São 3.631 das 6.501 pessoas, ou 55,9%, acima dos 52,4 dias que a Sesapi apresenta como tempo médio de espera. A secretaria não publica a fórmula do cálculo. Seiscentas e cinquenta e duas dessas pessoas aguardam há mais de um ano, e a primeira da lista pediu a cirurgia em junho de 2023.
Esta reportagem traz, ao final, o método completo da medição, para que qualquer pessoa possa refazê-la.
Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)
O que este trabalho fez
Em 15 de agosto de 2026, a lista trazia 6.501 registros.
A Rádio Calçada verificou uma característica dessa lista que ninguém havia explorado: ela é ordenada pela data em que o médico pediu a cirurgia, da mais antiga para a mais recente. Quem está na posição 1 é quem pediu primeiro. Quem está na última posição pediu ontem.
Isso muda tudo. Se a fila é ordenada por data, basta ler a data de solicitação em pontos distribuídos ao longo da lista para reconstruir quanto tempo cada pedaço da fila está esperando. Foi o que esta redação fez, em 15 pontos espalhados do primeiro ao último colocado. O método está aberto na seção final desta reportagem, com as posições lidas e as datas encontradas, uma a uma.
O resultado é a primeira medição pública do tempo real de espera de quem ainda está na fila de cirurgia do Piauí. E o primeiro achado é o que dá título a esta reportagem: 3.631 pessoas, ou 55,9% da fila, já esperam há mais tempo do que os 52,4 dias que o Governo do Estado apresenta como média.
Os números
Entre as 6.501 pessoas que aguardam:
A espera média é de 135 dias.
A espera mediana, ou seja, o valor que divide a fila ao meio, é de 64 dias.
Um quarto da fila espera há menos de 24 dias. Outro quarto espera há mais de 167 dias.
2.496 pessoas, ou 38,4% da fila, esperam há mais de três meses.
1.515 pessoas, ou 23,3%, esperam há mais de seis meses.
652 pessoas, ou 10% da fila inteira, esperam há mais de um ano.
150 pessoas esperam há mais de dois anos. Oito delas, há mais de três.
A maior espera registrada é de 1.166 dias. É a primeira pessoa da lista, cuja solicitação médica tem data de 6 de junho de 2023 e cujo registro foi criado no sistema em 8 de novembro de 2023. Em 15 de agosto de 2026, ela continuava na fila. São três anos e dois meses.
Onde a conta não fecha
Em 17 de janeiro de 2026, Anderson Martins, diretor de Organização Hospitalar da Sesapi, informou que o tempo médio de espera por cirurgia eletiva no Piauí caiu de 464 dias em 2022 para 52,4 dias em 2025, uma redução de quase 90%. A fonte declarada foi o próprio sistema estadual de regulação.
Confrontado com a lista pública do mesmo sistema, o número produz o seguinte resultado:
3.631 das 6.501 pessoas da fila, ou 55,9%, já esperam há mais tempo do que a média que o Estado divulga.
Os dois números podem conviver, e é exatamente aí que está a pergunta desta reportagem. Uma média calculada apenas entre quem já foi operado não diz nada sobre quem continua esperando. É um efeito estatístico conhecido: quem sai da fila rápido entra na conta, e quem está preso nela há dois anos, não. Uma média contada a partir da data do agendamento da cirurgia, e não da data em que o médico a pediu, também produz número menor, porque descarta todo o tempo que a pessoa passou aguardando ser chamada.
A Sesapi não publica a fórmula do cálculo em nenhum lugar.
É avaliação desta redação que um indicador de tempo de espera divulgado sem a metodologia ao lado não informa o cidadão sobre nada que lhe seja útil.
Há um agravante. O Governo do Estado já divulgou pelo menos quatro números diferentes para essa mesma medida. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde replicou a queda de 464 para 67 dias. O portal oficial do Governo do Piauí divulgou 59,6 dias. A Sesapi, pela voz de Anderson Martins, divulgou 52,4 dias em 17 de janeiro de 2026. Três dias depois, em 20 de janeiro, no balanço apresentado no Palácio de Karnak, o número citado foi de aproximadamente 52 dias.
