Seis em cada dez empregos com carteira assinada do estado estão na capital. Nos outros 223 municípios, há três famílias no Bolsa Família para cada emprego formal.
Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)
Segunda reportagem da série sobre renda, trabalho e transferência federal no Piauí. A primeira mostrou por que a comparação entre Bolsa Família e carteira assinada.
O número que ninguém tinha calculado
O Ministério do Trabalho e Emprego divulga, todo ano, o balanço do emprego com carteira assinada por município. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social divulga, todo mês, quantas famílias recebem Bolsa Família em cada cidade.
Os dois dados são públicos. Ninguém tinha colocado um ao lado do outro.
A Rádio Calçada colocou.
Teresina concentra um estoque de 234,7 mil empregos formais, segundo o balanço do Novo Caged de 2025. O estoque de todo o Piauí era de 385.135 vínculos em novembro do mesmo ano.
Isso significa que a capital detém cerca de 60,9% de todo o emprego com carteira assinada do estado.
Do lado do Bolsa Família, o desenho é o oposto. Teresina tinha 83,3 mil famílias atendidas em fevereiro de 2026, num total estadual de 546.474 famílias. A capital responde por 15,2% do programa.
Uma cidade só. Sessenta e um por cento do emprego formal. Quinze por cento das famílias que dependem de transferência de renda.
Os dois Piauís, em números redondos
Se você tirar Teresina da conta, o que sobra nos outros 223 municípios é isto:
150.435 empregos formais. Divididos por 223 municípios, dá uma média de 675 vínculos com carteira assinada por cidade. Município piauiense médio, fora da capital, tem menos de setecentas pessoas trabalhando de carteira assinada.
463.174 famílias no Bolsa Família. Média de 2.077 famílias por município.
Coloque as duas coisas na mesma frase e o retrato aparece inteiro:
Fora de Teresina, há 3,08 famílias no Bolsa Família para cada emprego formal.
Dentro de Teresina, há 0,35 família no Bolsa Família para cada emprego formal.
A distância entre as duas realidades é de quase nove vezes.
No estado como um todo, a razão fica em 1,42. É esse número intermediário que circula nas manchetes. Ele não descreve nenhum dos dois Piauís. Ele descreve uma média que não existe em lugar nenhum do mapa.
Por que essa é a conta certa, e não a outra
Na primeira reportagem desta série, a Rádio Calçada mostrou por que comparar o total de famílias no Bolsa Família com o total de empregos formais, no estado inteiro, é uma conta mal feita. Uma base conta famílias, a outra conta pessoas. E o Novo Caged não enxerga servidor público estatutário, militar, MEI nem trabalhador por conta própria.
Essas duas ressalvas continuam valendo aqui. Mas há uma diferença decisiva.
Quando se compara Teresina com o resto do estado, os dois lados da conta usam a mesma base, com a mesma limitação. O Caged deixa de fora o servidor estatutário tanto na capital quanto em Cocal dos Alves. O Bolsa Família conta família tanto num lugar quanto no outro.
O que se está medindo aqui não é “quanta gente trabalha”. É onde está o emprego formal privado do Piauí. E a resposta é: numa cidade só.
Esse número não depende de suposição nenhuma. É divisão simples entre dois dados oficiais.
O que sobra no interior quando o Caged não enxerga a prefeitura
Aqui está a parte que exige honestidade com o leitor.
Aqueles 675 empregos formais por município, na média do interior, não significam que só 675 pessoas trabalham naquela cidade. Significa que só 675 têm vínculo regido pela CLT e registrado no Caged.
Fora dessa contagem estão o servidor municipal concursado, o professor da rede, o agente de saúde, o trabalhador rural sem registro, o autônomo sem CNPJ. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, mostra que o setor público responde por 19,4% de todas as ocupações do Piauí no primeiro trimestre de 2026, e que cerca de 305 mil piauienses trabalham por conta própria sem CNPJ, o equivalente a 22,8% dos ocupados.
É avaliação desta redação que a conclusão correta a extrair desses números é a seguinte: no interior do Piauí, a economia formal privada é residual, e as duas fontes de renda regular que sustentam a maioria dos municípios são a folha da prefeitura e o Bolsa Família.
