São 13,5% dos domicílios ligados à rede geral, contra uma média nacional de 70,4%. O estado tem 601 quilômetros de rede coletora para 251 mil quilômetros quadrados de território. Na capital, a cobertura chegou a 59%. No interior, é de 5%. E o orçamento estadual registra, em quatro anos, uma única nota de obra que menciona a palavra esgoto
Por Trabulo Neto
Treze vírgula cinco por cento.
Esse é o percentual de domicílios do Piauí ligados à rede geral de esgoto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2024, divulgada pelo IBGE em agosto de 2025. É o menor índice entre as 27 unidades da federação.
A média brasileira é de 70,4%. São Paulo, primeiro colocado, tem 94,1%. Depois do Piauí, na lanterna, vêm Amapá, Rondônia e Pará.
Não é um número novo, e não é culpa de um governo só. É o retrato de uma ausência que atravessa décadas. Mas é também um número que ganhou uma data de validade: pelo Marco Legal do Saneamento, o Brasil inteiro deve ter 90% da população com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.
O Piauí não vai cumprir esse prazo. O contrato que o Estado assinou para resolver o problema estabelece a mesma meta de 90%, mas para 2040, sete anos depois do limite legal.
Esta reportagem examina como se chegou aqui, quanto o Estado empenhou na área nos últimos quatro anos e o que está apostado no contrato que deve mudar o quadro.
PARTE 1: O TAMANHO DO BURACO
601 quilômetros
O Piauí tem 601 quilômetros de rede de esgoto e 5.253 quilômetros de rede de água, segundo o levantamento que o próprio governo do Estado divulgou ao anunciar a concessão dos serviços, em dezembro de 2024.
Para cada quilômetro de rede coletora de esgoto, há 8,7 quilômetros de rede de água.
Para dar dimensão: 601 quilômetros é menos que a distância rodoviária entre Teresina e Fortaleza. É a rede coletora inteira de um estado de 251 mil quilômetros quadrados, o nono maior do país em extensão, com 224 municípios e 3,38 milhões de habitantes.
Os números da falta
| Indicador | Piauí | Referência |
|---|---|---|
| Domicílios ligados à rede geral de esgoto | 13,5% | Média nacional: 70,4% |
| Posição nacional | 27ª de 27 | Líder: São Paulo, 94,1% |
| População com coleta e tratamento | cerca de 17% | Meta contratual: 90% até 2040 |
| Cobertura no interior do estado | cerca de 5% | |
| Cobertura em Teresina | 59% | |
| Tratamento do esgoto coletado em Teresina | 19,19% | Média das capitais bem colocadas: acima de 78% |
| Extensão da rede de esgoto | 601 km | Rede de água: 5.253 km |
Fontes: PNAD Contínua 2024 (IBGE); Governo do Estado do Piauí, dezembro de 2024; Águas do Piauí; Ranking do Saneamento 2025 e 2026, Instituto Trata Brasil, com base no SINISA.
O país inteiro está devendo, mas nem todos na mesma medida
O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil com a GO Associados, sobre os 100 municípios mais populosos do país, mostra a escala da desigualdade brasileira: nos vinte municípios mais bem colocados, a coleta de esgoto alcança 98,08% da população. Nos vinte piores, 28,06%. No tratamento, os melhores chegam a 77,97% e os piores a 28,36%.
No conjunto do país, cerca de 90 milhões de brasileiros, ou 43,3% da população, não têm coleta de esgoto.
O estudo aponta ainda que mais da metade dos 100 maiores municípios investe menos de R$ 100 por habitante por ano em saneamento, quando a referência do Plano Nacional de Saneamento Básico para universalizar até 2033 é de R$ 225 por habitante.
PARTE 2: DOIS PIAUÍS
O dado mais importante desta reportagem não é o 13,5%. É a distância entre dois números do mesmo estado.
Teresina: 59%. Interior: 5%.
A capital saiu de 19% de cobertura de esgoto em 2017 para 59%, segundo a concessionária Águas de Teresina, do grupo Aegea, que assumiu o serviço naquele ano mediante pagamento de R$ 72 milhões de outorga à Agespisa. No mesmo período, as perdas na distribuição de água caíram pela metade.