Um piauiense em cada 521
A estimativa populacional do IBGE divulgada em 28 de agosto de 2025 aponta 3.384.547 habitantes no Piauí.
Com 6.501 pessoas na fila de cirurgia eletiva, o estado tem 192 pessoas esperando cirurgia para cada 100 mil habitantes. Ou, dito de outro modo, um piauiense em cada 521 está nessa fila.
Aqui é preciso um cuidado que a maior parte das reportagens sobre filas do SUS não toma. Esse número, sozinho, não permite dizer se o Piauí está melhor ou pior que os outros estados.
O que o Piauí mostra
Cada linha da lista piauiense traz sete campos: a posição, um número de documento de 15 dígitos, o número da solicitação, a data do pedido médico, as iniciais do paciente, a data de nascimento completa e a data em que o registro foi criado.
Convém desfazer uma versão que circula: o Piauí não publica nomes completos. O campo do paciente traz apenas iniciais, do tipo “C M D S”. Esta redação conferiu em cinco páginas diferentes da lista.
O ponto não é o nome. É a combinação. O número de 15 dígitos começa por 7 e tem o formato do Cartão Nacional de Saúde, o registro que identifica cada usuário do SUS no Brasil inteiro. A conclusão sobre o formato é desta redação; a secretaria não informa na página de que documento se trata.
Um identificador único, mais a data de nascimento por extenso, mais o procedimento que a pessoa aguarda, é o que a Lei Geral de Proteção de Dados, a Lei 13.709 de 2018, chama de dado de pessoa identificável, no artigo 5º, inciso I. E informação sobre saúde é classificada pela mesma lei como dado sensível, no inciso II do mesmo artigo. Traduzindo: a lei manda tratar informação de saúde com cuidado maior do que o das demais, e considera identificável quem pode ser reconhecido por cruzamento com outras bases, mesmo sem o nome aparecer.
A lista de Mato Grosso do Sul traz uma coluna de prioridade, além do tempo de espera e da previsão de atendimento em meses. A lista do Piauí não tem campo de prioridade. Ela é ordenada estritamente por data de solicitação. Pela lista pública, não é possível saber se um caso mais grave está sendo puxado para frente.
Registre-se o que esta afirmação diz e o que ela não diz. Ela não afirma que o sistema de regulação do Piauí deixe de considerar gravidade. Afirma que a lista publicada ao cidadão não permite verificar isso.
O dado que foi para o Ministério Público e não para o cidadão
Em 11 de junho de 2025, a 12ª Promotoria de Justiça de Teresina e a Sesapi firmaram acordo sobre transparência da fila do SUS. Pelo que se divulgou à época, a secretaria se comprometeu a criar em seu site um espaço dedicado à transparência da fila e a dar ao Ministério Público acesso ao mês estimado de atendimento de cada paciente.
A previsão de atendimento não consta da lista pública.
Ou seja, a informação mais útil para quem espera, a de quando a vez pode chegar, foi acertada com o Ministério Público e não chegou a quem está na fila. Mato Grosso do Sul publica essa previsão, em meses, para cada pessoa.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Estado do Piauí a íntegra do acordo.
O dinheiro
O Piauí recebeu recursos federais para reduzir filas. A Resolução CIB-PI nº 008 de 2023 aprovou o Plano de Trabalho para Redução das Filas de Cirurgias Eletivas do estado, contemplando as 11 Regiões de Saúde, com repasse de R$ 9.251.808,75. Para 2024, a Portaria GM/MS 2.336 de 2023 destinou ao Piauí R$ 18.503.617,51, dentro de um total de R$ 1,2 bilhão distribuído aos estados conforme a população.
O plano piauiense assume o compromisso expresso de priorização pela fila única do sistema de regulação estadual, chamado HYDRA.
COMO ESTA REPORTAGEM MEDIU
Esta seção existe para que a medição possa ser conferida, contestada e refeita por qualquer pessoa, dentro ou fora desta redação. Nenhum número acima depende de fonte anônima, documento reservado ou interpretação de bastidor. Tudo saiu de uma lista que o próprio Estado publica.
O achado que tornou a medição possível
A lista pública da fila de cirurgia eletiva do Piauí é ordenada pela data da solicitação médica, da mais antiga para a mais recente.
