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agosto 25, 2026 06:53

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O hospital de Picos custa R$ 360 milhões, o de Parnaíba R$ 513 milhões: quanto o Piauí paga por cada hospital entregue a organizações particulares

Seis entidades privadas administram R$ 2,09 bilhões da saúde pública do Estado; o custo do hospital de Picos quase quintuplicou em um ano e duas unidades estão trocando de administradora agora, em 2026

Por Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

O governo do Estado do Piauí não administra diretamente boa parte dos seus maiores hospitais. Ele contrata entidades privadas sem fins lucrativos para fazer isso. Elas contratam os médicos, compram os insumos e tocam o dia a dia da unidade. O Estado paga. Esse acordo se chama contrato de gestão, e as entidades são chamadas de organizações sociais de saúde, ou OSS.

Entre 1º de janeiro de 2023 e 27 de julho de 2026, o Estado reservou R$ 2.093.842.487,59 para seis dessas organizações, e já pagou R$ 2.065.646.498,52.

Este levantamento da Rádio Calçada mostra, pela primeira vez, quanto custa cada hospital dentro desse total.

Unidade Quem administra Período Reservado (R$)
Hospital Estadual Dirceu Arcoverde, Parnaíba ISAC, e Caminho de Damasco em 2026 2023 a 2026 513.430.800,00
Hospital Regional de Picos e Centro Integrado de Referência Médica Caminho de Damasco 2024 a 2026 360.603.253,47
Maternidade Dona Evangelina Rosa, Teresina Reabilitar 2023 a 2026 330.073.794,79
Hospital Regional Tibério Nunes, Floriano Nova Esperança 2025 a 2026 224.021.682,26
Hospital Regional de Campo Maior Chavantes, e Caminho de Damasco em 2026 2023 a 2026 149.532.865,12
Hospital Regional Chagas Rodrigues, Piripiri ISAC 2025 a 2026 107.173.900,00
Hospital Regional Manoel de Sousa Santos, Bom Jesus Cesário Lange 2025 a 2026 63.726.520,00
Hospital Regional Senador Cândido Ferraz Caminho de Damasco 2025 a 2026 54.590.757,18
Hospital Regional Eustáquio Portela Caminho de Damasco 2025 a 2026 32.382.207,08
Centros Especializados de Reabilitação Caminho de Damasco e ISAC 2024 a 2026 20.360.290,00
Hospital João Pacheco Cavalcante Nova Esperança 2026 13.064.635,49
Centro Integrado de Reabilitação, CEIR Reabilitar 2026 6.941.289,00
Centro Especializado em Transtorno do Espectro Autista Caminho de Damasco 2025 a 2026 5.988.323,00

Outras 374 notas de empenho, somando R$ 211.952.207,94, não identificam a unidade atendida. Nota de empenho é o documento em que o Estado reserva o dinheiro do orçamento para pagar alguém.

Os números resultam de análise da Rádio Calçada sobre as 600.384 notas de empenho publicadas pelo Portal da Transparência do Piauí no período. Todos os valores citados são registros do próprio Portal.

Dois hospitais estão trocando de administradora agora

Em Campo Maior, a Santa Casa de Misericórdia de Chavantes administra o hospital regional desde 2023. Recebeu R$ 22,3 milhões em 2023, R$ 44,1 milhões em 2024 e R$ 51,1 milhões em 2025. Em 2026, até 27 de julho, recebeu R$ 13,2 milhões.

No mesmo ano de 2026 aparece, no mesmo hospital, a Sociedade Brasileira Caminho de Damasco, com R$ 17,9 milhões, valor já superior ao da atual administradora. A Associação Reabilitar também aparece na unidade em 2026, com R$ 845 mil.

Em Parnaíba, o Instituto Saúde e Cidadania administra o Hospital Estadual Dirceu Arcoverde desde 2023 e soma R$ 504,7 milhões. Em 2026, a Caminho de Damasco aparece na mesma unidade com R$ 8,7 milhões.

O Portal não explica se houve troca de contrato, divisão de serviços ou transição de gestão. A Rádio Calçada pergunta ao Estado o que mudou nessas duas unidades.

O custo de Picos quase quintuplicou em um ano

O Hospital Regional de Picos e o Centro Integrado de Referência Médica da cidade receberam R$ 37,6 milhões em 2024, R$ 177,1 milhões em 2025 e R$ 145,9 milhões em 2026 até 27 de julho.

