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agosto 30, 2026 18:54

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O Piauí é o último do Brasil em rede de esgoto

São 13,5% dos domicílios ligados à rede geral, contra uma média nacional de 70,4%. O estado tem 601 quilômetros de rede coletora para 251 mil quilômetros quadrados de território. Na capital, a cobertura chegou a 59%. No interior, é de 5%. E o orçamento estadual registra, em quatro anos, uma única nota de obra que menciona a palavra esgoto

Por Trabulo Neto

Treze vírgula cinco por cento.

Esse é o percentual de domicílios do Piauí ligados à rede geral de esgoto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2024, divulgada pelo IBGE em agosto de 2025. É o menor índice entre as 27 unidades da federação.

A média brasileira é de 70,4%. São Paulo, primeiro colocado, tem 94,1%. Depois do Piauí, na lanterna, vêm Amapá, Rondônia e Pará.

Não é um número novo, e não é culpa de um governo só. É o retrato de uma ausência que atravessa décadas. Mas é também um número que ganhou uma data de validade: pelo Marco Legal do Saneamento, o Brasil inteiro deve ter 90% da população com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.

O Piauí não vai cumprir esse prazo. O contrato que o Estado assinou para resolver o problema estabelece a mesma meta de 90%, mas para 2040, sete anos depois do limite legal.

Esta reportagem examina como se chegou aqui, quanto o Estado empenhou na área nos últimos quatro anos e o que está apostado no contrato que deve mudar o quadro.

PARTE 1: O TAMANHO DO BURACO

601 quilômetros

O Piauí tem 601 quilômetros de rede de esgoto e 5.253 quilômetros de rede de água, segundo o levantamento que o próprio governo do Estado divulgou ao anunciar a concessão dos serviços, em dezembro de 2024.

Para cada quilômetro de rede coletora de esgoto, há 8,7 quilômetros de rede de água.

Para dar dimensão: 601 quilômetros é menos que a distância rodoviária entre Teresina e Fortaleza. É a rede coletora inteira de um estado de 251 mil quilômetros quadrados, o nono maior do país em extensão, com 224 municípios e 3,38 milhões de habitantes.

Os números da falta

Indicador Piauí Referência
Domicílios ligados à rede geral de esgoto 13,5% Média nacional: 70,4%
Posição nacional 27ª de 27 Líder: São Paulo, 94,1%
População com coleta e tratamento cerca de 17% Meta contratual: 90% até 2040
Cobertura no interior do estado cerca de 5%
Cobertura em Teresina 59%
Tratamento do esgoto coletado em Teresina 19,19% Média das capitais bem colocadas: acima de 78%
Extensão da rede de esgoto 601 km Rede de água: 5.253 km

Fontes: PNAD Contínua 2024 (IBGE); Governo do Estado do Piauí, dezembro de 2024; Águas do Piauí; Ranking do Saneamento 2025 e 2026, Instituto Trata Brasil, com base no SINISA.

O país inteiro está devendo, mas nem todos na mesma medida

O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil com a GO Associados, sobre os 100 municípios mais populosos do país, mostra a escala da desigualdade brasileira: nos vinte municípios mais bem colocados, a coleta de esgoto alcança 98,08% da população. Nos vinte piores, 28,06%. No tratamento, os melhores chegam a 77,97% e os piores a 28,36%.

No conjunto do país, cerca de 90 milhões de brasileiros, ou 43,3% da população, não têm coleta de esgoto.

O estudo aponta ainda que mais da metade dos 100 maiores municípios investe menos de R$ 100 por habitante por ano em saneamento, quando a referência do Plano Nacional de Saneamento Básico para universalizar até 2033 é de R$ 225 por habitante.

PARTE 2: DOIS PIAUÍS

O dado mais importante desta reportagem não é o 13,5%. É a distância entre dois números do mesmo estado.

Teresina: 59%. Interior: 5%.

A capital saiu de 19% de cobertura de esgoto em 2017 para 59%, segundo a concessionária Águas de Teresina, do grupo Aegea, que assumiu o serviço naquele ano mediante pagamento de R$ 72 milhões de outorga à Agespisa. No mesmo período, as perdas na distribuição de água caíram pela metade.

