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outubro 14, 2026 20:06

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Por que o governo pagou R$ 24,5 milhões à construtora de Felipinho, por um asfalto que o TCE avalia em R$ 9,8 milhões?

O Tribunal de Contas mandou a Secretaria da Infraestrutura parar, na hora, de pagar a Construtora Solução. Os técnicos foram às ruas de Parnaíba, Buriti dos Lopes e Cocal e encontraram asfalto aplicado sobre vegetação, serviço cobrado e não feito, e uma diferença de R$ 14,5 milhões entre o que foi pago e o que foi entregue.

Por Trabulo Neto

O Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) mandou o governo parar de pagar uma obra de asfalto no litoral. A ordem é para a Secretaria de Estado da Infraestrutura (SEINFRA). A empresa é a Construtora Solução Ltda (CNPJ 24.667.970/0001-03).

A decisão é da conselheira Rejane Ribeiro Sousa Dias, de 13 de outubro de 2026. Foi publicada no Diário Oficial do TCE nº 191/2026, nas páginas 5 a 8. O processo é o TC/011277/2026.

O TCE chama isso de medida cautelar: uma ordem de urgência, dada antes do julgamento final, para evitar que o prejuízo aumente enquanto o caso é investigado. Desta vez, a ordem foi dada sem ouvir antes o governo e a empresa, porque o tribunal entendeu que esperar poderia custar mais dinheiro público.

Que obra é essa

O contrato é o nº 028/2026, assinado em 18 de maio de 2026. Ele saiu de uma licitação, a Concorrência Eletrônica nº 003/2026. O processo administrativo é o 00114.000962/2025-48.

O serviço é passar asfalto por cima de ruas que hoje são de paralelepípedo. O tipo de asfalto é o CBUQ (Concreto Betuminoso Usinado a Quente), aquele asfalto preto e liso, feito em usina e aplicado ainda quente.

A obra vale para os municípios do Território da Planície Litorânea, no norte do estado. A área prevista é de 582 mil metros quadrados. É como asfaltar mais de 80 campos de futebol.

O preço total do contrato é R$ 72.499.998,34.

O dinheiro andou mais rápido que a obra

Os técnicos do TCE desconfiaram logo no começo. Dez dias depois da assinatura, em 28 de maio, a SEINFRA já tinha aprovado dois pagamentos que, juntos, passavam de R$ 6,1 milhões.

Em 23 de junho, o TCE pediu à secretaria as provas do serviço: boletins de medição, fotos e mapas dos lugares asfaltados. Segundo a decisão, a resposta veio com “sucessivas prorrogações de prazo”, informações desencontradas e dificuldades para conseguir os documentos.

Em 15 de julho, a SEINFRA informou que tinha trabalhado em Parnaíba e Buriti dos Lopes. Os papéis já mostravam menos serviço do que o dinheiro pago.

No dia 28 de julho, a equipe do TCE foi para as ruas conferir. No mesmo dia em que a fiscalização começou, a SEINFRA mandou novos documentos, com mais frentes de obra em Parnaíba e Buriti dos Lopes e trechos em Cocal. A vistoria valeu para o que estava feito até 30 de julho.

A conta que não fecha

O que o TCE apurou Valor
Preço total do contrato R$ 72.499.998,34
Pago em 10 dias, até 28/05/2026 mais de R$ 6,1 milhões
Pago até 24/09/2026 cerca de R$ 24,5 milhões
Obra que o TCE conseguiu comprovar R$ 9.828.213,65
Diferença cerca de R$ 14,5 milhões
Pago depois da vistoria, em agosto e setembro mais de R$ 7 milhões, em quatro pagamentos

Em palavras simples: até 24 de setembro, o governo pagou cerca de R$ 24,5 milhões. Na rua, o TCE só encontrou serviço que vale R$ 9,8 milhões. Para cada R$ 10 pagos, cerca de R$ 4 viraram asfalto comprovado.

A área técnica do TCE calculou dois números. Um é o adiantamento irregular, dinheiro pago antes de o serviço ser feito: R$ 14.541.717,81. O outro é o superfaturamento, pagamento por quantidade de obra maior do que a executada: R$ 14.676.759,72.

Asfalto sobre vegetação

Os técnicos listaram o que viram e o que faltou:

  • asfalto aplicado sobre vegetação, sem arrumar a base da rua antes;
  • capina e recomposição da base cobradas pela empresa e não feitas;
  • pagamentos aprovados sem documento da época que mostre o serviço;
  • falta de diário de obra e de fotos;
  • boletins de medição e notas técnicas entregues com atraso;
  • controle fraco da qualidade do asfalto;
  • planos de trabalho com “deficiências graves”.

