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setembro 20, 2026 09:59

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Navio Marine Victory completa 82 dias na costa do Piauí. Quem paga a diária?

Rastreamento AIS acompanhado pela Rádio Calçada desde junho mostra que o navio que levaria 110 mil toneladas de minério à China chegou em 14 de junho, o Venture está há 67 dias sem tocar nenhum porto, o Konta III entrou na operação em agosto sem constar de comunicado oficial e o Konta II deixou a costa piauiense com destino declarado às Ilhas Canárias. Até esta sexta-feira, a única carga confirmada oficialmente continua sendo a de 9 mil toneladas embarcada em 5 de agosto. Não há contrato público disponível que mostre quem arca com o custo diário dessa espera.

Jornalista Trabulo Neto (registro 0002880/PI)

Em 29 de junho de 2026, o graneleiro Konta II atracou no berço 401 do Terminal de Uso Privado de Luís Correia. Foi a primeira atracação de navio de carga da história do porto. O governador Rafael Fonteles acompanhou a manobra, sobrevoou a operação de helicóptero e afirmou na ocasião que o terminal permitiria o embarque de mais de 100 mil toneladas em um único navio.

Passaram-se 67 dias desde aquela manobra. Nesse período, a Companhia Porto Piauí S.A. confirmou publicamente o embarque de uma única carga, as 9 mil toneladas de minério de ferro extraído em Piripiri que deixaram o cais em 5 de agosto. A operação inaugural anunciada prevê 110 mil toneladas a bordo do navio oceânico Marine Victory, com destino à China. As 9 mil toneladas correspondem a 8,2% do total anunciado. Faltam 101 mil toneladas.

Esta redação acompanha desde junho, por rastreamento AIS, as quatro embarcações envolvidas na operação. AIS é o sistema de identificação automática que todo navio de grande porte precisa manter ligado e que transmite posição, velocidade, rumo, calado e destino. Os campos de destino, prazo de chegada e calado são preenchidos pela tripulação e podem ser alterados a qualquer momento. Eles indicam o que o navio declara. Não confirmam o que o navio carrega.

As datas de chegada, navio por navio

MARINE VICTORY (IMO 9455533, bandeira da Libéria, 250 por 42 metros, porte bruto de 114.091 toneladas, construído em 2011). É o navio oceânico que deve levar a carga à China. O prazo de chegada declarado no sistema era 14 de junho de 2026, às 14h. A partir dessa data ele passou a aparecer fundeado ao largo de Luís Correia, onde completou um mês em 14 de julho. Em 9 de agosto deixou a costa piauiense com destino declarado BR ICOARACI, na região de Belém, no Pará, e calado de 7,4 metros. Voltou a declarar Luís Correia como destino em 12 de agosto e retornou ao ponto de fundeio em 14 de agosto, agora com calado de 8,3 metros. Contados a partir da primeira chegada, são 82 dias vinculado à operação piauiense. Contados a partir do retorno, são 21 dias.

VENTURE (IMO 9233416, bandeira da Libéria, 190 por 32 metros, porte bruto de 48.184 toneladas, construído em 2002). É o navio-pulmão, a plataforma flutuante que acumula o minério trazido do cais antes da transferência final para o navio oceânico. Sua última escala portuária registrada foi Fortaleza, de onde saiu em 29 de junho de 2026. O prazo de chegada declarado a Luís Correia era 30 de junho, às 18h. Desde a saída de Fortaleza são 67 dias sem tocar nenhum porto. Na área de fundeio de Luís Correia, são 66 dias.

KONTA II (IMO 8530283, bandeira do Panamá, 110 por 27 metros, porte bruto de 9.595 toneladas). Chegou à costa piauiense por volta de 24 de junho e atracou no berço 401 em 29 de junho. Ficou 37 dias atracado até deixar o cais, em 5 de agosto, com as 9 mil toneladas da carga inaugural. Em 22 de agosto passou a declarar Fortaleza como destino. Deixou o fundeadouro de Fortaleza em 28 de agosto, às 21h37 no horário universal, com destino declarado Las Palmas, nas Ilhas Canárias, na Espanha. Não está mais na área da operação.

