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agosto 23, 2026 20:44

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Navio que faria o vaivém do minério do Porto Piauí declara rota para Fortaleza

Depois de 55 dias na operação, o Konta II aponta para o Ceará e o cargueiro que deveria levar 110 mil toneladas à China continua fundeado na costa piauiense com o mesmo calado de dez dias atrás

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

O navio graneleiro Konta II, embarcação escolhida para fazer o transporte do minério de ferro entre o cais de Luís Correia e a área de fundeio em alto-mar, aparecia neste sábado (22) com destino declarado para Fortaleza, no Ceará.

A informação consta do sistema de rastreamento VesselFinder, que reúne os sinais de AIS emitidos pelas próprias embarcações. Na consulta feita pela Rádio Calçada, o Konta II (IMO 8530283, bandeira do Panamá) registrava destino FORTALEZA [BR FOR], previsão de chegada em 23 de agosto às 8h, calado de 4,2 metros e última posição recebida a cerca de 30 quilômetros a nordeste do porto de Luís Correia.

O AIS é o sistema de identificação automática que todo navio de grande porte precisa manter ligado. O campo “destino” é preenchido pela tripulação e pode ser alterado a qualquer momento. Ele indica para onde o navio informa que vai, e não confirma o que ele carrega.

A promessa e a conta

A operação foi apresentada pelo Governo do Estado como a primeira exportação de minério de ferro da história do Piauí por estrutura portuária própria.

O Konta II atracou no berço 401 do Terminal de Uso Privado em 29 de junho de 2026. A primeira atracação de navio de carga do porto foi acompanhada pelo governador Rafael Fonteles, que sobrevoou a manobra de helicóptero.

Em 5 de agosto, por volta das 9h, o navio deixou o cais levando 9 mil toneladas de minério extraído em Piripiri, segundo comunicado da Companhia Porto Piauí S.A. reproduzido pela imprensa local.

O destino final anunciado é a China. O minério sairia do Piauí a bordo do Marine Victory, cargueiro de classe Capesize com 250 metros de comprimento e 114.091 toneladas de porte bruto, carregado em alto-mar pela técnica conhecida como transbordo, ou transhipment.

A meta divulgada pela companhia é de mais de 110 mil toneladas em uma única viagem internacional. Com 9 mil toneladas transportadas por vez, são necessárias mais de doze viagens do navio menor entre o cais e a área de fundeio para completar essa carga.

Em 7 de agosto, a companhia informou o início do transbordo em alto-mar, a cerca de 22 quilômetros da costa. Em declarações reproduzidas pela imprensa por volta de 17 de agosto, o presidente da Companhia Porto Piauí, Raimundo Dias, afirmou que o carregamento do Marine Victory deveria ser concluído nos dias seguintes, quando o navio seguiria viagem para a China. Na mesma ocasião, informou que o Konta II descarregava naquele dia e que o Konta III estava no porto para carregar, num giro contínuo entre o cais e a área offshore.

O que o rastreamento mostra agora

Neste sábado (22), o Marine Victory (IMO 9455533, bandeira da Libéria) aparecia no VesselFinder com situação de navegação “fundeado”, velocidade de 0,3 nó e destino declarado BR LUIS CORREIA, com previsão de chegada vencida em 14 de agosto às 18h. O calado registrado era de 8,3 metros.

Esse mesmo calado de 8,3 metros já constava do rastreamento em 12 de agosto, quando o navio deixou o fundeadouro de Icoaraci, na região de Belém, e retornou à costa piauiense. Dez dias depois, o número não mudou.

Calado é a profundidade da parte submersa do casco. Quanto mais carga o navio recebe, mais fundo ele afunda e maior fica o calado. Um navio que está sendo carregado tende a mostrar aumento progressivo desse número.

É avaliação desta redação que o conjunto desses registros levanta uma dúvida objetiva sobre o estágio real do carregamento, e que essa dúvida só pode ser respondida pela companhia com o dado que ela tem e ainda não divulgou: quantas toneladas de minério já foram efetivamente transferidas para o Marine Victory desde 7 de agosto.

Vale o registro de que o calado informado pelo AIS é declarado pela tripulação, e não medido de forma automática. Ele é um indício, não uma prova.

As perguntas em aberto

O Governo do Estado anunciou a operação como marco histórico e como prova de viabilidade do porto. Passados 55 dias entre a primeira atracação e este sábado, e 17 dias desde a saída da primeira carga do cais, a Rádio Calçada não localizou comunicado oficial informando a conclusão do carregamento nem a partida do navio para a China.

A Rádio Calçada quer saber:

  1. Quantas toneladas de minério de ferro já foram transferidas para o Marine Victory até esta data.
  2. Quantas viagens o Konta II e o Konta III realizaram entre o cais e a área de fundeio desde 5 de agosto.
  3. Se o Konta II segue vinculado à operação do Porto Piauí e qual o motivo da rota declarada para Fortaleza.
  4. Qual a nova data prevista para a partida do Marine Victory com destino à China.
  5. Qual o custo diário da permanência das embarcações na costa piauiense e quem arca com esse custo.
  6. Se há contrato de afretamento firmado pela Companhia Porto Piauí S.A. ou pelo Grupo Investe Piauí com os armadores das embarcações, e qual o valor.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Companhia Porto Piauí S.A., Grupo Investe Piauí, Governo do Estado do Piauí, Secretaria de Estado da Comunicação Social e Lion Mining.

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes.

Contatos: consultor@xconexoes.com.br e WhatsApp 86.9.9991.9990.

FISCALIZAÇÃO

A Rádio Calçada solicita ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ao Ministério Público de Contas e ao Ministério Público do Estado do Piauí que apurem os custos assumidos pelo poder público com a operação portuária de Luís Correia, incluindo eventuais despesas com permanência de embarcações, e que verifiquem a transparência dos contratos da Companhia Porto Piauí S.A.

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