O TCE também registrou que a SEINFRA deixa de alimentar o sistema Obras Web, onde o tribunal acompanha as obras do Estado. Segundo a decisão, o problema não é só deste contrato e atinge outras obras da secretaria.

Pagou mais R$ 7 milhões depois da vistoria

O ponto que levou à ordem de urgência foi este: mesmo depois da vistoria de 30 de julho, quando a diferença já tinha aparecido, a SEINFRA autorizou mais quatro pagamentos entre agosto e setembro, somando mais de R$ 7 milhões.

Nas palavras da relatora, ainda há saldo no contrato que pode ser cobrado, “o que pode ampliar o prejuízo ao erário”.

O que o TCE mandou fazer

  1. A SEINFRA não pode abrir novas ordens de serviço além do valor que já pagou.
  2. A SEINFRA tem de suspender imediatamente qualquer pagamento do contrato, até nova decisão do tribunal.

A área técnica também pediu que a obra só voltasse se a empresa devolvesse os R$ 14,68 milhões ou provasse o serviço, e que os trechos com asfalto sobre vegetação fossem refeitos à custa da construtora. A relatora negou esses pedidos por enquanto. Ela explicou que o valor “ainda depende de conferência” e que o tribunal precisa ouvir os envolvidos antes.

O TCE ainda não condenou ninguém. Não há multa nem devolução decidida. Os envolvidos vão poder se defender.

Quem foi chamado a se explicar

O TCE mandou citar, com prazo de 15 dias úteis para defesa:

  • Danísio Guimarães e Marabuco, secretário da Infraestrutura e responsável por autorizar a despesa;
  • Tiago Queiroz Madeira Campos, fiscal do contrato, engenheiro orçamentista e responsável pelo projeto;
  • Eduardo Costa Carvalho, gestor do contrato;
  • Construtora Solução Ltda.

Para o secretário, a acusação é ter autorizado pagamentos adiantados e acima do serviço, sem documentos, e não ter alimentado o Obras Web. Para o fiscal, é ter atestado serviço que não estava pronto. Para a empresa, é ter recebido antes da hora, por obra a mais e por capina e base que não fez.

Quem é o dono

Pelos cadastros da Receita Federal, o dono da Construtora Solução é o empresário Felipe de Santana Machado, conhecido como Felipinho. Ele também é dono da Poty Construtora e Empreendimentos Imobiliários Ltda (CNPJ 17.323.084/0001-05). As duas empresas funcionam no mesmo endereço em Teresina, no Edifício The Office Tower.

A Construtora Solução também aparece nos registros com o nome fantasia “Solução Construtora e Empreendimentos”. O capital social declarado é de R$ 600 mil.

Não é o primeiro contrato

A Construtora Solução aparece com frequência nesta série, em obras de vários órgãos do governo. No dia 1º de outubro, a mesma SEINFRA empenhou R$ 10.272.318,14 à empresa pela primeira medição de outro asfalto, na PI-379, em Itainópolis (contrato 068/2026).

Na base de empenhos do Portal da Transparência, de 1º a 13 de outubro, não aparece nenhuma nota nova no contrato 028/2026.

É avaliação desta redação que o caso mostra um risco para o cidadão: quando o pagamento corre na frente da obra e a secretaria continua pagando depois de alertada, quem fica com o prejuízo, se ele se confirmar, é o caixa do Estado.

Órgãos de controle

A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Piauí (MP-PI) que acompanhem o processo TC/011277/2026 e verifiquem os demais contratos da SEINFRA que, segundo o TCE, também estão fora do sistema Obras Web.

Perguntas que a Rádio Calçada faz

À SEINFRA:

  1. A secretaria já suspendeu os pagamentos do contrato 028/2026?
  2. Quanto já foi pago, no total, e em quais ruas de Parnaíba, Buriti dos Lopes e Cocal?
  3. Por que fez mais quatro pagamentos em agosto e setembro, depois da vistoria do TCE?
  4. Por que a obra não está registrada no sistema Obras Web? Quais outros contratos estão na mesma situação?

À Construtora Solução:

  1. A empresa reconhece a diferença apontada pelo TCE?
  2. Os trechos com asfalto sobre vegetação serão refeitos?

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Secretaria de Estado da Infraestrutura do Piauí (SEINFRA), secretário Danísio Guimarães e Marabuco, Tiago Queiroz Madeira Campos, Eduardo Costa Carvalho e Construtora Solução Ltda e seu sócio, Felipe de Santana Machado. As respostas serão publicadas na íntegra.

Contato: redacao@radiocalcada.com.br

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