Em março de 2026, Teresina foi o município que mais avançou no Ranking do Saneamento, com salto de 14 posições, impulsionado justamente pela ampliação do esgoto e pela redução de perdas. Segundo o governo estadual, a capital saiu da 84ª para a 62ª posição entre as 100 maiores cidades do país, e é a que mais investe em saneamento no Nordeste, com média de R$ 187,68 por habitante e R$ 322,10 por habitante apenas em 2024. Desde 2017, a capital recebeu mais de R$ 1,1 bilhão em investimentos.

Isso é avanço real e precisa ser reconhecido.

Mas Teresina tem 3,3% do território piauiense e cerca de um quarto da população. Os outros 223 municípios ficam do lado de fora dessa curva. E é do interior que vem o número de 5%.

O contraste também aparece dentro da capital. Teresina coleta 59% do esgoto, mas trata apenas 19,19% do que coleta, segundo o Ranking do Saneamento 2025, com base nos dados do SINISA de 2023. Está entre as quatro capitais brasileiras que tratam menos de 20% do esgoto coletado, ao lado de Porto Velho (12,18%), Macapá (14,42%) e São Luís (15,89%).

Coletar sem tratar significa que o esgoto sai da casa e chega ao rio.

O interior que não aparece nas estatísticas

O Piauí tem cerca de 160 municípios com menos de 10 mil habitantes, e 1,05 milhão de pessoas vivendo em área rural, o equivalente a 31,06% da população estadual. É a maior proporção de população rural entre os estados brasileiros, contra uma média nacional de 12,09%.

Segundo a PNAD Contínua 2024, apenas 9,4% dos domicílios rurais brasileiros têm ligação à rede geral de esgoto. No Piauí, onde a proporção de população rural é quase o triplo da média, o efeito se multiplica.

PARTE 3: O CUSTO EM INTERNAÇÃO E MORTE

Falta de esgoto não é questão de conforto. É questão de hospital.

Indicador Valor Fonte
Internações por doenças de veiculação hídrica no Piauí, 2024 6.908 DATASUS
Óbitos por essas doenças no Piauí, 2024 83 DATASUS
Participação dessas doenças no total de internações, Piauí 6,12% Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí, base 2017
Mesma participação, média do Brasil 2,28% Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí, base 2017
Municípios piauienses sem serviço particular de saúde, dependentes só do SUS 154 de 224 Plano Regional de Saneamento Básico do Piauí
Internações por doenças ligadas ao saneamento no Brasil, 2024 344,4 mil Trata Brasil e EX Ante Consultoria

O documento que embasou a própria concessão estadual registra que a participação dessas doenças no total de internações do Piauí é quase três vezes a média nacional.

E registra outra coisa: em 154 dos 224 municípios piauienses não existe serviço particular de saúde. Quem adoece por água contaminada nesses lugares só tem o SUS.

Diarreia, verminose, hepatite A, leptospirose, esquistossomose. São doenças com nome antigo e causa conhecida. Segundo a presidente executiva do Trata Brasil, Luana Pettro, o avanço do saneamento reduz diretamente a incidência de doenças de veiculação hídrica.

PARTE 4: O QUE O ESTADO EMPENHOU

Aqui entra o levantamento próprio desta reportagem, feito sobre as 616.033 notas de empenho publicadas pelo Portal da Transparência do Estado do Piauí entre 13 de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026.

Uma nota

Em três anos e sete meses, o governo do Estado emitiu uma única nota de empenho no elemento de despesa Obras e Instalações cuja descrição menciona a palavra esgoto.

Ela vale R$ 909.065,81, foi emitida em favor da Castel Consultoria e Assessoria Técnica Ltda, sob o contrato interno 26/2023, e seu objeto declarado é a elaboração de projetos básicos.

Nenhuma rede é construída com ela. É o desenho da rede.

Por que parecia haver mais

Numa primeira leitura, a base registra R$ 117.129.585,97 em 266 notas de obra ligadas a esgoto. Lendo nota a nota, o quadro muda.

Em 265 dessas notas, que somam R$ 116.220.520,16, a palavra esgoto aparece apenas no nome da ação orçamentária, não na descrição do que foi contratado.

A ação se chama implantação e ampliação dos sistemas de coleta de resíduos, sistema de abastecimento de água, módulos sanitários e esgotamento sanitário da zona urbana e rural. É uma linha guarda-chuva que agrupa quatro objetos distintos.