Em março de 2026, Teresina foi o município que mais avançou no Ranking do Saneamento, com salto de 14 posições, impulsionado justamente pela ampliação do esgoto e pela redução de perdas. Segundo o governo estadual, a capital saiu da 84ª para a 62ª posição entre as 100 maiores cidades do país, e é a que mais investe em saneamento no Nordeste, com média de R$ 187,68 por habitante e R$ 322,10 por habitante apenas em 2024. Desde 2017, a capital recebeu mais de R$ 1,1 bilhão em investimentos.
Isso é avanço real e precisa ser reconhecido.
Mas Teresina tem 3,3% do território piauiense e cerca de um quarto da população. Os outros 223 municípios ficam do lado de fora dessa curva. E é do interior que vem o número de 5%.
O contraste também aparece dentro da capital. Teresina coleta 59% do esgoto, mas trata apenas 19,19% do que coleta, segundo o Ranking do Saneamento 2025, com base nos dados do SINISA de 2023. Está entre as quatro capitais brasileiras que tratam menos de 20% do esgoto coletado, ao lado de Porto Velho (12,18%), Macapá (14,42%) e São Luís (15,89%).
Coletar sem tratar significa que o esgoto sai da casa e chega ao rio.
O interior que não aparece nas estatísticas
O Piauí tem cerca de 160 municípios com menos de 10 mil habitantes, e 1,05 milhão de pessoas vivendo em área rural, o equivalente a 31,06% da população estadual. É a maior proporção de população rural entre os estados brasileiros, contra uma média nacional de 12,09%.
Segundo a PNAD Contínua 2024, apenas 9,4% dos domicílios rurais brasileiros têm ligação à rede geral de esgoto. No Piauí, onde a proporção de população rural é quase o triplo da média, o efeito se multiplica.
PARTE 3: O CUSTO EM INTERNAÇÃO E MORTE
Falta de esgoto não é questão de conforto. É questão de hospital.
| Indicador | Valor | Fonte |
|---|---|---|
| Internações por doenças de veiculação hídrica no Piauí, 2024 | 6.908 | DATASUS |
| Óbitos por essas doenças no Piauí, 2024 | 83 | DATASUS |
| Participação dessas doenças no total de internações, Piauí | 6,12% | Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí, base 2017 |
| Mesma participação, média do Brasil | 2,28% | Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí, base 2017 |
| Municípios piauienses sem serviço particular de saúde, dependentes só do SUS | 154 de 224 | Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí |
| Internações por doenças ligadas ao saneamento no Brasil, 2024 | 344,4 mil | Trata Brasil e EX Ante Consultoria |
O documento que embasou a própria concessão estadual registra que a participação dessas doenças no total de internações do Piauí é quase três vezes a média nacional.
E registra outra coisa: em 154 dos 224 municípios piauienses não existe serviço particular de saúde. Quem adoece por água contaminada nesses lugares só tem o SUS.
Diarreia, verminose, hepatite A, leptospirose, esquistossomose. São doenças com nome antigo e causa conhecida. Segundo a presidente executiva do Trata Brasil, Luana Pettro, o avanço do saneamento reduz diretamente a incidência de doenças de veiculação hídrica.
PARTE 4: O QUE O ESTADO EMPENHOU
Aqui entra o levantamento próprio desta reportagem, feito sobre as 616.033 notas de empenho publicadas pelo Portal da Transparência do Estado do Piauí entre 13 de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026.
Uma nota
Em três anos e sete meses, o governo do Estado emitiu uma única nota de empenho no elemento de despesa Obras e Instalações cuja descrição menciona a palavra esgoto.
Ela vale R$ 909.065,81, foi emitida em favor da Castel Consultoria e Assessoria Técnica Ltda, sob o contrato interno 26/2023, e seu objeto declarado é a elaboração de projetos básicos.
Nenhuma rede é construída com ela. É o desenho da rede.
Por que parecia haver mais
Numa primeira leitura, a base registra R$ 117.129.585,97 em 266 notas de obra ligadas a esgoto. Lendo nota a nota, o quadro muda.
Em 265 dessas notas, que somam R$ 116.220.520,16, a palavra esgoto aparece apenas no nome da ação orçamentária, não na descrição do que foi contratado.
A ação se chama implantação e ampliação dos sistemas de coleta de resíduos, sistema de abastecimento de água, módulos sanitários e esgotamento sanitário da zona urbana e rural. É uma linha guarda-chuva que agrupa quatro objetos distintos.
