Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)
O Ranking de Competitividade dos Estados, edição 2026, foi divulgado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) com desenvolvimento técnico da Tendências Consultoria. O estudo mede 27 unidades da federação em 10 pilares temáticos e mais de 90 indicadores, todos construídos a partir de bases públicas oficiais como IBGE, Datasus, Siconfi (Tesouro Nacional) e Ministério do Trabalho e Emprego.
Dentro desse resultado, quatro indicadores colocam o estado entre os quatro piores do país. São eles: desigualdade de renda, resultado primário das contas públicas, mortalidade materna e trabalho escravo. Esta reportagem trata de cada um deles separadamente, com o número do Piauí, o número do Brasil e a comparação com os demais estados.
1. Desigualdade de renda: 26º lugar entre 27
O indicador usado é o Índice de Gini da renda do trabalho, calculado pelo IBGE a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. O Gini é uma escala que vai de 0 a 1. Quanto mais perto de zero, mais parecidos são os salários dentro do estado. Quanto mais perto de 1, maior a distância entre quem ganha mais e quem ganha menos.
O Piauí marcou 0,546. A média do Brasil é 0,491. Santa Catarina, o melhor colocado, marcou 0,406.
Na prática, isso significa que a renda do trabalho no Piauí é mais concentrada do que na média nacional e mais concentrada do que em todos os outros estados do Nordeste. Alagoas está em 0,491, Bahia em 0,480, Ceará em 0,507, Pernambuco em 0,502, Maranhão em 0,514, Paraíba em 0,519, Rio Grande do Norte em 0,530 e Sergipe em 0,536. Apenas o Distrito Federal, com 0,557, está atrás do Piauí.
Não se trata de um resultado isolado de um ano. Nas edições anteriores do mesmo estudo, o Piauí ocupou a 26ª posição em 2022, a 27ª em 2023, a 26ª em 2024 e a 26ª em 2025.
2. Resultado primário: déficit de 1,50% do PIB, o 25º do país
O resultado primário é a diferença entre o que o estado arrecada e o que ele gasta no ano, sem contar juros e amortização de dívida. Quando é negativo, significa que o governo empenhou mais despesa do que a receita que entrou no caixa naquele exercício. O dado é extraído do Siconfi, o sistema do Tesouro Nacional onde os estados prestam contas.
O Piauí registrou déficit primário de 1,50% do PIB estadual. A média do Brasil é um déficit de 0,21%. O estado ficou na 25ª posição, atrás de todos os vizinhos do Nordeste. Alagoas fechou com superávit de 0,47%, o melhor resultado do país. Rio Grande do Norte teve superávit de 0,20%, Maranhão de 0,05% e Sergipe de 0,01%. Bahia (déficit de 0,48%), Pernambuco (0,53%) e Ceará (0,76%) tiveram déficits menores que o piauiense. Apenas Goiás, com 1,62%, e Paraíba, com 1,87%, ficaram atrás do Piauí.
A série histórica do indicador mostra que o problema é recorrente. O Piauí foi o último colocado do país em 2018, 2019, 2022 e 2024, e o 26º em 2021 e 2023.
É avaliação desta redação que esse número precisa ser lido junto com outro resultado da mesma edição do estudo, no qual o Piauí aparece em primeiro lugar do Brasil na taxa de investimentos, com 17,04% da receita corrente líquida aplicada em investimento. O estado investe mais que todos os outros e, ao mesmo tempo, é um dos que mais gastam além da receita do ano. No mesmo levantamento, a dívida consolidada líquida do Piauí equivale a 71,27% da receita corrente líquida, contra 30,21% do Ceará e 35,61% da Bahia.
3. Mortalidade materna: 83,1 mortes por 100 mil nascidos vivos, o 25º do país
O indicador é calculado pelo Datasus e mede quantas mulheres morrem por causas ligadas à gravidez, ao parto ou ao pós-parto, a cada 100 mil bebês nascidos vivos.
No Piauí, a taxa é de 83,1. A média nacional é de 55,5. Rondônia, o melhor resultado do país, ficou em 32,4.