O que as observações dessas 265 notas descrevem, uma a uma, é abastecimento de água. Exemplos transcritos da base:

  • Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Santa Maria dos Moreiras II e Extrema, na zona rural de Canto do Buriti.
  • Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Lagoa Nova e Pão de Açúcar, na zona rural de Várzea Branca.
  • Implantação de sistema de abastecimento de água nas localidades Barra e Jatobá, na zona rural de Padre Marcos.

Ampliando o corte para todas as 1.533 notas de obra do período cuja descrição menciona zona rural, povoado ou localidade, que somam R$ 1,13 bilhão, nenhuma menciona esgoto.

E a rubrica que deveria medir o esforço rural

A subfunção orçamentária chamada Saneamento Básico Rural registra, em todo o período, duas notas de empenho e R$ 862.616,75, ambas emitidas em dezembro de 2023, ambas custeadas com operação de crédito, ou seja, com dinheiro emprestado. Desde 22 de dezembro de 2023 ela não recebe nenhum empenho.

Enquanto isso, R$ 243.877.838,75 em 462 notas de obra rural de água estão classificados em outras oito subfunções, e a maior parcela, R$ 94.749.231,04, aparece sob o nome de Saneamento Básico Urbano.

Na rubrica urbana, 79,7% do valor tem observação que menciona zona rural, povoado ou localidade.

O que isso significa

O Estado investiu em água na zona rural, e o valor cresce ano a ano: R$ 22,59 milhões em 2023, R$ 40,87 milhões em 2024, R$ 66,62 milhões em 2025 e R$ 113,80 milhões até agosto de 2026.

Mas não construiu esgoto, e a forma como o orçamento nomeia as ações torna essa distinção invisível para quem consulta os números de fora.

É avaliação desta redação que essa é a informação central da reportagem: o Piauí é o último do país em esgoto, e o orçamento estadual dos últimos quatro anos não registra uma única obra de rede coletora.

PARTE 5: A APOSTA

Em 30 de outubro de 2024, na B3, em São Paulo, o governo do Piauí leiloou a concessão dos serviços de água e esgoto dos 224 municípios.

Houve uma única proposta. O grupo Aegea venceu.

O contrato tem 35 anos de duração, prevê investimento de R$ 8,6 bilhões nos dez primeiros anos e cerca de R$ 9,6 bilhões no total, e a outorga paga ao poder público soma R$ 1 bilhão, sendo duas parcelas iniciais de R$ 250 milhões.

As metas contratuais:

Meta Prazo
99% da população com abastecimento de água 2033
90% dos domicílios com coleta e tratamento de esgoto 2040

O contrato é apresentado pelo governo como pioneiro por incluir a zona rural, algo inédito num projeto de saneamento no país. Beneficiaria cerca de 1,85 milhão de piauienses.

A transição terminou em 26 de julho de 2025, quando a concessionária Águas do Piauí assumiu integralmente a operação. A Agespisa, estatal que operava o serviço, foi liquidada.

A empresa informou que planejava investir mais de R$ 1,1 bilhão no primeiro ano de concessão. Segundo publicação do Portal O Dia em janeiro de 2026, a concessionária afirmou ter investido R$ 200 milhões em projetos estruturantes no período, com foco em ampliação de produção e vazão de água, modernização de sistemas e enfrentamento da estiagem.

O que precisa ser fiscalizado a partir daqui

O modelo transfere ao setor privado a obrigação de resolver um problema que o poder público não resolveu em décadas. Isso não é ilegal nem incomum: é o desenho previsto no Marco Legal do Saneamento e adotado em vários estados.

Mas cria três frentes de acompanhamento que a imprensa e os órgãos de controle precisam manter abertas:

Primeira, o cumprimento das metas. A meta de esgoto é para 2040, sete anos depois do prazo legal de 2033. Há metas intermediárias no contrato, e é sobre elas que o acompanhamento deve incidir agora, não em 2040.

Segunda, a fiscalização. Quem fiscaliza é a Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Estado do Piauí, a AGRESPI. A capacidade técnica e orçamentária dessa agência para acompanhar um contrato de R$ 9,6 bilhões em 224 municípios é questão pública.

Terceira, a tarifa. Universalizar custa, e o custo aparece na conta. O contrato prevê tarifa social, e a execução dela é o que separa a universalização do acesso da universalização do serviço no papel.

Em julho de 2026, o Ministério Público do Piauí apontou falhas operacionais em Piracuruca e leituras zeradas de hidrômetros em Fronteiras, episódios que dão a dimensão do trabalho de fiscalização que se inicia.