O que as observações dessas 265 notas descrevem, uma a uma, é abastecimento de água. Exemplos transcritos da base:
- Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Santa Maria dos Moreiras II e Extrema, na zona rural de Canto do Buriti.
- Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Lagoa Nova e Pão de Açúcar, na zona rural de Várzea Branca.
- Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Barra e Jatobá, na zona rural de Padre Marcos.
Ampliando o corte para todas as 1.533 notas de obra do período cuja descrição menciona zona rural, povoado ou localidade, que somam R$ 1,13 bilhão, nenhuma menciona esgoto.
E a rubrica que deveria medir o esforço rural
A subfunção orçamentária chamada Saneamento Básico Rural registra, em todo o período, duas notas de empenho e R$ 862.616,75, ambas emitidas em dezembro de 2023, ambas custeadas com operação de crédito, ou seja, com dinheiro emprestado. Desde 22 de dezembro de 2023 ela não recebe nenhum empenho.
Enquanto isso, R$ 243.877.838,75 em 462 notas de obra rural de água estão classificados em outras oito subfunções, e a maior parcela, R$ 94.749.231,04, aparece sob o nome de Saneamento Básico Urbano.
Na rubrica urbana, 79,7% do valor tem observação que menciona zona rural, povoado ou localidade.
O que isso significa
O Estado investiu em água na zona rural, e o valor cresce ano a ano: R$ 22,59 milhões em 2023, R$ 40,87 milhões em 2024, R$ 66,62 milhões em 2025 e R$ 113,80 milhões até agosto de 2026.
Mas não construiu esgoto, e a forma como o orçamento nomeia as ações torna essa distinção invisível para quem consulta os números de fora.
É avaliação desta redação que essa é a informação central da reportagem: o Piauí é o último do país em esgoto, e o orçamento estadual dos últimos quatro anos não registra uma única obra de rede coletora.
PARTE 5: A APOSTA
Em 30 de outubro de 2024, na B3, em São Paulo, o governo do Piauí leiloou a concessão dos serviços de água e esgoto dos 224 municípios.
Houve uma única proposta. O grupo Aegea venceu.
O contrato tem 35 anos de duração, prevê investimento de R$ 8,6 bilhões nos dez primeiros anos e cerca de R$ 9,6 bilhões no total, e a outorga paga ao poder público soma R$ 1 bilhão, sendo duas parcelas iniciais de R$ 250 milhões.
As metas contratuais:
| Meta | Prazo |
|---|---|
| 99% da população com abastecimento de água | 2033 |
| 90% dos domicílios com coleta e tratamento de esgoto | 2040 |
O contrato é apresentado pelo governo como pioneiro por incluir a zona rural, algo inédito num projeto de saneamento no país. Beneficiaria cerca de 1,85 milhão de piauienses.
A transição terminou em 26 de julho de 2025, quando a concessionária Águas do Piauí assumiu integralmente a operação. A Agespisa, estatal que operava o serviço, foi liquidada.
A empresa informou que planejava investir mais de R$ 1,1 bilhão no primeiro ano de concessão. Segundo publicação do Portal O Dia em janeiro de 2026, a concessionária afirmou ter investido R$ 200 milhões em projetos estruturantes no período, com foco em ampliação de produção e vazão de água, modernização de sistemas e enfrentamento da estiagem.
O que precisa ser fiscalizado a partir daqui
O modelo transfere ao setor privado a obrigação de resolver um problema que o poder público não resolveu em décadas. Isso não é ilegal nem incomum: é o desenho previsto no Marco Legal do Saneamento e adotado em vários estados.
Mas cria três frentes de acompanhamento que a imprensa e os órgãos de controle precisam manter abertas:
Primeira, o cumprimento das metas. A meta de esgoto é para 2040, sete anos depois do prazo legal de 2033. Há metas intermediárias no contrato, e é sobre elas que o acompanhamento deve incidir agora, não em 2040.
Segunda, a fiscalização. Quem fiscaliza é a Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Estado do Piauí, a AGRESPI. A capacidade técnica e orçamentária dessa agência para acompanhar um contrato de R$ 9,6 bilhões em 224 municípios é questão pública.
Terceira, a tarifa. Universalizar custa, e o custo aparece na conta. O contrato prevê tarifa social, e a execução dela é o que separa a universalização do acesso da universalização do serviço no papel.