Não é uma afirmação sobre preguiça, nem sobre acomodação. É uma afirmação sobre estrutura econômica. Onde não há empresa que contrate, não há carteira assinada. Onde não há carteira assinada, não há contribuição previdenciária, não há FGTS, não há seguro-desemprego, e a única renda que chega todo mês, na data marcada, vem de Brasília ou do caixa da prefeitura.
Onde o benefício pesa mais
O mapa da pobreza do estado aparece com nitidez no valor médio do benefício, porque benefício alto significa família grande com renda baixa.
Em fevereiro de 2026, os cinco municípios piauienses com maior valor médio de Bolsa Família foram Monte Alegre do Piauí, com R$ 739,35, Porto, com R$ 729,72, Sebastião Barros, com R$ 718,86, Santo Antônio dos Milagres, com R$ 715,70, e Curralinhos, com R$ 714,77. A média estadual no mês foi de R$ 675,83, e a nacional, de R$ 690,01.
Nenhum desses cinco municípios aparece na lista dos que mais geraram emprego formal no estado. Os que aparecem são Teresina, com saldo de 9.646 vagas em 2025, seguida de Picos, com 1.619, Parnaíba, com 1.103, Piripiri, com 1.067, e São Raimundo Nonato, com 691.
São dois mapas diferentes do mesmo estado, e eles quase não se tocam.
O que o governo do estado apresenta
O governo estadual divulga números que também são verdadeiros e que contam outra história.
O Piauí fechou 2025 com saldo de 21.022 novos empregos com carteira assinada, resultado de 167.430 admissões e 146.408 desligamentos. Em maio de 2026, o estado teve saldo positivo de 1.999 vagas, com os cinco grandes setores no azul, e a Secretaria do Planejamento atribuiu o desempenho a políticas estaduais de empregabilidade.
É avaliação desta redação que o dado é correto e a leitura é parcial. Dos 21.022 empregos criados em 2025, 9.646 foram em Teresina, ou seja, quase metade em uma única cidade entre 224. O crescimento existe, e ele está reforçando exatamente a concentração que esta reportagem descreve, em vez de corrigi-la.
Como esta reportagem foi feita
Os dados de emprego formal por município vêm do balanço do Novo Caged de 2025, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 29 de janeiro de 2026, e da divulgação de novembro de 2025, que traz o estoque estadual de 385.135 vínculos.
Os dados do Bolsa Família por município vêm do informe mensal do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social referente a fevereiro de 2026, que traz a abertura para os 224 municípios piauienses.
Os indicadores de composição da ocupação vêm da PNAD Contínua do IBGE, primeiro trimestre de 2026.
Ressalva de método, declarada ao leitor: as duas bases usadas nesta reportagem têm meses de referência próximos, mas não idênticos. O estoque de emprego formal é do fim de 2025 e o Bolsa Família é de fevereiro de 2026. A diferença de poucos meses não altera a ordem de grandeza dos percentuais apresentados, mas os números devem ser lidos como proporções aproximadas, não como precisão decimal. A Rádio Calçada optou por publicar assim, e declarar a limitação, em vez de omitir a comparação.
Todos os cálculos desta reportagem podem ser refeitos por qualquer leitor com os quatro números de origem: 234.700 e 385.135, de emprego formal, e 83.300 e 546.474, de Bolsa Família.
Contraditório
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí para que informe se existe meta oficial de desconcentração territorial do emprego formal no estado, com indicador e prazo, e quais programas estaduais em execução têm o interior como público-alvo prioritário.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico para que informe o valor total de incentivos fiscais concedidos pelo estado nos exercícios de 2023, 2024 e 2025, a distribuição desses incentivos por município e o número de empregos formais gerados como contrapartida em cada caso.
A Rádio Calçada procura a Secretaria de Estado do Trabalho e Empreendedorismo para que informe quantos trabalhadores foram formalizados por meio de programas estaduais no período e qual a distribuição territorial desse resultado.
As respostas serão publicadas na íntegra, sem edição, no momento em que chegarem.
Fiscalização
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí que informe se há auditoria operacional em curso ou concluída sobre a efetividade dos incentivos fiscais concedidos pelo estado sob a justificativa de geração de emprego, e se a distribuição territorial desses incentivos foi objeto de exame.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público de Contas do Estado do Piauí que se manifeste sobre a existência de mecanismo de aferição de resultado nos convênios e benefícios fiscais concedidos com contrapartida de geração de postos de trabalho.














