Francisco da Costa Araújo Filho, o Araujinho, sogro do governador, aparece na base de empenhos do Estado em três frentes: a construtora, os consórcios e o próprio CPF. O Ministério Público do Piauí investiga contratos do grupo desde 2024, invocando o artigo da lei que veda a participação de parentes do chefe do Executivo em licitações do próprio governo
Por Trabulo Neto
O empresário Francisco da Costa Araújo Filho, conhecido como Araujinho, sogro do governador Rafael Fonteles, recebeu do governo do Estado do Piauí, em empresas e em nome próprio, R$ 240.999.548,78 em 343 notas de empenho entre 13 de janeiro de 2023 e 25 de agosto de 2026.
O levantamento foi feito pela Rádio Calçada sobre a base de 616.033 notas de empenho publicada pelo Portal da Transparência do Estado, cruzada com o quadro societário registrado na Receita Federal sob o CPF do empresário.
O valor se divide em três frentes.
| Frente | Empenhado | Notas |
|---|---|---|
| Construtora e Incorporadora Soma Ltda | R$ 182.587.994,90 | 153 |
| Consórcios SS 06 e SS 12 | R$ 53.071.816,76 | 39 |
| Pessoa física, CPF 101.580.493-49 | R$ 4.935.117,52 | 23 |
| Piauí Administradora de Imóveis Ltda | R$ 404.619,60 | 7 |
| Total | R$ 240.999.548,78 | 343 |
A construtora: R$ 182,5 milhões e a rodovia como principal cliente
A Construtora e Incorporadora Soma Ltda, CNPJ 03.611.978/0001-88, tem o empresário no quadro societário desde 24 de fevereiro de 2006, portanto dezessete anos antes do início desta gestão.
A empresa recebeu R$ 182.587.994,90 em 153 notas de empenho no período.
| Ano | Notas | Empenhado |
|---|---|---|
| 2023 | 74 | R$ 56.481.816,78 |
| 2024 | 38 | R$ 45.581.596,82 |
| 2025 | 26 | R$ 61.526.255,81 |
| 2026 (até 25/08) | 15 | R$ 18.998.325,49 |
O principal contratante é o Departamento de Estradas de Rodagem do Piauí, com R$ 99.737.880,47 em 107 notas, ou 54,6% do total.
| Unidade gestora | Notas | Empenhado |
|---|---|---|
| Departamento de Estradas de Rodagem do Piauí | 107 | R$ 99.737.880,47 |
| Companhia Ferroviária e de Logística do Piauí | 5 | R$ 22.085.118,63 |
| Secretaria de Integração e Desenvolvimento Regional | 10 | R$ 18.421.329,80 |
| Secretaria do Desenvolvimento Econômico | 6 | R$ 16.690.363,50 |
| Secretaria da Assistência Técnica e Defesa Agropecuária | 3 | R$ 13.473.671,51 |
| Instituto de Desenvolvimento do Piauí (IDEPI) | 12 | R$ 8.335.854,05 |
| Demais cinco unidades | 10 | R$ 3.843.776,94 |
Os empenhos se distribuem por 21 números de contrato, alguns anteriores à gestão, como o PJU/016/2019, o PJU/030/2019 e o 91/2018.
O rito é competitivo em 98,2% do valor:
| Modalidade | Notas | Empenhado |
|---|---|---|
| Concorrência | 130 | R$ 141.842.300 |
| Regime Diferenciado de Contratações | 5 | R$ 22.085.120 |
| Tomada de preços | 9 | R$ 15.436.110 |
| Dispensa de licitação | 9 | R$ 3.224.486 |
O objeto é obra em quase toda a extensão: R$ 179.149.800 no elemento Obras e Instalações. As maiores notas:
| Data | Valor | Modalidade | Objeto declarado |
|---|---|---|---|
| 19/03/2025 | R$ 10.790.901,33 | Regime Diferenciado | Implantação e serviços de engenharia |
| 09/04/2025 | R$ 10.416.123,20 | Concorrência | Conclusão da infraestrutura de parque empresarial |
| 20/03/2025 | R$ 8.230.926,79 | Tomada de preços | Pavimentação de estrada vicinal na PI-115 |
| 11/09/2024 | R$ 6.516.139,85 | Concorrência | Contrato 004/2023, conservação da malha rodoviária |
| 24/02/2023 | R$ 5.164.060,65 | Concorrência | Medições do contrato 030/2019 |
Registro necessário de método: os valores desta reportagem são de empenho, e não de contrato assinado. Um contrato pode ser assinado num ano e empenhado ao longo de vários. É por isso que o valor aqui apurado difere dos valores de contrato divulgados em outras publicações.
