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agosto 23, 2026 20:09

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EDITORIAL: A prioridade não é a vida?

Há uma pessoa esperando por uma cirurgia no Piauí.

Não sabemos o nome dela.

Sabemos apenas que ela está na posição 2.400 de uma fila. O pedido médico foi feito em 13 de maio de 2026. Quando os dados foram analisados, já eram 93 dias de espera.

Noventa e três dias.

Quase três meses.

Para quem olha uma planilha, é apenas um número.

Para quem está esperando, é tempo de vida.

É acordar todos os dias sem saber quando a cirurgia vai acontecer.

É adiar planos.

É conviver com uma dor que talvez não apareça em nenhum relatório.

É explicar para a família que ainda não chamaram.

É ligar novamente para saber se “saiu alguma coisa”.

É esperar.

E esperar.

E esperar.

POR TRÁS DO NÚMERO, EXISTE UMA PESSOA

O governo apresenta números sobre a fila. Fala em tempo médio de espera.

Em setembro de 2025, a média divulgada era de 59,6 dias. Em janeiro de 2026, 52,4 dias.

Mas existe uma diferença entre uma média e uma vida.

A média pode melhorar enquanto alguém continua esperando meses.

A média pode cair enquanto uma família continua angustiada.

É por isso que queremos fazer uma pergunta simples:

quantas pessoas estão esperando há mais de 60 dias?

E há mais de 120?

Quantas delas estão com dor?

Quantas já precisaram parar de trabalhar?

Quantas estão apenas esperando uma ligação?

Essas são as perguntas que uma média não responde.

PARA O PACIENTE, A ESPERA COMEÇA ANTES

Há outro detalhe que merece atenção.

Nas dez posições que analisamos próximas da posição 2.400, os pedidos médicos eram de 13 de maio.

Mas os registros de entrada na fila aparecem em datas que vão de 1º de junho a 5 de agosto.

Não estamos dizendo que houve intenção de esconder ou diminuir o tempo de espera.

Estamos dizendo apenas que existe uma diferença entre a data em que o médico diz “você precisa da cirurgia” e a data em que o paciente aparece oficialmente na fila.

E, para quem está doente, o sofrimento não começa quando o computador registra.

Começa quando o médico dá a notícia.

DINHEIRO PÚBLICO TAMBÉM PRECISA CHEGAR À VIDA REAL

O Governo do Piauí investiu valores expressivos na saúde.

Entre os empenhos analisados, estão R$ 258 milhões destinados à empresa responsável por serviços de teleconsulta e laudos de eletrocardiograma e R$ 1,46 bilhão para organizações sociais que administram hospitais da rede.

Não estamos dizendo que esses contratos são ilegais.

O contrato de telemedicina foi considerado regular pelo Tribunal de Contas, e o procedimento do Ministério Público sobre ele foi arquivado.

Mas existe uma pergunta que continua de pé:

depois do diagnóstico, quem vai fazer a cirurgia?

Porque uma tela pode ajudar a encontrar o problema.

Mas não entra na sala de cirurgia.

Não segura a mão do paciente.

Não faz o procedimento.

E não coloca fim à espera.

SAÚDE NÃO É UMA DISPUTA DE NÚMEROS

Em março, o governo divulgou 1,5 milhão de atendimentos. Segundo os dados apresentados, 1,15 milhão eram telelaudos.

É um número expressivo.

Mas precisamos ter cuidado para não transformar pessoas em estatísticas.

Um laudo é importante.

Uma consulta é importante.

Uma cirurgia também é importante.

Mas são coisas diferentes.

No fim do dia, o que importa para quem está esperando não é quantos atendimentos aparecem no relatório.

É saber:

“Quando vão me operar?”

Essa pergunta talvez não apareça em nenhum painel.

Mas é a pergunta que existe dentro de muitas casas do Piauí.

NÃO É SOBRE ACUSAR. É SOBRE OLHAR PARA QUEM ESPERA.

Este editorial não acusa médicos.

Não acusa servidores.

Não acusa empresas.

Não afirma que exista ilegalidade nos contratos mencionados.

Também não pretende atribuir má-fé a quem administra a saúde.

A crítica é outra.

É sobre distância.

Quando estamos muito longe de uma fila, ela vira um número.

Quando estamos dentro dela, cada dia tem outro peso.

Por isso, o Estado precisa mostrar não apenas a média, mas também a realidade de quem está nas pontas da fila.

Quantas pessoas esperam?

Há quanto tempo?

Quantas cirurgias foram contratadas?

Quantas foram realizadas?

Onde estão os gargalos?

São perguntas legítimas de quem paga impostos e depende do serviço público.

TRANSPARÊNCIA É OLHAR NOS OLHOS

Não estamos dizendo que todo problema da saúde se resolve com cirurgia.

Estamos pedindo algo mais simples:

que o cidadão consiga enxergar a própria fila.

Que seus dados pessoais estejam protegidos.

Que seja possível saber quantas cirurgias estão sendo feitas.

Que seja possível comparar o que foi prometido com o que foi entregue.

Porque transparência não é apenas publicar números.

É permitir que uma mãe entenda por que o filho continua esperando.

É permitir que um trabalhador saiba quando poderá voltar à sua rotina.

É permitir que uma pessoa doente não se sinta esquecida.

A saúde pública pode ter sistemas, gráficos, metas e indicadores.

Mas antes de tudo isso existe uma pessoa.

E nenhuma planilha consegue medir a angústia de quem olha para o telefone todos os dias esperando uma ligação.

A pergunta não é apenas quanto tempo a fila está demorando.

A pergunta é:

QUANTO VALE O TEMPO DE QUEM ESTÁ ESPERANDO?

Porque 93 dias podem ser apenas um número para quem olha de fora.

Para quem está dentro da fila, são 93 dias da própria vida.

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