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agosto 30, 2026 18:55

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1.672 médicos para 2,4 milhões de piauienses: o tamanho do interior na conta da saúde

Fora de Teresina há 0,69 médico para cada mil habitantes, contra 7,73 na capital. E o estado quase triplicou o número de médicos desde 2011 sem que essa distribuição mudasse

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O Piauí tem 8.071 médicos. Desses, 6.399 estão em Teresina.

Os outros 223 municípios do estado, onde vivem cerca de 2,4 milhões de piauienses, dividem 1.672 profissionais.

Na capital, há 7,73 médicos para cada mil habitantes. No interior, há 0,69. A densidade médica de Teresina é onze vezes maior.

Colocado de outra forma: em Teresina, há um médico para cada 129 moradores. No interior do Piauí, um médico para cada 1.450.

Os dados são da pesquisa Demografia Médica no Brasil 2024, do Conselho Federal de Medicina, divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Piauí.

Menos de um médico por mil habitantes

O número de 0,69 é o que traduz a vida de quem mora fora de Teresina.

O Conselho Regional de Medicina do Piauí já citou publicamente, em 2019, o parâmetro de um médico para cada mil habitantes como referência da Organização Mundial da Saúde. O interior piauiense está abaixo desse patamar.

Vale um cálculo simples, feito por esta redação a partir dos números publicados: 1.672 médicos divididos por 223 municípios dão uma média de 7,5 médicos por cidade do interior piauiense.

A média não descreve a realidade de nenhum município específico, e é importante dizer isso. Cidades como Picos, Parnaíba e Floriano concentram parte relevante desse contingente, o que significa que muitos dos 223 municípios estão abaixo dessa média. Mas a média serve para mostrar a ordem de grandeza do problema. Não se trata de faltar especialista. Trata-se de faltar médico.

A média do estado engana

O Piauí aparece nos levantamentos nacionais com 2,45 médicos por mil habitantes, contra média brasileira de 2,81 na mesma edição do estudo.

Essa média do estado é puxada para cima por Teresina. Quem lê apenas o número estadual conclui que o Piauí está um pouco abaixo do Brasil. Quem abre o número por território encontra duas realidades que não têm relação uma com a outra.

Teresina, com 7,73 médicos por mil habitantes, tem densidade médica superior à média de países desenvolvidos. O interior do Piauí, com 0,69, tem densidade de território sem serviço.

É avaliação desta redação que qualquer política pública que use a média estadual como parâmetro vai continuar errando o alvo, porque a média estadual descreve um estado que não existe.

Treze anos de crescimento que não chegaram ao interior

Este é o ponto que não aparece em balanço oficial nenhum.

O Piauí tinha 3.125 médicos em 2011. Hoje tem 8.071. Crescimento de 157% em treze anos. Foram abertas faculdades de medicina, ampliadas vagas de graduação, criados programas de residência e de fixação.

E a proporção entre capital e interior praticamente não se moveu.

Na edição de 2023 do mesmo estudo, divulgada pela Faculdade de Medicina da USP e pela Associação Médica Brasileira, o Piauí tinha 7.662 médicos, com 6.132 em Teresina. Isso era 80% do total.

Na edição de 2024, com 8.071 médicos e 6.399 em Teresina, a concentração ficou em 79%.

Um ponto percentual.

O mesmo estudo de 2023 aponta que a média nacional de concentração de médicos nas capitais é de 58%. O Piauí estava vinte e dois pontos acima.

Ou seja: o estado formou e atraiu quase cinco mil médicos em pouco mais de uma década, e o interior absorveu uma fração disso. O problema do interior piauiense não é escassez de médico no estado. É distribuição.

Quem precisa de especialista precisa sair da cidade

A pesquisa Demografia Médica no Brasil 2025, conduzida pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Ministério da Saúde, com dados até dezembro de 2024, traz um segundo indicador.

O Piauí tem o menor percentual de médicos especialistas do Brasil: 45,1%. No Distrito Federal são 72,2%, no Rio Grande do Sul 67,9%.

Especialista, nesse levantamento, é o médico com Registro de Qualificação de Especialidade, o RQE. É o cardiologista, o oncologista, o neurologista, o anestesista, o pediatra com título. Pelos números do Conselho Federal de Medicina para 2024, dos 8.071 médicos piauienses, 3.748 tinham RQE e 4.323 não tinham.

O mesmo estudo registra que a região Sudeste concentra 55,4% de todos os especialistas do país. O Nordeste inteiro, com nove estados, concentra 14,5%.

Somando os dois dados: o estado com o menor percentual de especialistas do Brasil concentra 79% dos seus médicos na capital. Para o morador do interior, isso significa que a consulta com especialista quase sempre exige deslocamento.

