliação desta redação o que a transforma em problema é a ausência de prestação de contas com indicadores: sem meta pública, sem relatório anual, sem custo divulgado, o escritório vira um ativo de discurso, não de economia.
Contraditório
A Rádio Calçada pergunta à Investe Piauí: qual o custo total anual de cada escritório internacional desde 2023; quantos investimentos captados por intermédio deles resultaram em empresa operando no Piauí, com nome, CNPJ e número de empregos; e onde o cidadão pode consultar os relatórios de desempenho dessas unidades? O espaço permanece aberto e qualquer resposta será publicada na íntegra.
Aos órgãos de controle
A Rádio Calçada solicita ao TCE-PI que informe se as despesas da Investe Piauí S/A com representações no exterior são objeto de fiscalização específica e onde suas contas anuais podem ser consultadas pelo público.