Os consórcios: mais R$ 53 milhões
Além da contratação direta, a empresa aparece na base por meio de dois consórcios com CNPJ próprios:
| Consórcio | CNPJ | Notas | Empenhado |
|---|---|---|---|
| Consórcio SS 06 | 52.856.530/0001-30 | 24 | R$ 36.169.699,10 |
| Consórcio SS 12 | 52.851.121/0001-40 | 15 | R$ 16.902.117,66 |
Segundo apuração publicada pelo Portal AZ em abril de 2026, o Consórcio SS é formado pela Construtora e Incorporadora Soma e pela Construtora Solução Ltda, esta pertencente a Felipe de Santana Machado, o Felipinho, descrito pela publicação como próximo do governador.
Ressalva obrigatória: em consórcio, o valor empenhado é da pessoa jurídica consorcial e se reparte entre as consorciadas conforme o percentual de participação definido no compromisso de constituição. A Rádio Calçada não teve acesso a esse documento e, portanto, não afirma que os R$ 53 milhões pertencem integralmente a uma das duas empresas.
A Construtora Solução, separadamente, é a segunda maior contratada de obras do governo no período, com R$ 656.323.655,92 consolidados sob o mesmo CNPJ, sob duas razões sociais.
A pessoa física: R$ 4,9 milhões, tudo em aluguel, tudo por dispensa
O CPF 101.580.493-49 aparece na base como credor direto do Estado em 23 notas de empenho, somando R$ 4.935.117,52.
Todas são de locação de imóvel. Todas saíram por dispensa de licitação. Todas com recurso livre do Tesouro estadual.
| Ano | Notas | Empenhado |
|---|---|---|
| 2023 | 12 | R$ 1.434.327,67 |
| 2024 | 3 | R$ 1.153.476,34 |
| 2025 | 3 | R$ 1.216.846,15 |
| 2026 (até 25/08) | 5 | R$ 1.130.467,36 |
São dois contratos, ambos anteriores a esta gestão:
Contrato 02/2013, Secretaria da Administração e Previdência. R$ 4.281.197,27 em 11 notas. As observações registram serviços de locação de imóvel, com pagamentos bimestrais e trimestrais que chegam a R$ 966.941,88 numa única nota, em 31 de janeiro de 2024.
Contrato 013/2018, Instituto de Terras do Piauí. R$ 653.920,25 em 12 notas, pagamentos mensais entre R$ 28,6 mil e R$ 41 mil, referentes à locação do imóvel sede do órgão.
Dois pontos que pedem explicação
O reajuste retroativo de 28 meses. Em 17 de fevereiro de 2025, o Estado empenhou R$ 368.996,38 para o CPF, com a observação de que se tratava de pagamento retroativo referente ao reajuste de valores no período de abril de 2022 a julho de 2024, do contrato 02/2013. Vinte e oito meses de reajuste liquidados de uma vez.
A dívida atrasada. R$ 901.502,42, ou 18,3% de tudo o que foi empenhado ao CPF, entrou como Despesas de Exercícios Anteriores, em oito notas. Quatro dessas notas foram emitidas em 2026 e se referem a setembro, outubro, novembro e dezembro de 2025.
A imobiliária: sete notas, e todas por inexigibilidade
A Piauí Administradora de Imóveis Ltda, CNPJ 27.836.590/0001-43, que na base de empenhos aparece sob a razão social Piauí Administradora de Shopping Ltda, recebeu R$ 404.619,60 em sete notas. O empresário consta do quadro societário desde 29 de maio de 2017.
Todas as sete notas são da Secretaria da Segurança Pública, todas de locação de imóvel, e todas saíram por licitação inexigível.
| Data | Valor | Objeto declarado |
|---|---|---|
| 30/07/2024 | R$ 84.295,75 | Imóvel na BR-316, bairro Belo Norte, em Picos |
| 13/02/2025 | R$ 202.309,80 | Imóvel de 218,95 m² para instalação provisória de salas da SSP-PI |
| 27/02/2026 | R$ 50.577,45 | Locação de imóvel |
| 10/07/2026 | R$ 16.859,15 | Locação de imóvel |
| 03/08/2026 | R$ 16.859,15 | Locação de imóvel |
| Demais duas notas de 2026 | R$ 33.718,30 | Locação de imóvel |
Aqui está a anomalia de rito mais nítida do levantamento. Locação de imóvel é hipótese clássica de dispensa de licitação, prevista no artigo 75, inciso V, da Lei 14.133, de 2021, desde que haja avaliação prévia do preço de mercado. Foi assim que o Estado tratou os contratos da pessoa física.
