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julho 26, 2026 06:29

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R$ 750 mil por uma noite: governo do Piauí pagou pelo show de Xand Avião em Canto do Buriti mais do que Salvador pagou ao mesmo cantor na virada do ano

Contrato por inexigibilidade de licitação foi assinado no próprio dia do show, publicado no diário oficial só depois de o palco desmontado, e traz entre os signatários o nome civil do próprio artista. O dinheiro saiu da fonte que banca saúde, educação e segurança, em plena janela de vedações eleitorais.

Por Trabulo Neto  e Trabulo Júnior 

A Secretaria de Estado do Turismo do Piauí (SETUR) contratou por R$ 750.000,00 o show da banda Xand Avião para os Festejos de Sant’Ana 2026, em Canto do Buriti, realizado no dia 22 de julho de 2026. O extrato do Contrato nº 175/2026, firmado com a ALIC PARTICIPAÇÕES E ENTRETENIMENTO LTDA (CNPJ 28.791.264/0001-20) por meio da Inexigibilidade de Licitação nº 150/2026, está no Diário Oficial do Estado do Piauí, edição nº 140/2026, de 23 de julho de 2026, páginas 99 e 100, no Processo SEI nº 00153.000755/2026-16.

As datas contam a história sozinhas. O contrato foi assinado em 22 de julho, o mesmo dia do show. A edição do diário oficial que o tornou público foi disponibilizada em 23 de julho, com publicação datada de 24. Quando o Piauí soube que estava pagando R$ 750 mil por uma noite de forró, a noite já tinha acabado. A portaria que designou o fiscal do contrato, publicada na mesma edição, também só ganhou o mundo depois do evento que deveria fiscalizar.

O dinheiro saiu da fonte 500, os chamados recursos não vinculados de impostos, o caixa livre do tesouro estadual que disputa espaço com qualquer outra despesa do governo. A natureza da despesa registrada é a de serviços de terceiros, com nota de reserva 2026NR00412.

O preço acima de todos os parâmetros públicos

Cachê de artista não tem tabela oficial, mas tem mercado, e o mercado é público. A Prefeitura de Salvador, por meio da Saltur, pagou R$ 600 mil a Xand Avião pelo show da Virada Salvador 2026, um dos maiores festivais de fim de ano do país, contratado pela mesma Alic Participações e Entretenimento, empresa que detém a exclusividade do artista, conforme os contratos publicados no diário oficial do município baiano. A Prefeitura de Tauá, no Ceará, ao justificar contratação semelhante, apresentou pesquisa de preços situando o cachê do cantor entre R$ 600 mil e R$ 700 mil. Em anos anteriores, prefeituras da Paraíba pagaram entre R$ 400 mil e R$ 450 mil, valores que motivaram recomendações e representações do Ministério Público local.

O governo do Piauí pagou R$ 750 mil. É mais do que a capital da Bahia pagou ao mesmo artista, contratado pela mesma empresa, para o réveillon de uma cidade de quase três milhões de habitantes. Canto do Buriti é um município do semiárido piauiense com cerca de 20 mil moradores.

Um detalhe do extrato merece registro: assinam pela contratada Carlos Aristides Almeida Pereira e José Alexandre da Silva Filho. José Alexandre da Silva Filho é o nome civil de Xand Avião. O próprio cantor, portanto, figura como signatário do contrato com o Estado.

O calendário eleitoral ao fundo

O show aconteceu em plena janela de vedações da legislação eleitoral, vigente desde o início de julho de 2026. A Lei nº 9.504/1997 proíbe, nos três meses que antecedem o pleito, condutas como a contratação de shows artísticos pagos com recursos públicos na realização de inaugurações, e restringe severamente o uso da máquina em benefício de candidaturas. O caso concreto, um festejo de padroeira, precisa ser examinado pelos órgãos competentes à luz dessas regras.

É avaliação desta redação que, independentemente do enquadramento eleitoral estrito, a sequência verificada, contrato assinado no dia do evento, valor acima dos parâmetros públicos conhecidos, fiscal designado depois do show e publicidade apenas posterior à execução, esvazia por completo a função da divulgação prevista no artigo 72, parágrafo único, da Lei nº 14.133/2021, que condiciona a eficácia da contratação direta à sua publicação. É avaliação desta redação, ainda, que o episódio se soma ao padrão de contratações de shows por inexigibilidade que esta redação vem documentando em série própria, cujo acumulado já ultrapassa a casa das centenas de milhões de reais em recursos estaduais.

Registre-se, por fim, que a mesma edição do diário oficial publica portaria da SETUR designando seus agentes de contratação com efeitos retroativos a 1º de abril de 2026, o que indica que os certames e contratações diretas da pasta tramitaram por quase quatro meses sob agentes sem designação formal vigente.

O que esta redação solicita aos órgãos de controle

O Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) que examine a compatibilidade do cachê de R$ 750 mil com os parâmetros de mercado publicamente disponíveis, a regularidade da pesquisa de preços da Inexigibilidade nº 150/2026 e a validade dos atos praticados sob designação retroativa de agentes de contratação.

O Rádio Calçada solicita ao Ministério Público Eleitoral que avalie o evento sob as vedações da Lei nº 9.504/1997.

O Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que aprecie a prioridade do gasto frente às carências de serviços essenciais no próprio município de Canto do Buriti.

Contraditório

O espaço está aberto. A SETUR e o secretário Daniel Carvalho Oliveira Valente podem apresentar a pesquisa de preços que fundamentou o valor, as razões da assinatura no dia do evento e da publicação posterior a ele. A Alic Participações e Entretenimento Ltda e o artista Xand Avião podem se manifestar sobre o cachê contratado. Esta redação publica na íntegra as manifestações que receber.

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