O estado tem 547 mil famílias no Bolsa Família e 383 mil empregos com carteira assinada. A comparação virou manchete, mas está mal feita. O problema real, medido pelo IBGE, é mais grave do que a versão que viralizou
Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)
O que este texto vai explicar
Circulou no Piauí, em abril deste ano, uma manchete que muita gente compartilhou: o estado teria “163 mil beneficiários do Bolsa Família a mais do que trabalhadores formais”. O número saiu de uma conta simples, feita com dados oficiais, e a conclusão parecia óbvia. Mais gente vivendo de benefício do que gente trabalhando de carteira assinada.
A Rádio Calçada refez a conta.
Os dados que sustentam a manchete existem e são verdadeiros. A conta, porém, soma laranja com maçã. E a correção do erro não melhora o retrato do Piauí. Piora.
Este texto explica, em linguagem direta, três coisas: quais são os números reais, por que a comparação que viralizou não se sustenta, e qual é o número que deveria estar na manchete.
Parte 1: os dois números, sem truque
Quantas famílias recebem Bolsa Família no Piauí
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social publica o dado todo mês, município por município.
Em fevereiro de 2026, 546.474 famílias piauienses receberam o benefício, nos 224 municípios do estado. O repasse federal no mês passou de R$ 369,3 milhões, com benefício médio de R$ 675,83.
Em abril de 2026, o número foi de 547.537 famílias, com R$ 368,6 milhões repassados e média de R$ 673,63.
O patamar é estável. O Piauí gira em torno de 545 mil a 550 mil famílias atendidas por mês. Projetado para doze meses, o programa injeta algo próximo de R$ 4,4 bilhões por ano na economia piauiense, dinheiro que vem inteiramente do orçamento federal.
Dentro desse total, 204,4 mil crianças de zero a seis anos recebiam o Benefício Primeira Infância em abril, um adicional de R$ 150 por criança, que sozinho representa R$ 29,3 milhões mensais.
Quantos piauienses têm carteira assinada
O outro dado vem do Novo Caged, o cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego que registra admissões e demissões com carteira assinada.
Em novembro de 2025, o estoque de vínculos formais no Piauí era de 385.135. No fim de 2022, esse número era de 328.489. O levantamento que gerou a manchete de abril usou 383.137 vínculos, referentes a fevereiro de 2026.
Subtraindo um número do outro: 546.474 menos 383.137 dá 163.337. É daí que sai o “163 mil”.
Parte 2: por que essa conta não fecha
Aqui está o problema, e ele é simples de entender.
Uma conta conta famílias. A outra conta pessoas.
O Bolsa Família não paga por pessoa. Paga por família. Quando o ministério diz “546 mil beneficiários”, ele está falando de 546 mil núcleos familiares, cada um com um responsável cadastrado, e dentro de cada um deles há pai, mãe, filhos, avós, netos.
O Caged faz o contrário. Ele conta vínculos individuais de trabalho. Cada carteira assinada é uma pessoa.
Comparar os dois é como comparar o número de casas de um bairro com o número de moradores de outro e concluir qual é maior. Não dá.
Se a conta fosse feita em pessoas dos dois lados, o total coberto pelo Bolsa Família no Piauí seria bem superior a 1 milhão de indivíduos, num estado que tem cerca de 3,27 milhões de habitantes segundo o Censo de 2022.
O Caged não enxerga o servidor público
Esse é o segundo furo, e no Piauí ele é decisivo.
O Novo Caged registra apenas vínculos regidos pela CLT. Ele não conta servidor público estatutário, não conta militar, não conta MEI, não conta trabalhador por conta própria, não conta o trabalhador rural sem registro.
E o setor público responde por 19,4% de todas as ocupações do Piauí, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, no primeiro trimestre de 2026. Praticamente um em cada cinco piauienses que trabalha está numa folha de pagamento pública que o Caged sequer registra.
Quem publica “383 mil empregos” está publicando o tamanho de uma parte do mercado de trabalho, não o mercado de trabalho.