O Piauí está atrás de todos os estados do Nordeste. Pernambuco registrou 44,6, Alagoas 50,4, Ceará 51,0, Sergipe 52,1, Paraíba 54,6, Bahia 62,1, Rio Grande do Norte 70,2 e Maranhão 73,3. Só Goiás, com 87,0, e Roraima, com 132,6, apresentaram taxas piores.
A queda no ranking foi acentuada. Na edição anterior do estudo, o Piauí estava em 12º lugar neste mesmo indicador. Passou para 25º. O relatório técnico do CLP registra que o Piauí teve o segundo maior recuo do país no pilar de Sustentabilidade Social, com perda de cinco posições, e cita a mortalidade materna, com queda de 13 posições, entre as causas dessa retração.
4. Trabalho escravo: 5,99 resgatados por 100 mil, o 25º do país
O indicador mede quantos trabalhadores foram encontrados em condições análogas à de escravo pela Inspeção do Trabalho, a cada 100 mil pessoas em idade de trabalhar. A fonte é o Radar da Inspeção do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, cruzado com dados populacionais do IBGE.
O Piauí registrou 5,99. O Ceará registrou 0,56, o Pernambuco 0,33 e o Rio Grande do Norte e Sergipe zero. Apenas Roraima, com 8,01, e Goiás, com 13,03, apresentaram números piores que o piauiense. Na edição anterior do estudo, o Piauí era o último colocado do país neste indicador.
Aqui cabe uma ressalva metodológica que o próprio relatório do CLP faz e que esta reportagem repete: o indicador de Trabalho Escravo não foi atualizado nesta edição. O número usado é de 2023. Ou seja, o dado é real e oficial, mas não retrata necessariamente a situação de 2026. Qualquer leitura sobre a evolução recente do problema no estado depende de dados novos da Inspeção do Trabalho.
O que o estudo mede e o que não mede
O Ranking de Competitividade dos Estados não é uma auditoria de contratos nem uma investigação sobre gestão. É um retrato comparativo, construído com dados que os próprios órgãos públicos federais publicam.
Os quatro indicadores tratados aqui têm anos de referência diferentes entre si, o que consta do material técnico do CLP. Desigualdade de renda e resultado primário usam dados de 2025. Mortalidade materna usa dados de 2024. Trabalho escravo usa dados de 2023.
É avaliação desta redação que o conjunto desses quatro números aponta para um mesmo ponto: os piores resultados do Piauí no estudo estão concentrados em áreas que afetam diretamente a vida da população mais pobre, e não em indicadores de imagem ou de estrutura administrativa. No mesmo levantamento, o estado aparece em primeiro lugar do Brasil em oferta de serviços públicos digitais e em taxa de investimentos.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.
Foram procuradas as seguintes partes: Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Estado da Fazenda (SEFAZ-PI), Secretaria de Estado do Planejamento (SEPLAN-PI), Secretaria de Estado da Saúde (SESAPI), Superintendência Regional do Trabalho no Piauí e Centro de Liderança Pública (CLP).
As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição, no espaço desta reportagem.
Contato para manifestações: consultor@xconexoes.com.br
ACOMPANHAMENTO INSTITUCIONAL
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), ao Ministério Público de Contas (MPC-PI) e ao Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) informação sobre a existência de acompanhamento em curso relativo ao resultado primário das contas estaduais e aos indicadores de mortalidade materna do estado.
FONTES DESTA REPORTAGEM
Ranking de Competitividade dos Estados, edição 2026, Centro de Liderança Pública (CLP) e Tendências Consultoria. Relatório técnico e planilha completa de indicadores.
Desigualdade de renda: IBGE, SIDRA, tabela 7453. Resultado primário: Siconfi, Secretaria do Tesouro Nacional, Relatório Resumido da Execução Orçamentária. Mortalidade materna: Datasus, Ministério da Saúde, e IBGE. Trabalho escravo: Radar da Inspeção do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego, e IBGE, SIDRA, tabela 9514.