Inexigibilidade é outra coisa. Ela pressupõe que a competição seja inviável, ou seja, que não exista outro imóvel no mercado capaz de atender à necessidade. É afirmação que a lei exige provar documento a documento.
As sete notas da imobiliária registram inexigibilidade.
O que já está sob investigação
O Ministério Público do Piauí abriu, em 2024 e 2025, procedimentos para apurar contratos do grupo com o Estado.
Conforme noticiado pelo portal Teresina FM em setembro de 2025, o procedimento nº 002221-426/2024 apura a legalidade de obras firmadas com o Departamento de Estradas de Rodagem e outros órgãos estaduais, envolvendo a Construtora e Incorporadora Soma, a Construtora Solução e a S E Engenharia.
Conforme noticiado pelo portal OitoMeia em agosto de 2025, foi instaurado o procedimento preparatório nº 15/2025/35ªPJ, pelo promotor de Justiça Flávio Teixeira de Abreu Júnior, tendo em vista a relação de parentesco entre o sócio da Soma e o governador. O promotor invocou a Lei 14.133, que impede a participação de parentes em licitações de órgãos do governo. Cópia do procedimento foi enviada ao Centro de Apoio Operacional de Combate à Corrupção e Defesa do Patrimônio Público.
Segundo o Ministério Público, citado pela mesma publicação, entre 2024 e 2025 a empresa movimentou mais de R$ 330 milhões em obras contratadas com o Estado, sendo R$ 100 milhões apenas com o DER-PI. Na base de empenhos, os valores empenhados à empresa nesses dois exercícios somam R$ 107.107.852,63, diferença que se explica pela distinção entre valor de contrato assinado e valor efetivamente empenhado.
Outras publicações registraram contratos do grupo no período: o Portal AZ, em abril de 2026, sobre as Concorrências 001/2023 e 002/2023 do IDEPI; o Portal de União, em maio de 2026, sobre a Concorrência Eletrônica SEDEC/PI 037/2025, de R$ 104.535.705,56, para a obra de drenagem conhecida como Piscinão de Parnaíba; e o Blog do B.Silva, também em maio de 2026, sobre a licitação 00301.000003/2024-34 da Companhia Ferroviária e de Logística, de mais de R$ 18 milhões, com uma única empresa participante, que originou o contrato 026/2024.
O contrato 026/2024 está na base examinada por esta reportagem, entre os cinco empenhos da Companhia Ferroviária e de Logística que somam R$ 22.085.118,63.
O que diz a lei
O artigo 14, inciso IV, da Lei 14.133, de 2021, impede de disputar licitação ou participar da execução de contrato a pessoa física ou jurídica cujo dirigente, gerente, sócio ou responsável técnico seja cônjuge, companheiro ou parente em linha reta ou colateral, por consanguinidade ou afinidade, até o terceiro grau, de agente público que desempenhe cargo em comissão ou função de confiança no órgão ou entidade licitante.
Sogro é parente por afinidade em segundo grau, portanto dentro do alcance da regra.
A discussão jurídica que os órgãos de controle precisam resolver, e que esta reportagem apresenta sem tomar partido, é se o governador do Estado se enquadra como agente público do órgão ou entidade licitante para efeito da vedação, quando a licitação é conduzida por um departamento autárquico, por uma companhia estadual ou por uma secretaria.
O promotor de Justiça que instaurou o procedimento preparatório entende que a vedação alcança o caso. A questão está aberta.
A locação de imóvel pela administração é tratada no artigo 75, inciso V, da mesma lei, que a coloca entre as hipóteses de dispensa, condicionada à avaliação prévia do preço de mercado e à demonstração de que as características do imóvel condicionam a escolha.
As perguntas
Sobre a construtora e os consórcios
- Em cada uma das concorrências vencidas pela empresa e pelos consórcios no período, quantas empresas apresentaram proposta e quantas foram habilitadas?
- Houve certame com proponente único? Em quais?
- Em cada processo licitatório, a empresa apresentou a declaração de inexistência das vedações do artigo 14 da Lei 14.133? A declaração foi conferida pelo órgão? Por quem?
