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julho 10, 2026 14:46

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GOVERNADOR ANUNCIA APROFUNDAMENTO DO CANAL DO PORTO DE LUÍS CORREIA SEM INFORMAR VALOR, FONTE DE RECURSOS OU LICITAÇÃO

Comunicado da Companhia Porto Piauí fala em “suporte financeiro garantido pelo Governo do Estado” para levar o canal a -11,5 metros DHN, mas não apresenta cifra, dotação orçamentária ou processo de contratação; obras comparáveis em outros portos brasileiros custam centenas de milhões de reais

Investigação e denúncias: Trabulo Neto e Trabulo Júnior

É fato: a Companhia Porto Piauí divulgou comunicado anunciando, “com suporte financeiro garantido pelo Governo do Estado”, que a Investe Piauí e o Porto Piauí realizarão o aprofundamento do canal de navegação do Porto de Luís Correia para -11,5 metros DHN, com calado dinâmico de 14 metros. O anúncio inclui também as dragagens de manutenção do canal atual. O conteúdo foi replicado nas redes sociais do governador Rafael Fonteles, sob o título “Ampliação da infraestrutura portuária”.

É fato: o comunicado não informa o valor da obra, a fonte dos recursos, a dotação orçamentária ou o processo de contratação que dará suporte ao aprofundamento. A cobertura da imprensa local sobre o mesmo documento também não registra qualquer cifra para a dragagem de aprofundamento. O único valor citado no comunicado refere-se a outro empreendimento: o Terminal de Carga Geral e Conteinerizada, em parceria com a CNAGA Armazéns Alfandegados, estimado em R$ 25 milhões, com conclusão prevista para dezembro de 2026.

O QUE O ANÚNCIO NÃO DIZ

É fato: o canal de acesso ao Porto de Luís Correia opera hoje com profundidade de 7 metros na maré baixa, podendo chegar a 9,5 metros na maré alta. A primeira dragagem foi realizada em agosto de 2023, com dragagens de manutenção em agosto de 2024 e junho de 2025. O pacote de obras que incluiu o terminal pesqueiro e a dragagem do canal de acesso foi anunciado pelo governo em 2023 com investimento total de R$ 90 milhões, apresentado à época como o maior volume de recursos já aplicado pelo Governo do Estado em obras públicas.

É fato: obras de aprofundamento de canal em portos brasileiros envolvem valores de grande magnitude. O Porto de Santos contratou em 2026 a dragagem de aprofundamento de seu canal de 15 para 16 metros por R$ 617,9 milhões. O Canal de Acesso ao Porto de Paranaguá foi concedido à iniciativa privada com previsão de R$ 1,23 bilhão em investimentos para elevar a profundidade de 13,3 para 15,5 metros.

É avaliação desta redação: a comparação tem limites técnicos, já que extensão de canal, volume de sedimentos e condições de cada porto variam. Mas a ordem de grandeza é inescapável. Levar o canal de Luís Correia da profundidade atual para -11,5 metros DHN é obra estruturante, de custo elevado, e o silêncio do comunicado sobre valor e fonte de recursos contrasta com a precisão com que o mesmo documento informa os R$ 25 milhões do terminal de contêineres.

É avaliação desta redação: a expressão “suporte financeiro garantido pelo Governo do Estado”, sem indicação de valor, dotação ou instrumento, levanta questões que o anúncio não responde. Garantido como? Por aporte de capital na companhia? Por crédito orçamentário? Por operação de crédito? Cada hipótese tem consequências distintas para as contas públicas e exige atos formais publicados no diário oficial.

O CALENDÁRIO ELEITORAL

É fato: o comunicado foi divulgado na primeira semana de julho de 2026, período que coincide com o início da vedação à publicidade institucional prevista na Lei 9.504/97, que proíbe, nos três meses que antecedem o pleito, a divulgação de publicidade institucional de atos, programas, obras e serviços dos órgãos públicos, ressalvadas as exceções legais.

É avaliação desta redação: não cabe a esta reportagem afirmar a ocorrência de irregularidade eleitoral, matéria de competência da Justiça Eleitoral. Cabe, porém, registrar que o anúncio de uma obra de grande porte, sem valor definido e sem processo de contratação identificado, feito às vésperas do período de vedação e replicado no perfil pessoal do governador, que disputa a reeleição, merece o escrutínio dos órgãos de controle.

CONTRADITÓRIO

A reportagem encaminha os seguintes questionamentos à Companhia Porto Piauí, à Investe Piauí e ao Governo do Estado do Piauí e solicita resposta:

  1. Qual o valor estimado da obra de aprofundamento do canal para -11,5 metros DHN, incluídas as dragagens de manutenção anunciadas?
  2. Qual a fonte de recursos e a dotação orçamentária que darão suporte à obra? O “suporte financeiro garantido pelo Governo do Estado” se dará por aporte de capital, crédito orçamentário, operação de crédito ou outro instrumento?
  3. Existe projeto básico ou executivo concluído para o aprofundamento? Se sim, quando e por quem foi elaborado, e a que custo?
  4. Qual a modalidade de contratação prevista para a execução da obra? Há processo licitatório aberto ou previsto? Sob qual número?
  5. Qual o cronograma previsto para o início e a conclusão do aprofundamento?
  6. Há licenciamento ambiental protocolado ou emitido para a nova cota de profundidade? Junto a qual órgão?
  7. Por que o comunicado informa o valor do Terminal de Carga Geral e Conteinerizada (R$ 25 milhões), mas não o da obra de aprofundamento do canal?
  8. Considerando a divulgação do comunicado no início de julho de 2026 e sua replicação em perfis pessoais de agente público que disputa o pleito, quais medidas foram adotadas para assegurar a conformidade com as vedações da Lei 9.504/97?

AOS ÓRGÃOS DE CONTROLE

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas do Piauí (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) que informem se já têm conhecimento do anúncio da obra de aprofundamento do canal do Porto de Luís Correia sem divulgação de valor, fonte de recursos ou processo de contratação, e quais providências pretendem adotar diante do caso. Esta redação se coloca à disposição para publicar as respostas na íntegra.

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