De 2024 para 2025, o valor multiplicou por 4,7.

Em Floriano, o Hospital Regional Tibério Nunes não aparece na base em 2023 nem em 2024. Estreia em 2025 já com R$ 120,0 milhões, e soma R$ 104,1 milhões em 2026 até julho.

Já a Maternidade Dona Evangelina Rosa, em Teresina, tem a curva mais estável do conjunto: R$ 26,6 milhões em 2023, R$ 107,7 milhões em 2024, R$ 122,6 milhões em 2025 e R$ 73,2 milhões em 2026 até julho.

O gasto total cresceu seis vezes em três anos

Somando todas as organizações, o Estado reservou R$ 128.621.678,51 em 2023, R$ 389.793.900,00 em 2024, R$ 842.191.600,00 em 2025 e R$ 733.235.300,00 em 2026 até 27 de julho.

De 2023 para 2025, o valor anual multiplicou por 6,5. O ritmo de 2026 é ainda maior: R$ 3,5 milhões por dia de calendário, contra R$ 2,3 milhões por dia em 2025.

Quase todo esse dinheiro é do próprio Estado. R$ 2.006.850.000,00, ou 96% do total, saem da fonte chamada Recursos não Vinculados de Impostos, que é a arrecadação livre do governo estadual. O repasse federal do SUS responde por parcela pequena.

As seis organizações

Organização Notas Reservado (R$) Fatia
Instituto Saúde e Cidadania, ISAC 274 651.210.517,74 31,10%
Sociedade Brasileira Caminho de Damasco 302 567.927.699,97 27,12%
Associação Reabilitar 162 384.831.924,90 18,38%
Associação Filantrópica Nova Esperança 123 278.180.154,96 13,29%
Santa Casa de Misericórdia de Chavantes 81 131.939.356,45 6,30%
Beneficência Hospitalar de Cesário Lange 80 79.752.833,57 3,81%

As duas últimas são entidades sediadas no interior do estado de São Paulo.

A Nova Esperança e a Cesário Lange não aparecem na base em 2023 nem em 2024. As duas entram em 2025. A Nova Esperança chegou à quarta posição em menos de dois anos.

A Caminho de Damasco tem a curva mais acentuada: R$ 7,5 milhões em 2023 e R$ 287,5 milhões em 2026, com o exercício pela metade. Crescimento de 38 vezes.

Um mesmo grupo aparece sob dezesseis inscrições

Se você procurar no Portal da Transparência pelo nome da maior organização, não vai encontrar o valor real dela.

A Sociedade Brasileira Caminho de Damasco aparece sob oito grafias diferentes de nome e dezesseis inscrições de CNPJ, todas da mesma entidade. Há variações que diferem só por um hífen, por um espaço ou por estarem escritas em letras minúsculas. A maior linha isolada mostra R$ 209,5 milhões. O valor completo do grupo, R$ 567.927.699,97, não aparece em lugar nenhum.

O mesmo acontece com o ISAC, sob três grafias e sete inscrições, e com a Reabilitar, sob duas grafias.

Os oito primeiros dígitos do CNPJ identificam a entidade. Os seguintes identificam a filial. Agrupando por esses oito dígitos, cada organização aparece com o valor cheio, que é o critério usado nesta reportagem.

Esta reportagem não afirma que ter várias inscrições ou várias grafias seja irregular. Filial com CNPJ próprio é comum em entidade que administra unidades em cidades diferentes, e a variação de grafia pode ser erro de digitação no cadastro. O registro é feito porque essa dispersão impede o cidadão de saber quanto cada organização recebeu.

Nenhuma passou por licitação

Licitação é a disputa em que interessados apresentam propostas e a melhor vence. Nestes contratos, essa disputa não aconteceu.

R$ 1.634.138.000,00, ou 78% do total, estão registrados como licitação inexigível, que é a hipótese prevista em lei para quando a competição é considerada inviável. Outros R$ 388.286.300,00 aparecem com a marcação “não aplicável”, sem modalidade informada. E R$ 71.418.160,00 aparecem sob Regime Diferenciado de Contratações Públicas, um regime criado para obras e engenharia.

