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agosto 26, 2026 18:11

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Estado do Piauí aplicou R$ 17.772 de dinheiro próprio em transplante em quatro anos

A Secretaria da Saúde empenhou R$ 1,98 milhão na área desde 2023, e quase tudo veio do SUS federal. Das 81 notas, 59 são diária de viagem. Há quase mil pessoas na fila esperando um órgão no estado

Por Trabulo Neto

A Secretaria de Estado da Saúde do Piauí empenhou R$ 1.984.869,12 em transplante, em 81 notas, entre 13 de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026.

Desse total, apenas R$ 17.772,30 vieram de recursos livres do Tesouro estadual, distribuídos em 46 notas. Recurso livre é o dinheiro que o Estado arrecada e decide sozinho onde aplicar.

Todo o resto veio de fora: R$ 1.443.200,34 do SUS federal, por transferência fundo a fundo, mais R$ 429.408,00 de outros recursos vinculados à saúde e R$ 94.808,48 de outro bloco federal.

Para comparação no mesmo período e na mesma base, o governo empenhou R$ 417.032.529,88 em comunicação social, integralmente com recursos livres do Tesouro. A publicidade gasta os R$ 17.772,30 em 81 minutos.

Nota importante de método

Numa primeira busca, os empenhos que mencionam transplante somam R$ 3.486.828,76. Mas R$ 1.363.275,58 desse valor, ou 39,1%, estão classificados na subfunção Comunicação Social. É campanha publicitária sobre transplante, não é transplante.

Esta reportagem retira esse valor e trabalha apenas com o que a Secretaria da Saúde empenhou na área finalística.

O que o Estado comprou

As 81 notas, abertas por natureza de despesa:

Elemento Notas Valor
Material de consumo 10 R$ 1.541.937,61
Despesas de exercícios anteriores 6 R$ 399.341,81
Sentença judicial 1 R$ 138.364,06
Equipamento 1 R$ 20.735,60
Diárias de viagem 59 R$ 19.920,00
Outros serviços 4 R$ 3.094,10

Das 81 notas, 59 são diária de viagem de servidor, somando menos de vinte mil reais. Restam 22 notas para tudo o mais.

E quase todo o material de consumo é um item só: solução de perfusão para conservar múltiplos órgãos até o transplante. Uma única fornecedora, a Contatti Comércio e Representações, recebeu R$ 1.165.679,22 em dez notas, todas por inexigibilidade de licitação.

Do total, 83,1% saiu por inexigibilidade, R$ 176.484,00 por pregão e R$ 163.431,96 por dispensa.

O ano a ano

Ano Notas Empenhado
2023 5 R$ 3.445,40
2024 11 R$ 337.319,40
2025 15 R$ 1.489.620,38
2026 (até 25/08) 53 R$ 293.168,00

Em 2023, primeiro ano da gestão, o Estado empenhou R$ 3.445,40 em transplante. No ano inteiro.

O salto de 2025 é real e deve ser registrado. Mas 2026, com metade do ano corrido, voltou a R$ 293.168,00.

A fila

Dados da Central Estadual de Transplantes do Piauí e de reportagens que a citam.

  • Em 2025: 919 pessoas na fila, sendo 508 esperando rim e 411 esperando córnea.
  • Em maio de 2026: 578 pessoas na fila do rim e cerca de 400 na de córnea.
  • Entre janeiro e abril de 2026: 18 transplantes renais, número classificado pela própria Central como abaixo das expectativas.
  • A Central declarou que a meta é descentralizar a estrutura de captação, hoje concentrada em Teresina.

Divisão simples: os R$ 1,98 milhão dão R$ 2.160 por pessoa na fila, em quatro anos.

O outro lado, e ele é forte

Por dever de precisão, e no alto da reportagem.

  • Os transplantes de rim no Piauí quase dobraram, de 40 em 2024 para 74 em 2025.
  • As córneas subiram de 265 para 287 procedimentos.
  • As doações de múltiplos órgãos passaram de 39 para 54.
  • O estado está entre os sete primeiros do país em transplante de córnea por milhão de habitantes.
  • A Secretaria da Saúde classificou 2025 como o melhor ano da série histórica.

É fato que o desempenho melhorou. É fato também que ele melhorou com R$ 1,98 milhão de orçamento estadual em quatro anos, dos quais R$ 17.772,30 eram dinheiro próprio do Piauí.

É avaliação desta redação que o avanço registrado decorre do trabalho das equipes de saúde, da conscientização das famílias doadoras e do financiamento federal, e não do investimento estadual, e que a fila de quase mil pessoas permanece o indicador mais relevante do problema.

As perguntas

  1. Qual é o orçamento próprio da Central Estadual de Transplantes, ano a ano, e quantos servidores a compõem?
  2. Quantas comissões intra-hospitalares de doação de órgãos e tecidos estão em funcionamento no Piauí, e em quais municípios?
  3. Existe organização de procura de órgãos fora de Teresina? Se não, qual o prazo para instalar?
  4. Qual o plano de descentralização da captação anunciado pela Central, com cronograma e orçamento?
  5. Qual a fila atual por órgão e o tempo médio de espera de cada uma?
  6. Qual a justificativa da inexigibilidade nas dez compras de solução de perfusão? Existe fornecedor único no país?
  7. Por que apenas R$ 17.772,30 de recurso livre do Tesouro foram aplicados na área em quatro anos?
  8. Em 2023 o empenho foi de R$ 3.445,40. Como se explica esse valor?

Ressalvas de método

Os valores são de empenho, não de pagamento. Procedimentos de transplante executados dentro de contratos de gestão hospitalar mais amplos, sem menção específica ao objeto na nota, não são capturados por este recorte. Repasses do Ministério da Saúde diretamente às unidades, fora do orçamento estadual, não integram esta base.

O que se pede

A Rádio Calçada solicita à Secretaria de Estado da Saúde e à Central Estadual de Transplantes do Piauí os documentos listados nas perguntas acima, em especial o plano de descentralização da captação e a série histórica da fila por órgão.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Estado da Saúde, Central Estadual de Transplantes do Piauí, Secretaria de Comunicação e Contatti Comércio e Representações Ltda. As respostas serão publicadas na íntegra.

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre eventual acompanhamento do financiamento estadual da política de transplantes.

Contato: consultor@xconexoes.com.br

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