Isso significa que a posição na fila é uma função direta da data do pedido: quanto menor a posição, mais antigo o pedido, maior a espera. Não há como uma posição intermediária ter data mais antiga que a anterior.
A consequência prática é decisiva. Não é preciso baixar os 6.501 registros para conhecer a espera de todos. Basta ler a data em pontos distribuídos ao longo das 651 páginas e preencher os intervalos entre eles por interpolação. Como a ordenação é monótona, o erro de cada ponto interpolado fica limitado pela distância entre os dois pontos lidos que o cercam.
Esta redação não coletou nem armazenou os campos de identificação dos pacientes. Foram lidas apenas duas colunas: posição e data da solicitação médica.
Os pontos lidos
Quinze leituras, do primeiro ao último colocado. Cada leitura devolveu dez linhas, correspondentes a uma página da lista. A tabela traz posição e data da solicitação médica.
| Posição | Data do pedido | Posição | Data do pedido | |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 06/06/2023 | 1.301 | 22/01/2026 | |
| 2 | 06/07/2023 | 1.310 | 22/01/2026 | |
| 41 | 20/03/2024 | 1.951 | 10/04/2026 | |
| 50 | 11/04/2024 | 1.960 | 13/04/2026 | |
| 141 | 13/08/2024 | 2.391 | 13/05/2026 | |
| 150 | 15/08/2024 | 2.601 | 21/05/2026 | |
| 291 | 15/01/2025 | 2.610 | 21/05/2026 | |
| 300 | 21/01/2025 | 3.251 | 12/06/2026 | |
| 441 | 13/05/2025 | 3.260 | 12/06/2026 | |
| 450 | 14/05/2025 | 3.901 | 02/07/2026 | |
| 651 | 14/08/2025 | 3.910 | 02/07/2026 | |
| 660 | 19/08/2025 | 4.551 | 17/07/2026 | |
| 991 | 14/11/2025 | 4.560 | 17/07/2026 | |
| 1.000 | 17/11/2025 | 6.491 | 14/08/2026 | |
| 6.500 | 14/08/2026 |
Total informado pela própria lista: 6.501 registros. Data de referência de todos os cálculos: 15 de agosto de 2026.
O tempo de espera de cada posição é a diferença, em dias, entre a data da solicitação médica ali registrada e 15 de agosto de 2026.
O resultado, em uma tabela
| Medida | Resultado |
|---|---|
| Pessoas na fila | 6.501 |
| Espera média de quem ainda aguarda | 135 dias |
| Espera mediana | 64 dias |
| Um quarto da fila espera menos de | 24 dias |
| Um quarto da fila espera mais de | 167 dias |
| Maior espera registrada | 1.166 dias, ou 3 anos e 2 meses |
| Esperam há mais de 3 meses | 2.496 pessoas, 38,4% |
| Esperam há mais de 6 meses | 1.515 pessoas, 23,3% |
| Esperam há mais de 1 ano | 652 pessoas, 10,0% |
| Esperam há mais de 2 anos | 150 pessoas, 2,3% |
| Esperam há mais de 3 anos | 8 pessoas, 0,1% |
| Esperam mais que os 52,4 dias oficiais | 3.631 pessoas, 55,9% |
| Fila por 100 mil habitantes | 192 |
| Proporção da população | 1 em cada 521 |
População de referência: 3.384.547 habitantes, estimativa do IBGE divulgada em 28 de agosto de 2025.
Os limites desta medição
O total muda todo dia. Novas solicitações são acrescentadas ao fim da lista. O número de 6.501 é o que a própria página informava em 15 de agosto de 2026. Uma leitura feita em outra data encontrará outro total, e é por isso que toda afirmação desta reportagem vem com a data colada.
A interpolação é uma estimativa, não um censo. Entre dois pontos lidos, a curva foi preenchida por linha reta. Onde os pontos lidos estão mais distantes entre si, o erro é maior. Os números de corte apresentados acima, como as 652 pessoas com mais de um ano de espera, foram construídos em trechos em que há ponto lido praticamente sobre o corte: a posição 651 tem data de 14 de agosto de 2025, ou seja, exatamente um ano antes da data de referência. Esse recorte específico é, portanto, leitura direta e não estimativa.