Como a conta deveria ser feita
Existem duas formas honestas de fazer a comparação.
A primeira é comparar família com família: quantos domicílios existem no Piauí, dado do Censo do IBGE, contra as 547 mil famílias no Bolsa Família.
A segunda é comparar pessoa com pessoa, usando a população ocupada da PNAD Contínua, que inclui formal, informal, servidor e autônomo.
É avaliação desta redação que a formulação defensável da manchete é esta: cerca de metade dos domicílios piauienses depende de uma transferência de renda federal para fechar o mês.
Parte 3: o número que deveria estar na manchete
Corrigido o método, o retrato não fica mais confortável. Fica pior, porque os indicadores estruturais do IBGE não dependem de nenhuma conta caseira.
O Piauí é o penúltimo estado do Brasil em carteira assinada. No primeiro trimestre de 2026, apenas 53,7% dos empregados do setor privado piauiense tinham carteira assinada. Só o Maranhão estava abaixo, com 53,4%. Em Santa Catarina, o índice é de 86,7%. Ou seja: quase metade de quem trabalha para um patrão privado no Piauí trabalha sem registro.
O Piauí tem a maior subutilização do país. Em 2025, a taxa foi de 31,0%, contra média nacional de 14,5%. Subutilização é o indicador que soma o desempregado, quem trabalha menos horas do que gostaria e quem parou de procurar por descrença. Quase um terço da força de trabalho piauiense está nessa situação.
O Piauí é o terceiro estado em desalento. A taxa foi de 7,8% em 2025. Desalento é o nome técnico para quem desistiu de procurar emprego.
O trabalho por conta própria sem CNPJ virou a maior categoria do estado. Cerca de 305 mil piauienses estavam nessa condição no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 22,8% de todos os ocupados, acima da média nacional de 18,3%. São pedreiros, eletricistas, manicures, motoristas de aplicativo, entregadores, pequenos prestadores de serviço. Gente que trabalha, às vezes muito, e não tem férias, décimo terceiro, FGTS nem aposentadoria garantida.
O desemprego subiu. Chegou a 8,9% no primeiro trimestre de 2026, alta de 0,9 ponto percentual em relação ao fim de 2025. No mesmo período, a média brasileira era de 6,1%.
A informalidade fica acima da metade. No terceiro trimestre de 2025, a taxa de informalidade da população ocupada do Piauí foi de 52,7%, uma das três maiores do país.
Parte 4: Teresina e o resto do Piauí
Este é o dado que quase ninguém publicou, e é onde a história de fato mora.
Teresina concentra sozinha um estoque de 234,7 mil empregos formais, segundo o balanço do Caged de 2025. É mais de 60% de todo o emprego com carteira assinada do estado, numa cidade que tem por volta de um quarto da população piauiense.
Do outro lado, a distribuição do Bolsa Família em fevereiro era esta: Teresina com 83,3 mil famílias, Parnaíba com 18.610, Barras com 12.623, Picos com 11.319 e Piripiri com 10.200.
Junte as duas pontas e o desenho aparece. A economia formal do Piauí é, em larga medida, a economia formal de Teresina. Nos outros 223 municípios, o emprego com carteira assinada é exceção, e o Bolsa Família é a principal renda regular que chega todo mês.
Os municípios com maior benefício médio confirmam o mapa da pobreza. Em fevereiro, os cinco primeiros foram Monte Alegre do Piauí, com R$ 739,35, Porto, com R$ 729,72, Sebastião Barros, com R$ 718,86, Santo Antônio dos Milagres, com R$ 715,70, e Curralinhos, com R$ 714,77. Benefício médio alto significa família grande e renda baixa. É onde o programa carrega mais peso.
Parte 5: o que o governo do estado responde a esse tipo de dado
O governo estadual costuma apresentar outro conjunto de números, e eles também são verdadeiros.
O Piauí fechou 2025 com saldo de 21.022 novos empregos com carteira assinada, resultado de 167.430 admissões e 146.408 desligamentos. A taxa de crescimento do emprego formal foi de 5,81%, a terceira maior do Brasil no ano, atrás apenas de Amapá e Paraíba. Em maio de 2026, o estado teve saldo positivo de 1.999 vagas, com os cinco grandes setores no azul.