O mesmo mapa em outros serviços

O padrão não é exclusivo da medicina.

O Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em agosto de 2026, mostra que cada bombeiro militar piauiense responde, em média, por 495 quilômetros quadrados de território. A média nacional é de 135. O Piauí está entre os quatro piores do país nesse indicador.

O censo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira aponta o Piauí como a unidade da federação com a menor densidade de leitos de UTI do país, com 20,95 por 100 mil habitantes, contra média nacional de 36,06.

Médico, bombeiro e leito de UTI seguem o mesmo mapa. E a rota para alcançar qualquer um dos três é a mesma: a estrada em direção a Teresina.

O que estes dados não permitem afirmar

A Demografia Médica conta o médico pelo registro no Conselho Regional de Medicina. Ela não separa quem atende pelo SUS de quem atende na rede privada, e não separa esse recorte por município.

Isso significa que os 0,69 médico por mil habitantes do interior incluem tanto o profissional da unidade básica de saúde quanto o da clínica particular. É provável que o número disponível ao usuário exclusivo do SUS no interior seja menor que 0,69, mas esta redação não afirma isso sem o dado.

Há também o efeito do deslocamento pendular. Parte dos médicos registrados em Teresina atende alguns dias por semana em cidades do interior, e o estudo do FMUSP reconhece esse fenômeno. Isso não anula a concentração, mas atenua a magnitude dela.

A Rádio Calçada vai extrair do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o CNES, os vínculos médicos por município piauiense, separando estabelecimentos SUS de não SUS. Só com essa tabela é possível responder quantos médicos o morador do interior efetivamente tem à disposição no sistema público.

Nota sobre os números

Os dados de 2024 sobre o Piauí, incluindo total de médicos, distribuição entre capital e interior, densidade por mil habitantes e número de profissionais com e sem RQE, foram publicados pelo Conselho Regional de Medicina do Piauí a partir da pesquisa Demografia Médica no Brasil 2024, do Conselho Federal de Medicina.

Os dados de 2023 sobre concentração de médicos em Teresina são da pesquisa Demografia Médica no Brasil divulgada em setembro de 2023 pela Faculdade de Medicina da USP e pela Associação Médica Brasileira, primeira edição elaborada com base no Censo 2022 do IBGE.

Os percentuais de especialistas por unidade da federação são da Demografia Médica no Brasil 2025, conforme divulgação oficial do Ministério da Saúde.

As edições usam bases populacionais e datas de corte distintas. Por isso esta matéria compara cada indicador dentro da sua própria edição, e não mistura números de edições diferentes na mesma conta.

A média de 7,5 médicos por município do interior é cálculo desta redação a partir dos números publicados pelo Conselho Federal de Medicina.

A população do interior do Piauí, de aproximadamente 2,4 milhões de pessoas, é cálculo desta redação a partir do Censo Demográfico 2022 do IBGE, que apurou 3.269.200 habitantes no estado e 866.300 em Teresina. A diferença é de 2.402.900 pessoas.

As proporções de um médico para cada 129 moradores em Teresina e para cada 1.450 no interior são a conversão direta das densidades de 7,73 e 0,69 por mil habitantes publicadas pelo Conselho Federal de Medicina.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.

Foram procuradas a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí, o Conselho Regional de Medicina do Piauí e o Conselho Federal de Medicina, para que se manifestem sobre a densidade de 0,69 médico por mil habitantes no interior do Piauí, sobre a manutenção da concentração de cerca de 80% dos médicos em Teresina mesmo após treze anos de crescimento do quadro estadual, sobre o percentual de especialistas do Piauí ser o menor do Brasil e sobre os programas em curso de interiorização e fixação de profissionais.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição.

Contato para manifestações: consultor@xconexoes.com.br

FISCALIZAÇÃO

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas do Piauí informação sobre auditorias relativas aos programas estaduais de interiorização e fixação de profissionais de saúde e à execução dos recursos destinados a esse fim.

FONTES

Conselho Federal de Medicina. “Demografia Médica no Brasil 2024”. Dados do Piauí divulgados pelo Conselho Regional de Medicina do Piauí em abril de 2024.

SCHEFFER, Mário et al. “Demografia Médica no Brasil”. Faculdade de Medicina da USP e Associação Médica Brasileira, edição divulgada em setembro de 2023.

“Demografia Médica no Brasil 2025”. Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com o Ministério da Saúde. Dados até dezembro de 2024.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022. População do Piauí e de Teresina.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil”, 2ª edição, São Paulo, 2026.

Associação de Medicina Intensiva Brasileira. “A Medicina Intensiva no Brasil: perfil dos profissionais e dos serviços de saúde”, divulgação em novembro de 2024.


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