A lista mede solicitações, não necessariamente pessoas distintas. Uma mesma pessoa pode ter mais de um pedido de cirurgia registrado. A lista pública não permite verificar duplicidades, porque não há como agrupar registros sem tratar os identificadores, o que esta redação optou por não fazer.
A lista cobre apenas cirurgia eletiva. Não inclui consultas especializadas nem exames, que formam filas próprias e não são objeto desta medição.
A leitura automatizada exige conferência. Numa das leituras, a ferramenta usada devolveu nove linhas que não existiam na página. O erro foi identificado ao conferir cada leitura contra o contador de registros exibido pela própria lista, no formato “6.491 a 6.500 de 6.501”. Toda leitura desta apuração passou por essa conferência, e os números publicados já estão corrigidos. Fica o registro, porque é o tipo de erro que passa despercebido e contamina uma reportagem inteira.
Como refazer a medição
O procedimento é simples e está descrito acima na íntegra: identificar as posições, ler a data da solicitação médica em cada uma, calcular a diferença para a data da leitura, interpolar os intervalos.
Refeita em outra data, a medição responde a uma pergunta que o Estado não publica: a fila envelheceu ou rejuvenesceu? Se a espera mediana subir de uma leitura para outra, a fila está andando mais devagar do que entra gente nela. Se cair, o contrário. É esse número, e não a média de quem já operou, que descreve a experiência de quem está esperando.
A Rádio Calçada repetirá a medição e publicará a comparação.
O que segue em apuração
O ato normativo estadual que instituiu o sistema de regulação do Piauí e autorizou a publicação da fila com identificador e data de nascimento. Não foi localizado nenhum.
O contrato do sistema HYDRA: fornecedor, valor, prazo e modalidade de contratação.
A identificação do encarregado de proteção de dados da Sesapi e a existência de relatório de impacto à proteção de dados sobre a lista pública, previstos na Lei Geral de Proteção de Dados.
A fórmula exata do tempo médio de espera divulgado pelo Estado.
A íntegra do acordo firmado com o Ministério Público em junho de 2025.
A distribuição da fila por município do Piauí, para verificar se a espera se concentra no interior ou na capital.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.
Solicita manifestação da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí sobre: qual ato normativo autoriza a publicação da fila de cirurgia eletiva com identificador do paciente e data de nascimento completa; qual a base legal indicada para o tratamento desse dado pessoal sensível; quem é o encarregado de proteção de dados da secretaria; se existe relatório de impacto à proteção de dados sobre a lista pública; qual a fórmula de cálculo do tempo médio de espera de 52,4 dias; por que o Estado divulgou pelo menos quatro números distintos para essa mesma medida; por que a previsão de atendimento, acordada com o Ministério Público, não consta da lista pública; se a fila de cirurgia eletiva observa classificação de risco e por que essa classificação não aparece na lista; e qual a situação das 652 pessoas que aguardam há mais de um ano e das 150 que aguardam há mais de dois.
Solicita manifestação do Ministério Público do Estado do Piauí sobre o acompanhamento do acordo firmado em 11 de junho de 2025 com a Sesapi e sobre a íntegra do respectivo instrumento.
Solicita manifestação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados sobre a publicação, em portal aberto e sem autenticação, de listas de espera do SUS contendo identificador único de paciente e data de nascimento completa.
Solicita manifestação do Tribunal de Contas do Estado do Piauí e do Ministério Público de Contas do Estado do Piauí sobre a aplicação dos recursos federais do Programa Nacional de Redução das Filas no estado.
Solicita manifestação do Ministério da Saúde sobre a existência de base consolidada e comparável das filas estaduais e sobre o painel nacional de filas anunciado em maio de 2026.
As respostas serão publicadas na íntegra.
Contatos: consultor@xconexoes.com.br e WhatsApp 86.9.9991.9990.
Ficha técnica
A planilha completa do levantamento, com a verificação linha a linha de cada unidade federativa, está à disposição de quem quiser conferir.