É avaliação desta redação que o crescimento é real e o percentual é enganoso quando apresentado sozinho. Uma alta de 5,81% incide sobre uma base pequena. Vinte e um mil vagas criadas em um ano convivem com 547 mil famílias dependentes de transferência federal, 305 mil autônomos sem CNPJ e a maior taxa de subutilização do país. O percentual sobe, o retrato estrutural não se move.
Parte 6: e ainda tem fila
Enquanto se discute quem recebe demais, há quem não esteja recebendo.
Levantamento da Confederação Nacional de Municípios, elaborado com dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, aponta que 65.941 piauienses aptos ao Bolsa Família ainda não haviam sido incorporados à folha de pagamento em fevereiro de 2026. Isso corresponde a cerca de 41 mil famílias em situação de vulnerabilidade aguardando a entrada no programa.
Para efeito de comparação, essas 41 mil famílias na fila são o dobro do total de empregos formais criados no estado ao longo de todo o ano de 2025.
Parte 7: por que isso importa para quem lê
Um estado onde metade dos domicílios depende de transferência federal e onde quase metade do emprego privado não tem registro é um estado com três fragilidades concretas.
A primeira é que a principal renda de boa parte do território não é gerada no Piauí nem decidida no Piauí. Ela depende de decisão orçamentária federal. Qualquer mudança de regra, teto de gasto ou revisão cadastral em Brasília chega ao mês seguinte na mesa de 547 mil famílias piauienses.
A segunda é previdenciária. Trabalho sem carteira não gera contribuição. Os 305 mil autônomos sem CNPJ de hoje são o passivo de aposentadoria e de benefício assistencial de daqui a vinte anos.
A terceira é fiscal. Trabalho informal não gera folha, e folha é base de arrecadação. Um estado com informalidade acima de 50% arrecada menos por trabalhador e depende mais de tributo sobre consumo, que pesa proporcionalmente mais sobre quem ganha pouco.
Como esta reportagem foi feita
Todos os dados usados são públicos e podem ser conferidos por qualquer leitor.
Os números do Bolsa Família vêm dos informes mensais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, edições de janeiro, fevereiro, março e abril de 2026, que trazem abertura por município.
Os números de emprego formal vêm do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, nas divulgações do balanço de 2025, de novembro de 2025 e de maio de 2026.
Os indicadores de informalidade, subutilização, desalento, desemprego e composição da ocupação vêm da PNAD Contínua do IBGE, nas divulgações trimestrais do primeiro trimestre de 2026 e do terceiro trimestre de 2025, e na retrospectiva anual de 2025.
O dado sobre a fila vem de estudo da Confederação Nacional de Municípios com base em registros do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, referente a fevereiro de 2026.
A comparação original entre beneficiários e trabalhadores formais foi publicada em 6 de abril de 2026 e replicada por veículos piauienses. Esta reportagem não a desmente quanto aos dados. Aponta o erro de unidade de medida na comparação.
Contraditório
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe qual é a meta oficial de redução da informalidade no estado, qual o prazo previsto e quais programas estaduais estão em execução com esse objetivo específico.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe quantos trabalhadores foram formalizados por meio de programas estaduais nos exercícios de 2023, 2024 e 2025, e qual o custo por trabalhador formalizado.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Direitos Humanos para que informe quais ações estaduais estão em curso para reduzir a fila de 41 mil famílias piauienses aptas e não incorporadas ao Bolsa Família.
As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.
Fiscalização
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se há auditoria operacional em curso ou concluída sobre a efetividade dos programas estaduais de geração de emprego e de qualificação profissional, e se a relação entre renúncia fiscal concedida pelo estado e postos de trabalho formais gerados foi objeto de exame.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí que se manifeste sobre a necessidade de aferição de resultado nos convênios e incentivos concedidos sob a justificativa de geração de emprego.