PARTE 6: O QUE O GOVERNO APRESENTA

Por dever de equilíbrio, os números que o próprio Estado divulga.

Segundo dados do IBGE citados pelo governo em abril de 2026, 88,3% dos domicílios piauienses têm acesso à água pela rede geral e 90,6% dos domicílios ligados à rede recebem água todos os dias da semana, a maior proporção do Nordeste e acima da média nacional de 88,5%.

O Estado informou investimentos de R$ 200 milhões em água em 2025, com destaque para o Plano de Enfrentamento à Estiagem, de R$ 83 milhões, que segundo o governo retirou 15 municípios do mapa de déficit hídrico, ampliou a produção em 3,6 milhões de litros por hora e beneficiou mais de 280 mil piauienses.

E Teresina, como já registrado, foi o município que mais avançou no Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil.

O desempenho da água melhorou. É fato, está medido e o governo tem razão em divulgá-lo.

O que esta reportagem mostra é que o desempenho do esgoto não acompanhou, e que a assimetria entre os dois indicadores é a explicação mais simples para o Piauí seguir em último lugar num e bem colocado no outro.

AS PERGUNTAS

  1. Qual o cronograma de metas intermediárias de esgotamento sanitário previsto no contrato de concessão, ano a ano, por município?
  2. Qual o percentual de cumprimento dessas metas até agosto de 2026?
  3. Quantos quilômetros de rede coletora foram entregues desde o início da concessão, e em quais municípios?
  4. Qual o orçamento, o quadro técnico e o número de fiscalizações realizadas pela AGRESPI desde julho de 2025?
  5. Por que a meta de esgoto do contrato é 2040, e não 2033, prazo do Marco Legal do Saneamento?
  6. Qual o Plano Estadual de Saneamento Básico vigente e qual o percentual de execução das suas metas?
  7. Por que o orçamento estadual não registra obra de rede coletora de esgoto entre 2023 e 2026?
  8. Qual a justificativa técnica para classificar como Saneamento Básico Urbano obras cuja descrição menciona expressamente zona rural?
  9. Qual foi o destino do projeto básico contratado em 2023, pelo contrato interno 26/2023, no valor de R$ 909.065,81? Gerou obra? Qual?
  10. Quantos domicílios piauienses foram ligados à rede de esgoto entre 1º de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026?

RESSALVAS DE MÉTODO

Os valores de empenho são de empenho original, que é o compromisso formal de gasto, e não de pagamento efetivo.

A identificação das obras de esgoto depende do texto das notas de empenho. Obras descritas de outra forma, ou executadas pela Agespisa e pela concessionária sob classificação própria, não são medidas por este recorte. Investimentos da concessionária privada não integram o orçamento estadual e não constam desta base.

Os indicadores de cobertura têm anos-base distintos, indicados caso a caso: PNAD Contínua 2024 do IBGE; SINISA 2023 e 2024, via Ranking do Saneamento; e levantamentos do próprio governo estadual e da concessionária.

Esta reportagem não afirma irregularidade. Ela apresenta indicadores oficiais, execução orçamentária e o desenho do contrato que deve alterar o quadro.

O QUE SE PEDE

A Rádio Calçada solicita ao governo do Estado do Piauí o Plano Estadual de Saneamento Básico vigente, o cronograma de metas intermediárias do Contrato 648/2024 e o balanço de execução até agosto de 2026, com a relação de quilômetros de rede entregues e domicílios ligados, por município.

Solicita à AGRESPI o relatório de fiscalização da concessão desde julho de 2025, com o número de vistorias e as sanções aplicadas.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Governo do Estado do Piauí, Secretaria das Cidades, Secretaria do Saneamento Básico do Piauí, Instituto de Saneamento Básico do Piauí, Instituto de Águas e Esgotos do Piauí, Microrregião de Água e Esgoto do Estado do Piauí (MRAE), Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Estado do Piauí (AGRESPI), Águas do Piauí S.A., Águas de Teresina Saneamento SPE, Prefeitura de Teresina e Castel Consultoria e Assessoria Técnica Ltda. As respostas serão publicadas na íntegra.

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre eventual acompanhamento da execução do contrato de concessão e das metas de esgotamento sanitário.

Contato: consultor@xconexoes.com.br

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