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julho 16, 2026 14:59

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EDITORIAL | Neste governo, a vida é prioridade?

Editorial — Rádio Calçada | Teresina, 8 de julho de 2026

Há perguntas que um governo responde com discursos. E há perguntas que um governo responde, sem querer, com o próprio diário oficial.

Nesta quarta-feira, 8 de julho de 2026, a edição nº 2052 do Diário Oficial Eletrônico do Ministério Público do Piauí publicou um documento que deveria envergonhar qualquer gestor: a Portaria PGJ/PI nº 2889/2026, que cria um grupo emergencial para vigiar o estoque de remédios de câncer do Hospital São Marcos. Leia de novo, devagar. Em 2026, no Piauí, foi preciso o Ministério Público montar uma força-tarefa para monitorar se haverá quimioterápico na prateleira do único hospital de alta complexidade oncológica do estado, o único habilitado a tratar câncer infantil em todo o território piauiense. A portaria fala em “plano de contingenciamento”. Contingenciar, no vocabulário da gestão pública, é o verbo educado para racionar. E o que se raciona, aqui, não é papel de ofício. É o medicamento que separa um paciente da metástase.

Cinco dias antes, o São Marcos havia fechado a porta para novos pacientes oncológicos do SUS. Quem receber um diagnóstico de câncer no Piauí nesta semana será encaminhado a unidades sem a mesma habilitação, sem a mesma estrutura, sem a mesma experiência acumulada em décadas. Qualquer oncologista dirá o óbvio: em câncer, tempo é prognóstico. A lei federal dá 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento. A fila, agora, começa antes mesmo da fila.

O hospital pediu R$ 4 milhões a mais por mês para reabrir a porta. E aqui entra o número que este editorial não vai deixar passar: no custeio mensal da oncologia do São Marcos, a fatia do Governo do Estado do Piauí é de R$ 900 mil. Novecentos mil reais. É o menor cheque da mesa. O município de Teresina paga R$ 3,5 milhões — quase quatro vezes mais — para sustentar um hospital que atende pacientes de todo o Piauí e até do Maranhão: 59% dos atendidos nem sequer moram na capital. A própria Fundação Municipal de Saúde, em nota pública, pediu que o Estado amplie sua contribuição. Não foi a oposição quem pediu. Foi o parceiro federativo, com a planilha na mão.

Alguém dirá: o Estado não tem de onde tirar. Tem. E a Rádio Calçada sabe exatamente de onde, porque contou empenho por empenho.

Entre 2023 e maio de 2026, o governo Rafael Fonteles empenhou R$ 381,5 milhões em shows, eventos e entretenimento. Foram 1.902 empenhos, 92,4% deles sem licitação competitiva — na canetada da inexigibilidade, da dispensa, do “não aplicável”. A Governadoria, um gabinete que não é secretaria de cultura nem de turismo, concentrou sozinha R$ 141 milhões desse bolo. Em 2026, ano de eleição, o ritmo acelerou: R$ 50 milhões em cinco meses. Dez milhões de reais por mês em palco, som, luz e cachê.

Façamos a conta que o governo não quer que o leitor faça. Dez milhões por mês para shows. Novecentos mil por mês para a oncologia do São Marcos. Onze vezes mais para a festa do que para a quimioterapia. Um único show do DJ Alok, contratado sem licitação por R$ 1,8 milhão, custou o equivalente a dois meses de tudo o que o Estado repassa ao hospital que trata o câncer dos piauienses. E os R$ 4 milhões mensais que reabririam a porta do São Marcos a novos pacientes? Cabem dentro de 40% do que o Estado gasta por mês com entretenimento. Cabem quatro vezes dentro do orçamento mensal do palco.

Sejamos rigorosos, porque rigor é o que nos diferencia: o financiamento da oncologia é tripartite, a Tabela SUS defasada é um problema federal, e a crise do São Marcos tem mais de uma causa. Nada disso é invenção deste editorial, e nada disso o governo estadual controla sozinho. Mas há uma coisa que ele controla inteiramente, sem depender de Brasília, de Teresina ou de ninguém: a ordem das próprias prioridades. Ninguém obrigou o Palácio de Karnak a gastar R$ 381 milhões com shows. Ninguém obrigou a Governadoria a virar a maior produtora de eventos do Piauí. Ninguém impediu o Estado de reajustar, em três anos e meio, os R$ 900 mil que repassa ao São Marcos — congelados enquanto o preço dos quimioterápicos subia e a fila de pacientes crescia. Cada uma dessas escolhas foi feita livremente, assinada, publicada, empenhada. Escolha por escolha, o orçamento foi contando a verdade que o discurso esconde.

E ainda há quem prepare o próximo ato: a proposta de LDO 2027 abre caminho para que cada deputado estadual destine até R$ 8,8 milhões de emendas a shows e eventos escolhidos por decreto do governador. Potencial de mais R$ 264 milhões para o palco — no mesmo estado em que o Ministério Público precisa auditar a geladeira de medicamentos do hospital do câncer.

Orçamento público é um documento moral. Ele diz, com a frieza dos dígitos, aquilo que um povo — ou um governo — decidiu amar mais. O orçamento do Piauí, hoje, diz que uma noite de forró patrocinada vale mais do que um mês de quimioterapia. Diz que o palco tem fila preferencial e o câncer tem contingenciamento. Diz, enfim, a resposta da pergunta que dá título a este editorial.

Neste governo, a vida é prioridade? A resposta não está nos discursos. Está empenhada, publicada em diário oficial, contratada sem licitação — e internada, esperando vaga, na porta fechada do São Marcos.

A Rádio Calçada seguirá contando. Empenho por empenho, edição por edição, remédio por remédio.


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