Em julho de 2026, o Ministério Público do Piauí apontou falhas operacionais em Piracuruca e leituras zeradas de hidrômetros em Fronteiras, episódios que dão a dimensão do trabalho de fiscalização que se inicia.
PARTE 6: O QUE O GOVERNO APRESENTA
Por dever de equilíbrio, os números que o próprio Estado divulga.
Segundo dados do IBGE citados pelo governo em abril de 2026, 88,3% dos domicílios piauienses têm acesso à água pela rede geral e 90,6% dos domicílios ligados à rede recebem água todos os dias da semana, a maior proporção do Nordeste e acima da média nacional de 88,5%.
O Estado informou investimentos de R$ 200 milhões em água em 2025, com destaque para o Plano de Enfrentamento à Estiagem, de R$ 83 milhões, que segundo o governo retirou 15 municípios do mapa de déficit hídrico, ampliou a produção em 3,6 milhões de litros por hora e beneficiou mais de 280 mil piauienses.
E Teresina, como já registrado, foi o município que mais avançou no Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil.
O desempenho da água melhorou. É fato, está medido e o governo tem razão em divulgá-lo.
O que esta reportagem mostra é que o desempenho do esgoto não acompanhou, e que a assimetria entre os dois indicadores é a explicação mais simples para o Piauí seguir em último lugar num e bem colocado no outro.
AS PERGUNTAS
- Qual o cronograma de metas intermediárias de esgotamento sanitário previsto no contrato de concessão, ano a ano, por município?
- Qual o percentual de cumprimento dessas metas até agosto de 2026?
- Quantos quilômetros de rede coletora foram entregues desde o início da concessão, e em quais municípios?
- Qual o orçamento, o quadro técnico e o número de fiscalizações realizadas pela AGRESPI desde julho de 2025?
- Por que a meta de esgoto do contrato é 2040, e não 2033, prazo do Marco Legal do Saneamento?
- Qual o Plano Estadual de Saneamento Básico vigente e qual o percentual de execução das suas metas?
- Por que o orçamento estadual não registra obra de rede coletora de esgoto entre 2023 e 2026?
- Qual a justificativa técnica para classificar como Saneamento Básico Urbano obras cuja descrição menciona expressamente zona rural?
- Qual foi o destino do projeto básico contratado em 2023, pelo contrato interno 26/2023, no valor de R$ 909.065,81? Gerou obra? Qual?
- Quantos domicílios piauienses foram ligados à rede de esgoto entre 1º de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026?
RESSALVAS DE MÉTODO
Os valores de empenho são de empenho original, que é o compromisso formal de gasto, e não de pagamento efetivo.
A identificação das obras de esgoto depende do texto das notas de empenho. Obras descritas de outra forma, ou executadas pela Agespisa e pela concessionária sob classificação própria, não são medidas por este recorte. Investimentos da concessionária privada não integram o orçamento estadual e não constam desta base.
Os indicadores de cobertura têm anos-base distintos, indicados caso a caso: PNAD Contínua 2024 do IBGE; SINISA 2023 e 2024, via Ranking do Saneamento; e levantamentos do próprio governo estadual e da concessionária.
Esta reportagem não afirma irregularidade. Ela apresenta indicadores oficiais, execução orçamentária e o desenho do contrato que deve alterar o quadro.
O QUE SE PEDE
A Rádio Calçada solicita ao governo do Estado do Piauí o Plano Estadual de Saneamento Básico vigente, o cronograma de metas intermediárias do Contrato 648/2024 e o balanço de execução até agosto de 2026, com a relação de quilômetros de rede entregues e domicílios ligados, por município.
Solicita à AGRESPI o relatório de fiscalização da concessão desde julho de 2025, com o número de vistorias e as sanções aplicadas.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Governo do Estado do Piauí, Secretaria das Cidades, Secretaria do Saneamento Básico do Piauí, Instituto de Saneamento Básico do Piauí, Instituto de Águas e Esgotos do Piauí, Microrregião de Água e Esgoto do Estado do Piauí (MRAE), Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Estado do Piauí (AGRESPI), Águas do Piauí S.A., Águas de Teresina Saneamento SPE, Prefeitura de Teresina e Castel Consultoria e Assessoria Técnica Ltda. As respostas serão publicadas na íntegra.
A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre eventual acompanhamento da execução do contrato de concessão e das metas de esgotamento sanitário.
Contato: consultor@xconexoes.com.br