- Qual o percentual de participação de cada consorciada nos Consórcios SS 06 e SS 12?
- Qual a posição da Procuradoria Geral do Estado sobre a aplicação do artigo 14 aos contratos firmados por autarquias, companhias estaduais e secretarias, quando o parentesco é com o chefe do Executivo?
Sobre a pessoa física
- Qual a avaliação prévia de preço de mercado que embasou o contrato 02/2013 e o contrato 013/2018, e quando foi feita a última reavaliação?
- Qual a memória de cálculo do reajuste retroativo de R$ 368.996,38, e por que ele cobriu 28 meses de uma só vez?
- Por que R$ 901.502,42 do contrato viraram despesa de exercícios anteriores? Houve incidência de juros, multa ou correção?
- Quais imóveis são esses, onde ficam, qual a metragem e qual o valor do metro quadrado praticado?
Sobre a imobiliária
- Qual a justificativa da inexigibilidade de licitação nas sete notas de locação da Secretaria da Segurança Pública?
- Que documento comprova a inviabilidade de competição, ou seja, que não havia outro imóvel apto no mercado?
- Por que o mesmo objeto, locação de imóvel, é tratado por dispensa nos contratos da pessoa física e por inexigibilidade nos da empresa?
Ressalvas de método
Os valores são de empenho original, que é o compromisso formal de gasto, e não de pagamento efetivo nem de valor de contrato assinado.
A identificação das empresas partiu do quadro societário registrado na Receita Federal sob o CPF do empresário e foi cruzada com a base de empenhos por raiz de CNPJ. A Rádio Calçada verificou todas as empresas em que o CPF figura como sócio, administrador ou dirigente. As que não registram empenho do governo estadual no período foram excluídas desta reportagem.
A consulta societária reflete a composição atual. Esta reportagem não teve acesso ao contrato social e às alterações registradas na Junta Comercial do Piauí, que estabeleceriam a composição do quadro na data exata de cada licitação.
Nos consórcios, o valor é da pessoa jurídica consorcial e se reparte entre as consorciadas. A reportagem não teve acesso ao compromisso de constituição.
Esta reportagem não afirma que houve irregularidade, direcionamento ou favorecimento em qualquer dos contratos. Ela apresenta valores, ritos, objetos e datas registrados no Portal da Transparência do próprio governo, o parentesco publicamente reconhecido e as investigações já instauradas, e formula as perguntas que a base de empenhos não responde.
O que se pede
A Rádio Calçada solicita ao governo do Estado do Piauí a relação completa dos processos licitatórios que originaram os 21 contratos da Construtora e Incorporadora Soma e os contratos dos Consórcios SS 06 e SS 12, com o número de proponentes habilitados em cada certame, as atas de julgamento e as declarações de inexistência das vedações do artigo 14 da Lei 14.133.
Solicita à Secretaria da Administração e Previdência e ao Instituto de Terras do Piauí as avaliações prévias de preço de mercado dos contratos 02/2013 e 013/2018 e a memória de cálculo do reajuste retroativo.
Solicita à Secretaria da Segurança Pública a justificativa da inexigibilidade e a comprovação de inviabilidade de competição nas sete locações.
OUTRO LADO
A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas: Governo do Estado do Piauí, Governadoria do Estado, Secretaria da Administração e Previdência, Secretaria da Segurança Pública, Secretaria dos Transportes, Secretaria do Desenvolvimento Econômico, Secretaria de Integração e Desenvolvimento Regional, Secretaria da Assistência Técnica e Defesa Agropecuária, Secretaria da Agricultura Familiar, Departamento de Estradas de Rodagem do Piauí, Companhia Ferroviária e de Logística do Piauí, Instituto de Desenvolvimento do Piauí, Instituto de Terras do Piauí, Procuradoria Geral do Estado, Controladoria Geral do Estado, Construtora e Incorporadora Soma Ltda, Piauí Administradora de Imóveis Ltda, Consórcio SS 06, Consórcio SS 12, Construtora Solução Ltda e o empresário Francisco da Costa Araújo Filho. As respostas serão publicadas na íntegra.
A Rádio Calçada solicita ao Ministério Público do Estado do Piauí informação sobre o andamento dos procedimentos 002221-426/2024 e 15/2025/35ªPJ, ao Tribunal de Contas do Estado do Piauí e ao Ministério Público de Contas informação sobre eventual acompanhamento dos contratos citados.
Contato: consultor@xconexoes.com.br