KONTA III (IMO 9872793, bandeira do Panamá, 110 por 27 metros, porte bruto de 9.581 toneladas). É praticamente gêmeo do Konta II em dimensões, capacidade e numeração de registro. Aparece pela primeira vez nos registros desta redação em 9 de agosto, já na área de Luís Correia, com prazo de chegada declarado para aquele mesmo dia, às 00h50. Entrou na área do cais em 14 de agosto. São 26 dias na operação. O Konta III não consta de nenhum comunicado oficial da Companhia Porto Piauí localizado por esta reportagem anunciando sua entrada na operação. Ele foi mencionado pela primeira vez em declarações do presidente da companhia à imprensa, em 17 de agosto.

O que os números mostram

A cronologia oficial da operação, reunida a partir dos comunicados da própria Companhia Porto Piauí e de declarações reproduzidas pela imprensa, é a seguinte.

Em 29 de junho, primeira atracação da história do porto, com a presença do governador. Em 5 de agosto, por volta das 9h, saída do Konta II com 9 mil toneladas, operação que a companhia informou ter ocorrido sem intercorrências e com acompanhamento da Marinha do Brasil e da praticagem. Em 7 de agosto, anúncio do início do transbordo em alto-mar a cerca de 22 quilômetros da costa, técnica apresentada pela companhia como inédita no Brasil em escala comercial permanente, com referência a experiências no Equador, em Singapura e na Guiné-Bissau. Por volta de 17 de agosto, o presidente da companhia, Raimundo Dias, afirmou à imprensa que o carregamento do Marine Victory seria concluído nos dias seguintes, quando o navio seguiria viagem para a China. Na mesma ocasião informou que o Konta II descarregava naquele dia e que o Konta III estava no porto para carregar.

Passados 18 dias daquela previsão, o Marine Victory continua sem confirmação oficial de partida para a China.

A aritmética da operação usa números publicados pela própria companhia. Cada viagem do Konta II leva cerca de 9 mil toneladas, número que a companhia confirmou na primeira viagem. Para reunir as 110 mil toneladas anunciadas seriam necessárias aproximadamente doze viagens completas, cada uma com atracação no berço, carregamento, deslocamento até o ponto de fundeio, transferência em mar aberto e retorno ao cais. Onze dessas viagens ainda não tiveram confirmação pública de tonelagem.

Transbordo, ou transhipment, é a técnica em que navios menores levam a carga do cais até um navio oceânico fundeado longe da praia. Ela é usada quando o canal de acesso do porto não tem profundidade para receber o navio grande.

O calado que não sobe

Calado é a profundidade da parte submersa do casco. Quanto mais carga o navio recebe, mais fundo ele afunda e maior fica o calado. Um navio em processo de carregamento tende a mostrar aumento progressivo desse número.

O Marine Victory retornou à costa piauiense em 14 de agosto declarando calado de 8,3 metros. Em 24 de agosto, dez dias depois, o rastreamento registrava o mesmo 8,3 metros. O Venture, cujo calado de projeto é de 11,724 metros, aparecia com 7,4 metros. O Konta III, com 4,3 metros.

É avaliação desta redação que um calado de 8,3 metros está distante do calado que um navio de 114 mil toneladas de porte bruto apresentaria com a carga inaugural completa a bordo, o que indica que as 110 mil toneladas ainda não foram embarcadas. Vale o registro de que o calado informado pelo AIS é declarado pela tripulação e não é medido de forma automática. Ele é um indício e não uma prova.

Na captura de 24 de agosto, às 23h05, o Marine Victory, o Venture e o Konta III apareciam fundeados a menos de 100 metros uns dos outros, com velocidades entre zero e 0,2 nó. Ausência de movimento no AIS não é o mesmo que ausência de atividade. Um navio pode estar recebendo carga parado. O que o dado mostra é que, ao longo de semanas, as três embarcações permaneceram praticamente na mesma posição, e que a única tonelagem confirmada em todo esse período continua sendo a de 5 de agosto.

A causa estrutural: o canal

O canal de acesso do Porto de Luís Correia tem profundidade oficial de 7 metros. O Marine Victory declarava calado de 7,3 metros já em julho, quando estava sem carga. Pelos números declarados, o navio não entraria no porto nem mesmo vazio.

