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agosto 25, 2026 21:48

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Quem paga a conta da exportação que não avança?

A primeira exportação de minério do Piauí começou em 5 de agosto e depende de cerca de doze viagens de um navio pequeno para encher um navio grande que não entra no canal. Enquanto isso, as embarcações esperam, e toda hora parada de navio tem preço

Por Trabulo Neto (0002880/PI) e Trabulo Júnior (0014965/DF)

A primeira exportação de minério de ferro pelo Porto Piauí, em Luís Correia, começou em 5 de agosto e até esta quarta-feira, 12 de agosto, não foi concluída. Nesse intervalo, quatro navios estiveram envolvidos na operação e o navio oceânico que deveria seguir para a China deixou a costa piauiense e foi para o litoral do Pará.

Esta reportagem faz uma pergunta simples, que ainda não foi respondida por nenhum documento público: quem paga o custo desses dias.

O desenho da operação

O modelo escolhido pela Companhia Porto Piauí é o transbordo entre embarcações, chamado no setor de transhipment. Funciona assim: um navio menor é carregado no cais do Terminal de Uso Privado, navega até a área de fundeio em mar aberto e transfere a carga para um navio oceânico, que faz a viagem internacional.

Segundo as informações divulgadas pela própria companhia e reproduzidas pela imprensa especializada, a área de fundeio fica entre 22 e 37 quilômetros da costa, a depender da etapa. O navio oceânico é o MARINE VICTORY, com capacidade acima de 110 mil toneladas. O minério é produzido pela Lion Mining, empresa com minas em Piripiri.

O primeiro carregamento saiu do porto no dia 5 de agosto, a bordo do graneleiro KONTA II, com 9 mil toneladas. A meta divulgada para o embarque é de cerca de 110 mil toneladas.

A conta que qualquer leitor pode fazer

Se cada viagem do navio menor leva 9 mil toneladas e o objetivo é encher um navio com 110 mil toneladas, são necessárias cerca de doze viagens completas entre o cais e o ponto de fundeio.

O cálculo é desta redação e usa os números divulgados oficialmente. A quantidade por viagem pode variar conforme a maré, o calado e as condições do mar, o que altera o total de idas e vindas para mais ou para menos. Mas a ordem de grandeza é essa: a carga de um único navio oceânico precisa ser montada em dezenas de etapas.

É avaliação desta redação que esse desenho não é um detalhe operacional. Ele é a razão pela qual a primeira exportação leva semanas em vez de dias.

Por que a operação é assim

O canal de acesso ao porto de Luís Correia não tem profundidade para receber um navio do porte do MARINE VICTORY, que tem 250 metros de comprimento e porte bruto de 114 mil toneladas. Por isso o navio grande fica no mar e o navio pequeno faz o vaivém.

A própria Companhia Porto Piauí anunciou, em comunicado divulgado em julho, que pretende aprofundar o canal de navegação para 11,5 metros, além de realizar dragagens de manutenção.

É avaliação desta redação que o anúncio do aprofundamento é o reconhecimento, pela própria companhia, de que a profundidade atual do canal não comporta o tipo de navio de que a operação depende.

As duas contas

Toda hora de navio parado tem preço. No transporte marítimo, isso aparece em duas formas.

A primeira é o afretamento, que é o aluguel do navio, cobrado por dia, esteja ele navegando, carregando ou apenas fundeado. A segunda é a sobrestadia, conhecida no setor pelo termo em inglês demurrage, que é a multa paga quando o navio fica parado além do prazo combinado em contrato para carregar ou descarregar.

A pergunta central desta reportagem é em qual das duas contas essa despesa está caindo.

Conta privada. Se os contratos de afretamento e sobrestadia estão inteiramente com a mineradora, com o armador ou com o comprador da carga, o atraso não sai do bolso do contribuinte piauiense e é um problema comercial entre empresas.

Conta pública. A Companhia Porto Piauí é uma empresa estatal, ligada à estrutura da Investe Piauí. Se a companhia assumiu, em contrato, qualquer obrigação de garantir prazo de carregamento, disponibilidade de berço, apoio marítimo ou indenização por espera, então parte do custo do atraso é despesa de dinheiro público.

Esta redação não afirma que a segunda hipótese ocorreu. Afirma que ela não pode ser descartada enquanto os contratos não forem publicados.

O que não está público

Até o fechamento deste texto, esta redação não localizou, em fonte oficial, os seguintes documentos e informações:

  1. O contrato de prestação de serviço portuário entre a Companhia Porto Piauí e a exportadora do minério, com as cláusulas de prazo, tarifa por tonelada e responsabilidade por espera.
  2. Os contratos de afretamento das embarcações de apoio usadas no transbordo e a identificação de quem os assinou.
  3. A informação sobre qual empresa arca com a sobrestadia dos navios envolvidos.
  4. O registro de quanto a companhia estatal já faturou com essa primeira operação.

Também é fato que a receita da companhia depende de tonelada movimentada. Enquanto a carga não é concluída e o navio oceânico não parte, não há tarifa cheia a receber. O custo público da estrutura, esse, continua correndo todos os dias.

O outro lado

A Rádio Calçada pergunta à Companhia Porto Piauí, à Investe Piauí e à Secretaria de Comunicação do Governo do Estado: quantas viagens do navio de apoio já foram feitas e quantas toneladas foram efetivamente transferidas até agora; qual o prazo contratual previsto para conclusão do embarque; quem responde pelo custo de afretamento e de sobrestadia das embarcações envolvidas; se a companhia estatal assumiu qualquer obrigação financeira em caso de atraso; e por que os contratos da operação não estão disponíveis no portal de transparência da companhia.

O espaço está aberto. As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes, assim que chegarem.

Controle externo

Esta redação solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí acesso aos contratos que regem a operação de transbordo de minério em Luís Correia, com especial atenção às cláusulas de prazo, de tarifa e de responsabilidade por espera de embarcação, e informação sobre eventual assunção de risco financeiro pela Companhia Porto Piauí.

Como esta reportagem foi feita

As informações sobre o desenho da operação, o volume da primeira carga, a meta de embarque, a produção da mineradora e o anúncio de aprofundamento do canal foram extraídas de comunicados da Companhia Porto Piauí e de publicações da imprensa especializada em navegação e economia, entre junho e agosto de 2026. Os dados de posição e calado das embarcações vêm de plataforma pública de rastreamento marítimo por AIS. O cálculo do número de viagens é desta redação, a partir dos números divulgados.

Não há, nesta reportagem, afirmação de desvio, de irregularidade ou de prejuízo ao erário. Há a constatação de que a operação está mais longa do que o anunciado e a cobrança de que os contratos que dizem quem paga essa demora sejam tornados públicos.

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