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agosto 30, 2026 18:55

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Piauí tem a menor oferta de leitos de UTI do Brasil, aponta censo nacional da medicina intensiva

Estado registra 20,95 leitos de terapia intensiva por 100 mil habitantes, pouco mais da metade da média brasileira e menos de um terço do Distrito Federal, segundo levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O Piauí ocupa a última posição entre as 27 unidades da federação em oferta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva por habitante. O dado consta do estudo “A Medicina Intensiva no Brasil: perfil dos profissionais e dos serviços de saúde”, divulgado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) em novembro de 2024 e apresentado no XXIX Congresso Brasileiro de Medicina Intensiva.

Segundo o levantamento, o Piauí tem 20,95 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes. A média nacional é de 36,06. O Distrito Federal, primeiro colocado, tem 76,68. O estudo aponta ainda que 19 dos 27 estados brasileiros estão abaixo da média nacional, e identifica o Piauí e o Distrito Federal como os dois extremos dessa desigualdade.

A conta é simples de traduzir. Leito de UTI é a vaga de hospital destinada ao paciente em estado grave, aquele que precisa de monitoramento contínuo, respirador e equipe permanente ao lado do leito. É para onde vai a vítima de acidente com trauma, o paciente de infarto, o caso de infecção generalizada, o recém-nascido prematuro em risco. Quando não há vaga, o paciente espera na urgência, na enfermaria ou dentro de uma ambulância, em geral sob regulação, que é o sistema que distribui as vagas disponíveis no estado.

A referência internacional citada pelo próprio estudo é da Organização Mundial da Saúde, que aponta a faixa entre 10 e 30 leitos por 100 mil habitantes como parâmetro a ser perseguido. O Piauí está dentro dessa faixa, mas na parte inferior dela, e abaixo de todos os demais estados brasileiros.

A desigualdade dentro do dado

O mesmo censo mostra que a distribuição de leitos no país não separa apenas estados ricos de estados pobres. Separa também quem depende exclusivamente do SUS de quem tem plano de saúde.

Em 2024, do total de leitos de UTI existentes no Brasil, 51,7% eram operados pelo SUS e 48,3% estavam na rede privada. A diferença aparece quando se compara com a população atendida por cada rede. São 24,87 leitos por 100 mil habitantes para os 152 milhões de brasileiros que dependem do SUS, contra 69,28 leitos por 100 mil para os 51 milhões de beneficiários de planos de saúde.

Em maio de 2026, a AMIB divulgou um segundo levantamento, agora com dados de dezembro de 2025 e recorte apenas de UTI adulto. Nele, a taxa nacional no SUS é de 13 leitos por 100 mil habitantes, contra 69 entre beneficiários de planos. O Nordeste aparece com 5.361 leitos de UTI pelo SUS e taxa proporcional de 11 por 100 mil, abaixo do Sudeste (15), do Sul (14) e do Centro-Oeste (13). Esse segundo estudo não divulgou tabela aberta por estado em formato de texto, e por isso a Rádio Calçada não atribui a ele número específico do Piauí.

Falta de leito e falta de médico caminham juntas

O censo da AMIB registra também a distribuição dos médicos com especialidade em medicina intensiva, o profissional habilitado a trabalhar dentro da UTI. O estudo aponta que Norte e Nordeste possuem média inferior de intensivistas por habitante em comparação com as demais regiões, acompanhando a tendência da menor presença de leitos.

A maior densidade do país é a do Distrito Federal, com 14,06 especialistas para cada 100 mil habitantes, quase o dobro da densidade do Sudeste, que é de 7,35.

É avaliação desta redação que a leitura correta do dado não é a de que faltam apenas leitos. Leito de UTI é estrutura física, equipamento e, principalmente, equipe. Um leito habilitado sem intensivista, sem enfermagem em escala completa e sem fisioterapia não funciona como UTI. Discutir a última posição do Piauí apenas pelo número de leitos instalados, sem discutir a equipe que ocupa esses leitos e a regulação que distribui as vagas, é discutir metade do problema.

O que a Rádio Calçada vai acompanhar

A série de monitoramento da fila de regulação do SUS no Piauí segue em curso. O próximo passo desta apuração é a extração direta dos dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, com competência atualizada, para verificar quantos leitos de UTI o Piauí tem hoje, quantos são SUS, quantos são adulto, pediátrico e neonatal, e em quais municípios estão instalados.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.

Foram procuradas a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) e o Ministério da Saúde, para que se manifestem sobre a posição do Piauí no censo nacional de medicina intensiva, sobre o número atual de leitos de UTI habilitados no estado e sobre eventual plano de ampliação da rede de terapia intensiva.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição.

Contato para manifestações: consultor@xconexoes.com.br

FISCALIZAÇÃO

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas do Piauí informação sobre auditorias em curso relativas à rede estadual de terapia intensiva e à execução dos recursos destinados a leitos de UTI.

FONTES

Associação de Medicina Intensiva Brasileira. “A Medicina Intensiva no Brasil: perfil dos profissionais e dos serviços de saúde”. Divulgação em novembro de 2024. Base: CNES/DATASUS, ANS e IBGE.

Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Levantamento sobre acesso à terapia intensiva divulgado em maio de 2026. Base: IBGE, ANS e CNES, competência dezembro de 2025.


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