Esse é o motivo pelo qual a carga precisa ser levada em navios pequenos até um ponto de fundeio a cerca de 22 a 30 quilômetros da praia e transferida em mar aberto, viagem por viagem. A própria Companhia Porto Piauí anunciou a intenção de aprofundar o canal para 11,5 metros. É avaliação desta redação que o anúncio é o reconhecimento oficial de que a profundidade atual não atende ao porte de navio que a operação exige.

Esta série já documentou os contratos de dragagem do complexo, da ordem de 68 milhões de reais destinados à DTA Engenharia, e o armazém inflável de 9,5 milhões de reais. É avaliação desta redação que o resultado desses investimentos precisa ser medido pela tonelagem efetivamente escoada, e não pelo número de anúncios.

O que continua sem resposta: quem paga a espera

Navio parado custa dinheiro. O afretamento é o valor diário pago pelo uso da embarcação. A sobrestadia, conhecida no setor pelo termo demurrage, é a multa diária devida quando o navio fica retido além do prazo contratado. São valores que correm todos os dias, independentemente de haver ou não carga a bordo.

Não há contrato público disponível que permita afirmar quem arca com esses custos na operação de Luís Correia. A definição depende da modalidade contratual acertada entre as partes. Em contratos do tipo FOB, o custo do navio corre por conta do comprador. Em contratos do tipo CFR, corre por conta do vendedor. Sem o contrato à vista, não é possível dizer se a espera do Marine Victory, do Venture e do Konta III é paga por empresas privadas ou se alcança, direta ou indiretamente, a Companhia Porto Piauí S.A., que é ligada ao grupo Investe Piauí e opera com recursos públicos.

Esta redação não afirma que dinheiro público custeia a espera dos navios. Afirma que não existe documento público disponível que permita descartar essa hipótese, e que a ausência desse documento é, em si, um problema de transparência em uma operação apresentada como marco histórico do Estado.

OUTRO LADO

A Rádio Calçada solicita manifestação das partes envolvidas.

Companhia Porto Piauí S.A.

  1. Quantas toneladas de minério de ferro foram efetivamente embarcadas no Marine Victory até esta data, além das 9 mil toneladas anunciadas em 5 de agosto?
  2. Quantas viagens de transbordo foram realizadas entre o berço 401 e o ponto de fundeio desde 5 de agosto, e em que datas?
  3. Por que o Konta III não foi mencionado em nenhum comunicado oficial quando passou a integrar a operação?
  4. Qual a previsão atual de conclusão do carregamento e de partida do Marine Victory para a China?
  5. O Konta II deixou definitivamente a operação de Luís Correia? Em caso positivo, por qual motivo e desde quando?
  6. Quem responde pelos custos diários de afretamento e de eventual sobrestadia das embarcações envolvidas enquanto elas permanecem fundeadas?
  7. A companhia assumiu, em contrato ou em qualquer instrumento, obrigação de pagamento de sobrestadia?
  8. Qual é a profundidade real do canal de acesso aferida na batimetria mais recente, e em que data essa batimetria foi realizada?
  9. Em que estágio está o projeto de aprofundamento do canal para 11,5 metros e qual o custo estimado?
  10. Qual o valor total já investido pelo poder público no complexo portuário de Luís Correia até esta data?

Investe Piauí

  1. O grupo aportou recursos para custear qualquer etapa da operação de exportação em curso? Em caso positivo, em que valor?

Governo do Estado do Piauí

  1. O Estado mantém a projeção de mais de 100 mil toneladas embarcadas em um único navio, apresentada em 29 de junho?

Lion Mining

  1. Qual a modalidade contratual da operação de venda do minério, e sobre qual das partes recaem os custos de espera das embarcações?

As respostas serão publicadas na íntegra, sem cortes e sem edição, no espaço que for necessário. Contato: consultor@xconexoes.com.br

ÓRGÃOS DE CONTROLE

A Rádio Calçada solicita manifestação do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, do Ministério Público de Contas do Estado do Piauí e do Ministério Público do Estado do Piauí sobre a existência de acompanhamento ou de procedimento em curso a respeito dos investimentos públicos no complexo portuário de Luís Correia e dos custos da operação de exportação inaugural.

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