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agosto 7, 2026 18:11

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A sala de vacina do Hospital Infantil ficou fechada o mês inteiro de junho

Quem conta isso é o próprio hospital, num relatório que ele mesmo mandou para o Tribunal de Contas

Por Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

Quem levou uma criança para tomar vacina no Hospital Infantil Lucídio Portella, em Teresina, no mês de junho deste ano, encontrou a sala fechada. Em qualquer dia do mês.

Isso não é boato de corredor. Está escrito, com todas as letras, no relatório que o próprio hospital mandou para o Tribunal de Contas do Estado no dia 29 de julho. No rodapé da página, em letra maiúscula, o hospital informa que a sala de rotina permaneceu fechada no mês de junho.

Vacina de rotina é a vacina do cartãozinho. É a que toda criança toma por idade, a do sarampo, a da poliomielite, a da tríplice viral. É a mais comum de todas, e é justamente ela que o maior hospital de criança do Estado deixou de aplicar por trinta dias.

Na tabela do relatório, a linha das vacinas de rotina aparece com três asteriscos no lugar do número. Ou seja, nenhuma dose. Logo abaixo, a linha das vacinas especiais, que são aplicadas só em crianças com algum problema de saúde específico, mostra 1.548 doses. Um serviço funcionou. O outro ficou de porta fechada.

O relatório não diz por que a sala fechou. Não diz se as crianças foram orientadas a procurar o posto de saúde do bairro. E não diz se a sala reabriu em julho.

O resto do hospital funcionou. No mesmo mês foram 4.723 consultas, 1.220 exames de raio-x, 6.029 exames de laboratório e 329 crianças internadas. Essa conta, aliás, está certa. Esta reportagem somou especialidade por especialidade e o total bate.

O que não funcionou foi a vacina.

Três coisas diferentes que deram exatamente o mesmo número

No Hospital Regional Leônidas Melo, em Barras, o relatório de junho traz três procedimentos com o mesmo número: glicemia capilar, 5.442; pressão arterial, 5.442; temperatura, 5.442.

São três coisas diferentes. Uma é picada no dedo, outra é aparelho no braço, outra é termômetro. Cada uma é feita num momento, por gente diferente, em paciente diferente. Dar exatamente o mesmo número nas três, no mesmo mês, é o tipo de coincidência que praticamente não acontece quando alguém está contando de verdade.

No mesmo relatório as contas não batem entre si. Numa parte do papel, somando as internações por especialidade, o resultado é 284. Em outra parte, o próprio documento diz 202. Não existe uma linha sequer explicando de onde vem a diferença. Quem lê não consegue saber quantas pessoas o hospital internou em junho.

Cada um faz do jeito que quer

Junta os três relatórios e aparece o problema de fundo. Cada unidade monta o papel do jeito que entende.

Uma organiza por especialidade médica. A outra separa em urgência, internação e emergência. A terceira faz uma listinha com pontinhos. Não existe um único item que as três preencham do mesmo jeito.

Nenhuma delas informa quantos leitos ficaram ocupados, quanto tempo o paciente ficou internado em média, quantos pacientes morreram ou quanto da meta combinada com o Estado foi cumprido. Esses são os dados básicos que qualquer hospital do mundo usa para dizer se está indo bem ou mal.

O papel se chama “desempenho hospitalar”. Mas ele não mede desempenho. Mede movimento.

É avaliação desta redação que, do jeito que está, esse controle serve para dizer que a prestação de contas foi feita, e não para saber se a saúde está funcionando. Uma mãe de Barras não consegue comparar o hospital da sua cidade com nenhum outro. Um conselheiro de saúde não consegue acompanhar se melhorou ou piorou de um mês para o outro. E o auditor tem que aceitar como boa uma folha com três números iguais e um campo em branco.

Os quatro arquivos, referentes a junho, foram assinados no mesmo dia 29 de julho. Dois deles depois das dez da noite.

Outro lado

A reportagem solicita à Secretaria de Estado da Saúde do Piauí explicação sobre o motivo do fechamento da sala de vacinação de rotina do Hospital Infantil Lucídio Portella em junho, sobre a data de reabertura do serviço e sobre para onde foram orientadas as crianças que procuraram o hospital para vacinar no período.

A reportagem solicita também explicação sobre o relatório de Francinópolis enviado duas vezes, sobre o campo de limite de internações deixado em branco, sobre os três números iguais no hospital de Barras e sobre a existência ou não de um modelo único de relatório para toda a rede do Estado.

A Secretaria e as direções das três unidades têm espaço garantido nesta publicação. As respostas são publicadas na íntegra, sem corte, assim que chegarem.

Fiscalização

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí informação sobre a existência de conferência automática desses relatórios e sobre o que o Tribunal faz quando recebe o mesmo documento duas vezes.

A reportagem solicita ao Ministério Público de Contas do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí avaliação sobre a suspensão da vacinação de rotina no Hospital Infantil Lucídio Portella e sobre a confiabilidade dos números enviados pelas unidades da rede estadual.

De onde saíram as informações desta reportagem

Todos os documentos são públicos e foram enviados pelas próprias unidades ao Tribunal de Contas do Estado, pelo sistema de documentação web, no dia 29 de julho de 2026.

Relatório de desempenho de junho de 2026 do Hospital Infantil Lucídio Portella, em Teresina, CNPJ 06.553.564/0099-41. Relatório de junho de 2026 do Hospital Regional Leônidas Melo, em Barras, CNPJ 06.553.564/0002-19. Dois relatórios de junho de 2026 da Unidade Mista de Saúde Pedro Lopes, em Francinópolis, CNPJ 06.553.564/0068-45, assinados às 22h14 e às 22h38.

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