Essas 116 notas em Regime Diferenciado descrevem o mesmo objeto das demais, repasse para gerenciar unidade de saúde, e envolvem o ISAC e a Caminho de Damasco.

Como esta reportagem foi feita e o que ela não afirma

A Rádio Calçada analisou as 600.384 notas de empenho do governo do Estado do Piauí publicadas no Portal da Transparência entre 1º de janeiro de 2023 e 27 de julho de 2026 e selecionou as 1.022 classificadas no elemento de despesa Contrato de Gestão.

A atribuição de cada nota a uma unidade de saúde foi feita pela leitura do campo de observação do próprio empenho. Esse método cobre 89,9% do valor. As demais 374 notas, que somam R$ 211.952.207,94, não identificam a unidade e não foram atribuídas a nenhuma. Os valores por hospital, portanto, são piso, e não total.

O agrupamento das organizações foi feito pelos oito primeiros dígitos do CNPJ, que reúnem matriz e filiais de uma mesma entidade.

Os valores são os saldos informados pelo Portal, que apresenta divergência entre suas colunas de pagamento e não permite identificar empenhos cancelados. Por isso a reportagem trabalha com o valor reservado, que é o empenhado.

A contratação de organização social por inexigibilidade é prevista em lei. Esta reportagem não afirma que qualquer das contratações seja irregular. Não avalia o fundamento jurídico invocado em cada caso, por não ter tido acesso aos processos. Não avalia a qualidade do atendimento, o número de leitos, de cirurgias ou de partos realizados, o cumprimento das metas pactuadas ou a prestação de contas de qualquer organização, por não haver na base consultada informação sobre execução. Não afirma que tenha havido substituição de administradora em Campo Maior ou em Parnaíba, apenas registra que mais de uma organização recebeu empenhos para a mesma unidade em 2026. Não atribui conduta a qualquer pessoa física.

A planilha com as 1.022 notas, o agrupamento por hospital, todas as grafias e inscrições encontradas, número de contrato, processo, fonte e observação integral está disponível para consulta pública e pode ser solicitada à redação.

O que dizem os citados

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado da Saúde e o Fundo de Saúde do Estado do Piauí para que informem, em relação a cada unidade citada nesta reportagem, o número de leitos em operação, o número de atendimentos, internações, cirurgias e partos realizados por ano, e as metas pactuadas em cada contrato de gestão com os resultados apurados.

A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado da Saúde para que informe o que mudou na administração do Hospital Regional de Campo Maior e do Hospital Estadual Dirceu Arcoverde em 2026, a razão do aumento do custo do Hospital Regional de Picos de R$ 37,6 milhões em 2024 para R$ 177,1 milhões em 2025, os critérios que levaram à contratação da Associação Filantrópica Nova Esperança e da Beneficência Hospitalar de Cesário Lange a partir de 2025, o fundamento jurídico da inexigibilidade em cada contrato, os editais de chamamento público que precederam cada escolha e a razão do registro de 116 notas sob Regime Diferenciado de Contratações Públicas para o mesmo objeto das demais.

A Rádio Calçada procura a Controladoria-Geral do Estado para que informe se há acompanhamento sistemático da execução dos contratos de gestão.

A Rádio Calçada procura o Instituto Saúde e Cidadania, a Sociedade Brasileira Caminho de Damasco, a Associação Reabilitar, a Associação Filantrópica Nova Esperança, a Santa Casa de Misericórdia de Chavantes e a Beneficência Hospitalar de Cesário Lange para que se manifestem sobre os dados publicados. O espaço permanece aberto e as manifestações serão publicadas na íntegra, sem cortes, assim que enviadas.

Controle

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí o exame do crescimento do gasto com contratos de gestão de R$ 128.621.678,51 em 2023 para R$ 842.191.600,00 em 2025, do aumento do custo do Hospital Regional de Picos de R$ 37,6 milhões para R$ 177,1 milhões em um ano, da sobreposição de organizações recebendo empenhos para a mesma unidade em Campo Maior e em Parnaíba no exercício de 2026, dos fundamentos de inexigibilidade e critérios de seleção das seis organizações, e da dispersão de um mesmo grupo por dezesseis inscrições e oito grafias no Portal da Transparência, que impede o cidadão de identificar quanto cada organização recebeu.

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