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julho 16, 2026 18:12

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TRÊS NAVIOS PARADOS NO MAR DO PIAUÍ. CADÊ O GOVERNADOR? CADÊ A IMPRENSA?

O helicóptero do “momento histórico” pousou, os releases secaram e o mar de Luís Correia : o rastreamento de hoje  mostra o graneleiro oceânico MARINE VICTORY fundeado a 0,5 nó, com chegada declarada desde 14 de junho, e mais duas embarcações paradas. Quase um mês depois, nem o governo explica, nem a imprensa pergunta.

Investigação e denúncias: Jornalistas Trabulo Neto 0002880/PI e Trabulo Júnior 0014965/DF

No dia 29 de junho, Rafael Fonteles sobrevoou de helicóptero a atracação do graneleiro Konta II em Luís Correia e declarou que “muita gente dizia que o navio não atracaria”. O navio atracou. A foto foi feita. O release circulou em dezenas de portais no mesmo dia, com as mesmas frases, na mesma ordem.

Doze dias depois, esta redação abriu o rastreamento marítimo e encontrou o que nenhum release mostra: o navio que deveria levar o minério do Piauí para a China continua parado no mar.

O QUE O MAR MOSTRA E A PROPAGANDA ESCONDE

É fato que o registro AIS obtido por esta redação mostra o MARINE VICTORY, graneleiro de bandeira da Libéria, fundeado ao largo de Luís Correia a 0,5 nó de velocidade. É fato que a chegada declarada da embarcação no sistema é 14 de junho, às 14h.

Faça a conta. Se a chegada declarada é 14 de junho, o navio oceânico está na costa piauiense há quase um mês. E o primeiro graneleiro só atracou no cais no dia 29. É fato, portanto, que o navio que deveria estar cruzando o Atlântico passou ao menos quinze dias esperando a carga sequer começar a ser embarcada.

No transporte marítimo, navio parado não é paisagem. É relógio ligado. Sobre-estadia de embarcação tem nome, demurrage, e tem preço, pago em dólar, por dia. Quem paga essa conta na operação inaugural do Porto Piauí é a pergunta de um milhão de dólares que ninguém no Piauí fez até hoje.

A MATEMÁTICA QUE O RELEASE NÃO FEZ

A própria divulgação oficial informa: a operação inaugural prevê mais de 110 mil toneladas de minério, e o Konta II carrega cerca de 9 mil toneladas por viagem até a área de transbordo, a 30 quilômetros da costa, onde a carga passa por um navio-pulmão antes de chegar ao navio oceânico.

CADÊ O GOVERNADOR?

É fato que Rafael Fonteles visitou o porto em 19 de junho, acompanhou a atracação em 29 de junho e classificou a operação como histórica. É fato que, desde então, a comunicação oficial do governo não publicou um único balanço operacional: nenhum número de viagens concluídas, nenhuma tonelagem embarcada, nenhuma data de partida do navio.

É avaliação desta redação que o governador que fez questão de helicóptero para a foto da chegada deve ao contribuinte a mesma diligência para explicar a espera. A Companhia Porto Piauí é empresa de capital misto. Há dinheiro público na operação. Navio parado no mar não é problema privado da Lion Mining, é questão de economicidade de um empreendimento estatal que o governo apresenta como vitrine.

CADÊ A IMPRENSA?

É fato que dezenas de portais piauienses publicaram, entre 29 e 30 de junho, matérias celebrando o início das operações, reproduzindo integralmente o material de divulgação oficial, incluindo a estimativa de economia. É fato que, nos doze dias seguintes, esta redação não localizou uma única matéria em veículo do estado perguntando por que o navio oceânico segue fundeado.

É avaliação desta redação que isso tem explicação, e ela é estrutural: redação que vive de publicidade do governo cobre inauguração, não cobre operação. A pergunta incômoda não sai porque o boleto do mês depende de quem deveria respondê-la. A Rádio Calçada não recebe um centavo de publicidade estatal justamente para poder abrir o rastreamento e publicar o que o mar mostra.

É avaliação desta redação, ainda, que o histórico do empreendimento agrava o dever de vigilância. Ao longo de 2026, esta redação documentou as controvérsias sobre a profundidade do canal de acesso, os contratos de dragagem e os termos de ajustamento de conduta firmados em torno da obra. A cadência real do transbordo não é detalhe técnico. É o teste de tudo aquilo que o governo prometeu e a imprensa aplaudiu sem conferir.

CONTRADITÓRIO

A reportagem encaminha à Companhia Porto Piauí S.A., ao Grupo Investe Piauí e ao Governo do Estado do Piauí os seguintes questionamentos e solicita resposta:

  1. Em que data o MARINE VICTORY chegou à área de fundeio ao largo de Luís Correia e qual a data prevista de partida com a carga completa?
  2. Quantas viagens de transbordo o Konta II completou desde 29 de junho e qual a tonelagem já transferida ao navio oceânico?
  3. Há incidência de demurrage ou custo de sobre-estadia na operação? Em caso positivo, qual o valor diário, em qual moeda, e quem arca com o custo: a Lion Mining, a Companhia Porto Piauí ou terceiros?
  4. Quais são as demais embarcações fundeadas na área de transbordo, qual a função de cada uma e desde quando estão posicionadas?
  5. O cronograma da operação inaugural previa quantos dias de permanência do navio oceânico na costa? O cronograma está sendo cumprido?
  6. A profundidade do canal de acesso ou as condições de mar impuseram restrição ao ritmo das viagens desde 29 de junho?
  7. Qual o custo total da operação inaugural para a Companhia Porto Piauí e onde esse custo está publicado?
  8. Por que a comunicação oficial do governo não divulgou nenhum balanço operacional desde 30 de junho?

AOS ÓRGÃOS DE CONTROLE

A reportagem solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas do Piauí e ao Ministério Público do Estado do Piauí que informem se têm conhecimento da cadência operacional da exportação inaugural do Porto Piauí, se acompanham os custos incorridos pela Companhia Porto Piauí, empresa de capital misto, na operação de transbordo, incluindo eventual sobre-estadia de embarcações fundeadas há semanas na costa, e quais medidas de fiscalização da economicidade pretendem adotar.

A redação está à disposição para publicar na íntegra as respostas de todos os órgãos e empresas citados.


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