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julho 28, 2026 07:19

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Hospital Regional de Amarante passa junho inteiro sem fazer um único ultrassom.

Censo oficial da unidade, enviado ao Tribunal de Contas, revela exames de imagem parados, um terço dos internados transferidos para outras cidades e números que não fecham

Por Trabulo Jr e Trabulo Neto

O Hospital Regional de Amarante Dr. Francisco Ayres Cavalcante, no Piauí, não realizou nenhum exame de ultrassonografia durante todo o mês de junho de 2026. A informação está no próprio censo hospitalar da unidade, documento oficial assinado digitalmente e encaminhado ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI). O relatório aponta ainda serviços de cardiologia parados, um alto índice de transferências de pacientes e inconsistências nos números apresentados.

Segundo o censo, das oito modalidades de ultrassom oferecidas em papel pela unidade — abdominal, gestacional, mamária, de próstata, pélvica, transvaginal, de tireoide e de vias urinárias —, nenhuma teve um único procedimento registrado no mês. O eletrocardiograma (ECG) e o cardiotocógrafo, exame que monitora o batimento do bebê durante a gestação, também aparecem zerados. De todo o setor de imagem, o hospital contabilizou apenas 210 exames, todos de raio-x.

O que uma gestante perde sem o ultrassom

O Ministério da Saúde recomenda que toda gestante realize ao menos uma ultrassonografia no pré-natal, idealmente entre a 11ª e a 14ª semana, justamente porque é esse exame que confirma a idade gestacional com precisão, detecta gravidez de gêmeos, avalia a posição da placenta e identifica malformações e alterações no desenvolvimento do bebê ainda no início da gestação.

Sem acesso ao ultrassom no hospital de referência, a gestante fica dependente de conseguir o exame em outro município ou na rede privada — o que, na prática, significa que mulheres de menor renda podem chegar ao parto sem nunca ter feito uma única imagem do bebê. Problemas que poderiam ser detectados a tempo — como restrição de crescimento, placenta mal posicionada ou uma gravidez de risco — passam despercebidos, transformando situações que seriam contornáveis em emergências no momento do parto. Em uma unidade que, segundo o próprio censo, registrou apenas dois partos e cinco internações obstétricas no mês, a falta do cardiotocógrafo — aparelho que monitora os batimentos do bebê — soma-se ao problema e reduz ainda mais a capacidade de acompanhar uma gestação com segurança.

Especialistas ponderam que o ultrassom não substitui um pré-natal clínico de qualidade e que, em cenários de recursos limitados, os casos de maior risco devem ser priorizados. Ainda assim, oferecer zero exame ao longo de um mês inteiro deixa toda a rede sem essa ferramenta básica de diagnóstico.

Um a cada três internados foi transferido

O documento mostra uma unidade que funciona, sobretudo, como porta de entrada de urgência. Foram 4.045 atendimentos na emergência em junho, incluindo quase 1.800 consultas médicas. Na internação, porém, o quadro chama atenção: das cerca de 44 internações no período, 33 pacientes precisaram ser transferidos para outros hospitais — praticamente um encaminhamento para cada paciente internado. O censo registra ainda três óbitos no mês.

O perfil de gravidade dos atendimentos, medido pela classificação de risco, concentra-se nas faixas de menor urgência: os casos verdes (1.032) e amarelos (584) representam a ampla maioria, enquanto os vermelhos (12) e laranjas (103), de maior gravidade, somam parcela reduzida — comportamento típico de um hospital regional de baixa e média complexidade.

Números que não fecham no documento oficial

Além dos serviços parados, o relatório apresenta divergências internas. O censo informa 1.988 atendimentos de classificação de risco na emergência, mas a soma das cinco cores da triagem resulta em 1.834 — uma diferença de 154 pacientes sem explicação no documento. Vários campos de totais (fisioterapia, ultrassom e internações) aparecem em branco, e o número de pacientes internados surge de duas formas distintas na mesma folha: 44 na tabela de internação e 46 no quadro consolidado.

Chama atenção, ainda, a concentração dos procedimentos de emergência: das mais de 2.100 intervenções registradas, 2.101 foram injeções — praticamente tudo o que a unidade contabilizou como procedimento no setor. No consolidado do mês, o hospital somou 6.761 atendimentos e procedimentos.

O outro lado

A reportagem procurou a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) e a direção do Hospital Regional de Amarante para esclarecer os motivos da paralisação dos exames de ultrassom, ECG e cardiotocógrafo, o volume de transferências e as divergências nos números do censo. O espaço permanece aberto para manifestação.

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