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outubro 14, 2026 20:06

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Mutirão com receita assinada por quem não é médico e remédio em falta na Farmácia do Povo: o que o Ministério Público cobra da Secretaria de Saúde do Piauí?

Dois atos da 12ª Promotoria de Justiça de Teresina, publicados no Diário Oficial do MPPI, tratam de um mutirão de cirurgias no Hospital Getúlio Vargas e da falta de um medicamento de alto custo na rede estadual

Por Trabulo Neto

O Ministério Público do Piauí publicou dois atos contra a Secretaria de Estado da Saúde (SESAPI) na edição nº 2118 do seu Diário Oficial Eletrônico, disponibilizada nesta quarta-feira (14). Os dois são da 12ª Promotoria de Justiça de Teresina, que defende a saúde pública nos casos de responsabilidade do Estado.

O primeiro ato é uma recomendação sobre um mutirão de cirurgia vascular feito em fevereiro de 2025 no Hospital Getúlio Vargas (HGV), o maior hospital público do estado. O segundo abre uma investigação sobre a falta do medicamento Omalizumabe na Farmácia do Povo.

O mutirão do HGV

Mutirão é quando muitos pacientes passam por cirurgias e procedimentos num prazo curto, para reduzir a fila. As regras do Conselho Federal de Medicina, do Conselho Regional de Medicina do Piauí e da Anvisa exigem controles próprios para esse tipo de ação, justamente porque o volume de atendimentos aumenta o risco para o paciente.

Segundo a Recomendação Administrativa nº 13/2026, o Ministério Público encontrou “irregularidades graves” no Mutirão de Cirurgia Vascular do HGV. O documento cita duas delas: o mutirão não tinha coordenação técnica, e havia prescrições assinadas por pessoas que não são médicas. Prescrição é a ordem escrita que define o remédio, a dose e o tratamento do paciente.

As falhas foram apuradas no Inquérito Civil nº 06/2025 (SIMP 000006-027/2025), uma investigação do Ministério Público para levantar provas sobre um problema de interesse coletivo. A recomendação não informa se algum paciente sofreu dano, nem quantas pessoas foram operadas no mutirão.

O que o Ministério Público recomenda

A promotora Débora Geane Aguiar Aragão reconhece no próprio documento que não dá para desfazer os procedimentos já realizados. Por isso, a recomendação trata dos próximos mutirões e é dirigida ao secretário de Estado da Saúde, identificado no documento como Dirceu Hamilton Cordeiro Campelo. Ela pede que a SESAPI:

  • avise antes o Conselho Regional de Medicina;
  • só comece o mutirão depois da fiscalização e da aprovação da Vigilância Sanitária;
  • confira a habilitação de todos os profissionais e deixe claro quem é o responsável técnico;
  • acompanhe os pacientes depois da cirurgia e depois da alta, com um hospital de retaguarda definido para emergências;
  • organize o encaminhamento e o retorno dos pacientes que vêm de outros municípios.

A secretaria tem 10 dias úteis, contados do recebimento, para dizer se aceita a recomendação e comprovar o que fez.

A recomendação não é uma ordem judicial, mas tem consequência. O documento avisa que ela serve para mostrar que o gestor sabia da irregularidade. Se o problema se repetir, isso pode ser usado como prova numa ação por improbidade administrativa, que é o processo contra agentes públicos que desrespeitam as regras da administração.

O remédio que falta

No mesmo dia, a 12ª Promotoria abriu o Procedimento Preparatório nº 55/2026 (SIMP 002100-426/2026) para apurar a falta e as irregularidades no fornecimento do Omalizumabe pela SESAPI, por meio da Farmácia do Povo. Procedimento preparatório é a etapa de reunir informações antes de decidir se abre um inquérito civil completo.

O Omalizumabe é um medicamento injetável de alto custo, usado no tratamento de casos graves de asma e de urticária crônica. Para quem depende dele, interromper o tratamento pode significar a volta das crises.

O caso começou com a reclamação de uma paciente. Segundo a portaria, ela informou ao Ministério Público que o fornecimento “permanece irregular” e que, neste mês, foi avisada de que o remédio estava indisponível na Farmácia do Povo.

A Promotoria vai pedir à SESAPI informações e documentos atualizados sobre o estoque e a regularidade da entrega do medicamento, e sobre o que está sendo feito para que os pacientes do SUS não fiquem sem tratamento.

O que os dois casos mostram

É avaliação desta redação que os dois atos apontam para o mesmo problema: falta de controle em áreas onde o erro custa a saúde do paciente. Num caso, o problema é a organização de cirurgias em série dentro do principal hospital do Estado. No outro, a continuidade de um tratamento que o paciente não consegue pagar sozinho.

Fiscalização

A Rádio Calçada solicita à 12ª Promotoria de Justiça de Teresina informações sobre a resposta da SESAPI à Recomendação nº 13/2026 e sobre o andamento do Procedimento Preparatório nº 55/2026, e publicará as atualizações.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas:

  • Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI);
  • Hospital Getúlio Vargas (HGV);
  • Farmácia do Povo / SESAPI.

As respostas serão publicadas na íntegra. Contato: redacao@radiocalcada.com.br


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